NA ONDA - Custódio Montes e Mª João Brito de Sousa

NA ONDA - Custódio Montes e Mª João Brito de Sousa
*
Coroa de Sonetos
*
1.
*
No alto da onda deu-se a explosão
Do ventre saído, com luz, com amor
Livre de pecado, criado sem dor
Que do mar emana, mar da criação
*
Ao mundo lançado à procura de pão
E com alegria, garra e destemor
Andei pelo campo, cidade e ao redor
Em tempos passados, tempos que lá vão
*
Agora na onda deste tempo aurido
Procuro que o tempo me forneça tema
Para que o meu tempo fique enriquecido
*
Paro e olho em frente e então por sistema
Vou à biblioteca e depois de ter lido
Ocupo o meu tempo escrevendo um poema
*
Custódio Montes
27.4.2023
***
2.
*
"Ocupo o meu tempo escrevendo um poema"
Que brota da rocha que sou quando em rocha
Transformo a papoila que em mim desabrocha
Que às vezes é louco e bem louco, este esquema
*
No qual me aventuro sem leme e sem lema
De dia ou de noite e à luz de uma tocha,
Que acendo no escuro que de mim debocha
Tentando cegar-me, que o faz por sistema...
*
Porém nos provectos setenta que ostento
Em cabelos brancos até à cintura,
Rio-me do escuro que me observa atento
*
Tentando fazer-me fazer má figura
Crendo que me assusto ou até me atormento
Por ter de o pagar quando chega a... factura.
*
Mª João Brito de Sousa
27.04.2023 - 16.15h
***
3.
*
“Por ter de o pagar quando chega a factura”
Mas lá vou andando percorrendo a estrada
É demais o custo mas não deixo nada
Levo tudo avante de forma segura
*
Na crista da onda quando se procura
Encontra-se forma, por mais complicada,
De pagar a pronto conta debitada
Mas não pago nada quando vejo usura
*
Fui assim criado mas andei à rasca
Na borga em Coimbra e por lá a cantar
À noite passava as horas na tasca
*
Pagava aos amigos e sempre a gastar
Era inocente sem sair da casca
Mas não vale a pena andar a lamentar
*
Custódio Montes
27.4.2023
***
4.
*
"Mas não vale a pena andar a lamentar"
Pequeninos erros do nosso passado
Senão o presente passa-nos ao lado
E o futuro avança sem nos dar lugar...
*
Antes memoremos, pra comemorar,
Desses belos tempos, cada beijo dado,
Furtivo que fosse, de acordo ou roubado
À semi recusa de ocasional par...
*
Da borga não soube mais do que o que lia
E bem pouco ou nada gastava comigo
Que eu, por ser "menina", nem sequer saía
*
E sair à noite era, então, um p`rigo,
Um tremendo risco que eu nunca corria
Pois ficava em casa... sem ser de castigo.
*
Mª João Brito de Sousa
27.04.2023 - 21.10h
***
5.
*
“Pois ficava em casa…sem ser de castigo”
Mas isso era apenas quando combinado
Sem os pais saberem ficava fechado
Para brincadeiras com algum amigo
*
Porque normalmente seguia comigo
A ladrar a fusca pelo povoado
Ia para o monte de pastor do gado
Nadava no rio sem qualquer perigo
*
Que na minha terra quando era pequeno
Só havia o campo e mais nada ao redor
Os montes ao alto, o rio e tempo ameno
*
Os lameiros verdes, espalhada a flor
Um cheiro aprazível ondulante o feno
Os nabais frondosos, recantos de amor
*
Custódio Montes
27.4.2023
***
6.
*
"Os nabais frondosos, recantos de amor"
Compunham o grande temor dos meus pais:
- Se não sais comigo, de casa não sais,
Senão, minha filha, quando for`s maior!
*
Se eu ia à piscina e nadava a primor,
Logo a minha mãe se sentava entre os mais
E ou me vigiava ou fazia sinais
Pra que me sentasse a seu lado. Um horror!
*
Porém o destino pregou-lhe a partida
E foi na piscina que um dia encontrei
O amor que haveria de ser para a vida
*
Ou, melhor dizendo, alguém que eu amei
Com quem me casei sem ter sido pedida
E ao fim de trinta anos, ou quase, deixei.
*
Mª João Brito de Sousa
27.04.2023 - 22.35h
***
7.
*
“E ao fim de trinta anos, ou quase, deixei”
Quando se abandona é porque não se quer
Nosso companheiro - homem ou mulher-
Fica-se sozinho como é de lei
*
Vidas dessas nunca eu experimentei
A minha família sabe-me acolher
Vou andar com ela sempre que puder
E abandonado nunca estarei
*
Fui hoje a Amarante e a Sara de dois anos
Virou-me os seus olhos e a brandir a mão
Avô vais morrer. Eu fiquei sem enganos
*
Nessa circunstância ficarei então
Logo abandonado nos mundos insanos
Fico só - adeus - e sem contemplação
*
Custódio Montes
27.4.2023
***
8.
*
"Fico só - adeus - e sem contemplação"
Mas nas brincadeiras dos mais pequeninos,
Tudo tem a graça de angelicais hinos
Que da morte/morte nem têm noção
*
E se nela falam por qualquer razão,
Da mesma maneira pulam, fazem pinos,
Se entregam, audazes, a tais desatinos
Que nos perguntamos como aguentarão...
*
Quanto a nós, adultos no Outono da vida,
Bem sabendo quanto nada é linear
E que, a dor que mate, nem uma partida,
*
Ainda que ajude, poderá salvar,
Não espanta uma vida que foi destruída
Por dor que, de horrenda, prefiro calar.
*
Mª João Brito de Sousa
28.04.2023 - 01.05h
***
9.
*
“Por dor que, de horrenda, prefiro calar”
Calar, sim, calemos que é muito melhor
Falemos do dia até o sol se pôr
E da natureza, das ondas do mar
*
Não sobre a tristeza, temos de a arredar
E pô-la de lado. Falemos de amor
E de coisas boas ao nosso dispor
E já não da morte até ela chegar
*
As flores do campo, ou o nascer da aurora
Risos de alegria, sonhos de criança
Há tanta beleza pelo mundo fora
*
E até recordarmos - que boa a lembrança !!!
Deixemos as mágoas… que se vão embora
E que a vida traga ventos de mudança
*
Custódio Montes
28.4.2023
***
10.
*
"E que a vida traga ventos de mudança"
Que soprem nas velas das barcas da Vida
Pra que a Paz sonhada seja conseguida
E que em nós ressurja, renovada, a esp`rança
*
Sabemos que a barca desta Vida avança
Por entre borrascas qual guerreira f`rida
Que às vezes naufraga se for atingida
Por vaga que a exceda em vigor e pujança
*
Façamos, portanto, tudo o que pudermos
Pra que as tempestades sejam passageiras
Ou só se enfureçam sobre espaços ermos
*
Dos quais nossas barcas se afastem ligeiras
Se nós, marinheiros, amansar soubermos
Outras ameaças de ondas altaneiras.
*
Mª João Brito de Sousa
28.04.2023 - 10.30h
***
11.
*
“Outras ameaças de ondas altaneiras”
Como é o naufrágio que nos ameaça
Fiquemos na margem enquanto ele passa
E não arrisquemos a fazer asneiras
*
Na vida que corre há imensas maneiras
De afastar perigo que ao vir nos enlaça
Nos tira a saúde e nos deixa sem graça
Perturbando o sonho, causando canseiras
*
Que a vida nos corra sem melancolia
Porque ela é difícil e temos de ter
A clarividência e também a mestria
*
De em cada momento sabermos viver
Que os minutos passem com muita alegria
Assim tem que ser e querer é poder
*
Custódio Montes
28.4.2023
*
12.
*
"Assim tem que ser e querer é poder"
Embora nem sempre nos baste a vontade...
Mas acreditemos que é pura verdade
E algum benefício havemos de obter
*
Mas se de algum erro inocente eu estiver
Basta-me esse trunfo pra que a tempestade
Recue vencida p`la temeridade
De cada verdade que eu possa dizer?
*
Voltemos às ondas revoltas do mar,
Ao vento que sopra, ao trovão que reboa
E à mão sobre a roda do leme a teimar
*
Em salvar a Barca e levá-la a Lisboa:
Já passou a Barra e está quase a chegar
Ao porto que abriga a canção que ela entoa!
*
Mª João Brito de Sousa
28.04.2023 - 13.45h
***
13.
*
“Ao porto que abriga a canção que ela entoa”
Do alto da onda até praia segura
A barca descansa depois da procura
De posição firme à ré e à proa
*
Se se vir ao largo pequena canoa
A virar de lado como uma tontura
Volta lá a barca, logo lhe assegura
O seu salvamento, sem andar à toa
*
Mas neste começo ao em onda falar
Andou-me outro assunto no meu pensamento
Descrevi o modo de eu germinar
*
E de ter chegado sem padecimento
Ao mundo dos vivos sem dor nem chorar
Falei do início, do meu nascimento
*
Custódio Montes
28.4.2023
***
14.
*
"Falei do início, do meu nascimento"
Dos tempos primevos, do espanto à candura,
De mim, nascituro, e de mim, criatura
Que agora madura voa em pensamento
*
E tenta, e consegue esbanjar-se em talento
E poemas que alcançam tal envergadura
Que em todos se encontra quando se procura
Na onda em que escolha nadar contra o tempo...
*
De inícios falemos, assim, versejando
No entardecer deste dia de V`rão,
Quando a noite espreita e nos vai impregnando
*
De um luar que evoca uma outra dimensão,
Neste mar de assombro e de vagas quebrando,
"No alto da onda deu-se a explosão"!
*
Mª João Brito de Sousa
28.04.2023 - 21.25h
***
Linda coroa de sonetos!
ResponderEliminarParabéns aos sonetistas, Mª. João e Custódio Monte por esta poesia inspiradora e bela!
Uma viagem na vida de todos refletida através do vosso espelho de sentida alma poética.
Muito obrigada a ambos por a partilharem!
Um abraço forte Mª.João!
P.S. espero que as perninhas de frango tenham feito parte da refeição que a poesia alimenta o espírito, mas como diria a minha querida mãe de forma muito prática e terra-a -terra como boa beirã que é: "Saco vazio não se aguenta de pé!'
Eu tenho a certeza de que já te respondi, embora não consiga reproduzir todas as palavras... Ou o Ilustre Batráquio desmaiou, como o meu charriot, ou eu me esqueci de carregar no botão da publicação e a longa resposta evaporou-se como o quarto soneto desta coroa
EliminarMas agradeço-te pela parte que cabe e também pelo Custódio Montes que - que eu saiba... - nunca vem para estas bandas, nem conhece este meu blog.
Na minha resposta anterior, ainda as estavam no frigorífico. Agora já estão a apurar ao lume :) Mas , como vês, vão ser jantar... ou "brinner" que vem mais a propósito destas desoras.
Oops, está na hora de ir tomar a carteira de Sucralfato para dez minutos depois tomar o anticoagulante.
Um grande abraço, pequena Cotovia
Sem querer ser deslumbrada, mas já sendo, pois verdadeiramente a felicidade é minha pelos momentos de pura maravilha que a leitura das coroas de sonetos me proporciona. Nesta paixão pelos sonetos, as coroas é como estar num concerto! É mesmo uma sensação fantástica e fico realmente comovida, são arrebatadoras!
EliminarParabéns Mª. João!
Obrigada, e estendo os meus agradecimentos, e parabéns, ao teu amigo Custódio Montes!
Um abraço forte, fortíssimo! 🐦