MÃO(S) II - Reedição

Estudo de mãos - Vincent Van Gogh
MÃO(S) II
*
A mão que molda o barro, ao barro torna
Pra que não falte o barro às mãos por vir,
Pra que sempre haja mãos a ressurgir,
Pra que se anime o barro, ao tomar forma
*
Abençoada a mão que foge à norma
E se recusa ao gesto de oprimir,
Abençoada a mão que resistir
E a que surgir do barro a que retorna.
*
Olho esta minha mão. A tua. A nossa.
Sei que há-de fazer tudo quanto possa
Pra que outras mãos ressurjam depois dela
*
À minha mão velhinha, em tempos moça,
Já o tempo a descarna e a desossa
Sobre um barro que a fez rosada e bela.
*
Maria João Brito de Sousa
26.04.2018 – 15.02h
***
As mãos. Servem para fazermos tudo. O melhor e o pior. Para afagar, para dar, para receber, para trabalhar, para tanta coisa. E podemos olhá-las vazias para percebermos o tanto que nelas caberia...
ResponderEliminarO seu poema é muito inspirado e inspirador.
Tudo de bom, minha Amiga Maria João.
Um beijo.
Bem-haja, Graça!
EliminarSei que tenho uma primeira versão deste MÃO(S), mas já me não recordo do que nele deixei escrito. Terei de o procurar e de o reformular muito ligeiramente como faço com 99% dos sonetos que reedito. Tenho sempre a sensação de que todos os meus sonetos foram publicados antes de serem burilados. E deve ser exactamente isso que acontece...
Tudo de bom também para si, Graça!
Um beijo!
Brilhante este poema, como se pode dizer tanto sobre as mãos.
ResponderEliminarUm abraço.
L
Bem-haja, L.
EliminarUm forte abraço!
Olá Mª. João!
ResponderEliminar"Abençoada a mão que foge à norma
E se recusa ao gesto de oprimir,
Abençoada a mão que resistir"
Li uma vez que o génio humano para as diferentes artes se resume a uma ligação entre o cérebro e a mão, numa metáfora para o mestre e o seu executante.
Atualmente junta-se a esta equação os meios informáticos, os super computadores para escrever, criar obras de arte, escritas ou gráficas, até mesmo a possibilidade de através de outros meios se conseguir a ligação entre o cérebro e a criação.
E se cada vez mais existe a possibilidade de capacitar para a prática artística quem de outra forma não se poderia expressar, também existe a possibilidade de separar estes dois elementos e o cérebro se desligar da mão.
Quais serão os efeitos a longo prazo, os benefícios e prejuízos, com os artifícios que substituirão ou complementarão a mão é um mistério.
Assim como será um mistério qual será o nosso papel e se essas mãos poderão continuar "a fazer tudo quanto possa pra que outras mãos ressurjam depois dela", ou qual será o nosso grau de intervenção.
Como sempre, além da belos, os teus sonetos levantam inúmeras questões sobre a nossa humanidade e lugar no mundo.
Para refletir.
Noite descansada Mª. João.
Abraço muito muito forte!🐦
Tomara eu, pequena Cotovia, que todos encontrassem tudo o que tu consegues encontrar nos meus sonetos... Até parece que estamos ligadas por algum cabo ou Wi-Fi ou qualquer coisa mais ou menos assim, para não falar de uma palavra que uma amiga minha usava muitíssimo quando se dirigia a mim e me dizia que eu tinha imensa "tiapatia" Neste caso, és tu quem tem imensa "tiapatia"
EliminarNão, não sabemos mesmo qual será o nosso grau de intervenção, mas sabemos que somos a única espécie até agora por nós conhecida que evolui através de objectos por nós criados e cada vez mais complexos, embora outras espécies também utilizem objectos para atingirem os seus fins. Só sei que uma das ideias mais estúpidas que nos tentaram impingir foi a de que "nós criámo-la, portanto podemos pará-la". Neste momento destruiríamos uma boa metade da população humana deste planeta se parássemos tudo quanto é tecnologia, nem sequer é preciso esperarmos 10 segundos pelo futuro. Estamos dependentes da tecnologia e não há forma de recuar sem nos destruirmos. O que me assusta é a falta de ética de tantos humanos com cargos de responsabilidade. Mas até onde chegaremos, não sei, embora a vida/consciência fora de um corpo biológico seja uma das possibilidades a longo prazo...
De qualquer forma, não vejo que a clivagem entre explorados e exploradores esteja a diminuir. Muito pelo contrário.
Noite descansada e um grande abraço!
Olá Mª. João, bom dia!
EliminarPois então agora descobrimos que esta Cotovia, das suas duas 2 patas, uma delas é tiapata?!
Debe ser por o meu ninho estar a pouco mais de 100 metros das antenas de telecomunicações.
E não, não podemos parar a tecnologia nem os avanços e progressos, se isso acontecesse provavelmente nenhuma de nós duas estaria aqui a teclar, escrever, operar ou sequer a pensar nas perninhas de frango
E, por isso, sou imensamente grata às tecnologias, avanços e progressos.
Como tudo que é humano tem o reverso da medalha e é uma questão com a qual a humanidade tem de aprender a viver e gerir, como tantas outras, bem mais antigas que ainda não conseguimos, como um todo, resolver, pois as guerras não são de hoje.
Por isso acredito que o disciplinar dessa "mão" é muitíssimo importante, e infelizmente não é dado o mesmo crédito à mão generosa de tantos que pelo mundo fora dão com altruísmo sem que se veja, como da mão que tira e logo tanto crédito, divulgação e visibilidade ganha, como um prémio imerecido pelas audiências que obtêm.
Mas nesse sentido quem faz o que vimos somos nós mesmos enquanto comunidade, população, povo, nação, continente, mundo.
Se quisermos tentar mudar alguma coisa, temos de começar por individualmente fazer esse esforço e esse trabalho. Incentivar, ser solidário, dar apoio, dar atenção, ser respeitoso, gentil, trabalhar para a cooperação, valorizar os esforços individuais e coletivos, tantas coisas que estão na nossa mão levar a bom porto.
Porque sim, como dizes aqui e nas tuas poesias e sonetos, podemos naufragar, mas não é por não tentar, haja vontade e persistência.
Se conseguir encontrar o texto da mão partilho.
Um bom dia de feriado, Mª João.
Abraço muito forte desta Cotovia tiapata 🐦
Bom Dia 1º de Maio, pequena Cotovia cheia de "tiapatia"
EliminarNada tenho contra o facto de tentarmos melhorar enquanto indivíduos, mas isso é o que muitos de nós vão fazendo desde que o mundo é mundo e, claramente, não bastou. Eu sei que os argumentos não ideológicos são sempre muito difíceis de rebater - no melhor dos sentidos, claro! - mas estamos num mundo que nos converteu a (quase) todos ao capitalismo consumista, ainda que não demos por isso. É um capitalismo estruturado em pirâmide que , ainda que se auto-proclame altruísta e caridoso, continuará a explorar e a pressionar cada vez mais a base de que cada vez vai necessitando menos, ou melhor, embora seja a base que sustenta o topo, deixou de precisar de uma base muito vasta e como é mestre em fazer diabruras enquanto se faz passar por santo, desbastará essa base até entender que assim lhe basta. Por outro lado, estamos a assistir a um reacendimento de ideologias neonazis por esse mundo fora. Claro que muito mascaradas, muito pretensamente cheias de excelentes intenções que facilmente enganarão e conquistarão uma boa parte da massacrada base da tal pirâmide.
Estamos diante de um mundo real que está nas mãos dos que mais dinheiro têm e ainda que tentemos melhorar enquanto indivíduos a cada dia que passa, somos obrigados a confrontar-nos com esta dura e nem sempre visível realidade: um capitalismo organizado, embora agonizante. Ou nos organizamos e unimos esforços, ou seremos esmagados um a um, enquanto sorrimos delicadamente.
Agora voltando ao assunto do texto poético das mãos, encontrei uma quantidade deles e optei por reeditar o COM A VOZ QUE TRAZEMOS NAS MÃOS, por considerá-lo próprio para uma celebração do Dia dos Trabalhadores.
Entretanto, esbocei mais um ou dois poemas que guardarei para depois, que a minha Musa nem sempre está muito disposta a colaborar com esta poeta de cabelos grisalhos e coração remendado.
Abraço muito forte desta sonetista que é forte na dedução, mas não o é menos na "tiapatia"
[<)] [<)] tiapata aqui tiapata aí, cada uma em luta para participar na união de esforços para mais conquistas, como a do 1º de Maio, e sobretudo para as manter, se possível em Paz, haja saúde.
EliminarE desde que as vozes não se calem, seja com ou sem sorrisos, mais ou menos assertivas, chegarão com certeza onde tem de chegar, o que seria mesmo mesmo necessário era um Acordar! Para que as pessoas participassem mais ativamente, pois aquilo que se passa maioria das vezes é uma minoria, como as extremas totalitárias, que fazem tanto ruido que até parece que são a maioria, quando a maioria se mantém silenciada, quem se manifesta é que faz a realidade.
E esse silêncio associado ao comodismo, ao deixa andar, ao alguém virá resolver, dá origem aos piores momentos da história da humanidade. O olhar para o lado, em pequena ou grande escala é grave falta por omissão. Tão devastadora como a mentira e a ditadura e a censura. Conquistada a liberdade, há que continuar a lutar por ela.
Este assunto é vasto, gasto também, não estou a referir nada de novo, porque por mais movimentos, manifestações, se a vontade individual não for conquistada, pouco se consegue evoluir. Tem de haver uma mudança de mentalidade, como dizes e bem verdade, de ideologia, provavelmente nenhuma das que existe, desde o cristianismo ao liberalismo, passando pelo anarquismo, socialismo, social democracia, comunismo, monarquia, e outras mais, serviu ou servirá. Teremos de construir uma nova ideologia, trilhar por mares e caminhos nunca antes navegados, pensar e atuar em termos globais, como nós mostrou a pandemia, só estaremos bem quando todos estivermos bem, e espero que a humanidade encontre esse caminho, pela Paz.
Naquilo que for a minúscula contribuição desta Cotovia para, cá estarei, como tenho estado, numa minúscula parte deste grande mundo, mas faço o meu melhor esforço para que qualquer coisa positiva resulte da minha passagem por este mundo.
Não sei se tenho vindo a ser bem sucedida, ou se alguma diferença fará pelo bem, mas vou continuar a tentar, assim haja saúde, que falta de vontade nunca foi um impedimento, nem de trabalho.
Cá estaremos, uns para os outros.
Bom 1º de Maio, Mª. João.
Um abraço fortíssimo!🐦
Ninguém vive impunemente - talvez um punhadito de humanos viva ou tenha vivido sem ter sofrido nem um pouquinho, mas não to garanto - e ninguém passa pela vida sem deixar um rasto que se repercutirá até ao final dos tempos, pequena Cotovia. É um rasto mínimo e invisível para a esmagadora maioria, mas um rasto.
EliminarNão te esconderei, até porque disso me orgulho muitíssimo, que sou comunista desde a minha juventude, embora não reúna as condições necessárias à militância, que passam pelas reuniões frequentes nos centros de trabalho em constante debate de ideias e pelo trabalho de rua, na entrega de panfletos, na colagem de cartazes, na auscultação das queixas dos munícipes, na distribuição do Avante!, etc., etc... Mas sou-o e sê-lo-ei até o fim dos meus dias, ainda que na condição de "simpatizante", já que o expressão "comunista não praticante" me soa ao mais ridículo dos ridículos, e eu sempre "pratico" um pouco nalguns dos meus poemas.
Enquanto comunista e, obviamente, Marxista, perspectivo a História da humanidade enquanto uma luta entre exploradores e explorados. E é assim que as coisas se continuam a desenrolar, com conquistas como a do Dia do Trabalhador e a redução do horário de trabalho e derrotas múltiplas que jamais nos farão desanimar porque todos nós, comunistas, acreditamos num futuro - muito provavelmente longínquo - sem explorados nem exploradores e tudo faremos para que esse futuro venha a ser uma realidade. Este é o mundo que temos e este é o mundo que tentaremos transformar, por mais dura que seja essa transformação/mudança.
Tudo o que posso dar, porque nada tenho de meu, é o que sei sobre poesia e como sei que a palavra poética pode ser tanto um abraço quanto uma arma, vou-a distribuindo por aí...
Um grande, grande abraço, Cotovia!
Verdade, não é preciso ser tiapata para sentir quais são as tuas opções, Mª.João.
EliminarDesde o primeiro minuto que aqui vim ao teu blogue.
Independente das minhas opções políticas, que encaixam no humanismo e como já afirmei, sou europeísta, só porque ainda não está inventado o mundeísta, ou algo mais abrangente e fruto de um movimento mundial que a todos pudesse valorizar e enriquecer. Por isso vejo na medida do possível quais os movimentos correntes como por exemplo, ( que me indicaste), o transestético. Mas muitas das vezes não posso concordar com esses movimentos quando implicam destruição, pois, até por formação em na área de recuperação arquitectónica e urbanística e património construído, não acredito em destruir tudo, fazer tábua rasa e partir do zero, isso seria uma violência e convulsão. Acredito em recuperar, cuidar do que pode ser cuidado, cicatrizar o que tem de ser cicatrizado e partir daí. Acho interessantes os novos movimentos, mas mantenho-me no sistema democrático, e a federações, prefiro uniões porque implica, no meu ver, cooperação entre iguais, em que todos são chamados a intervir, independentemente da idade desde que atingida a maioridade, formação, grau académico, extrato social , género, credo, entre outros. Um sistema que obrigue a uma hierarquia rígida não me agrada, porque continua existir uma enorme e desvalorizada base de pirâmide que implica e supõe que uns se suportam nos outros sem que exista verdadeira igualdade e sem que todos tenham voz ou lhes seja dada a possibilidade de pensar e se expressar livremente em igualdade.
Mais, sempre que o sistema não é democrático, o surgimento de ditadores é favorecido e não preciso nomear todos as nações cujos povos são oprimidos por ditaduras políticas ou militares nos dias de hoje pois é do conhecimento de todos.
Mas é realmente um assunto tremendamente complexo e suponho que não se poderá resolver aqui os problemas do mundo.
Espero que não me leves a mal, mas suponho que também desde o início que me conheceste na Cotovia, não foi necessário seres tiapata para saber que não partilhamos a mesma opção nesta matéria. mas que o respeito que une é mais forte que as diferenças que separam.
Um abraço fortíssimo
Um forte abraço, Mª João.🐦
Sim, essa é a mais pura das verdades: o respeito que nos une é mais forte do que as diferenças que nos separam, pequena Cotovia.
EliminarMas olha que esse movimento "mundeísta" Internacionalista existe e tem por lema "Operários de Todos os Países, Uni-vos!" E quem diz operários diz trabalhadores do campo, de escritórios, das grandes empresas do Silicon Valley , de professores e auxiliares da educação, de trabalhadores da área da saúde, etc., etc.
Como deves saber, o próprio Álvaro Cunhal é oriundo de uma família da média/alta burguesia e sempre se declarou humildemente um "filho adoptivo do proletariado". E deixa que estas palavras antigas, mas fortes no seu significado, continuem a fazer parte da nossa linguagem porque, afinal de contas, a esmagadora maioria dos portugueses que trabalha aufere o ordenado mínimo, ou pouco mais, que todos sabemos não dar sequer para garantir um tecto sobre a cabeça e a certeza de pelo menos duas refeições por dia. Estes são os novos proletários, os eternamente explorados que bem dispensam que os teóricos modernaços lhes dêem nomes mais rebuscados, mas não podem dispensar o tecto e o pão que os seus ordenados não alcançam por mais que se estiquem as moedinhas e se finja ignorar a humilhação de ter de recorrer ao BA para não sucumbir à fome.
A esse mundeísmo é que eu pertenço, embora me limite a trazê-lo dentro do meu remendado coração e a ler sobre ele, que nada mais pode fazer uma velhota que nada consegue produzir para além de poemas e mais poemas...
Outro forte abraço, pequena e linda Cotovia!
🐦Obrigada, Mª. João!
EliminarOutro forte forte abraço!