DINAMENE - Custódio Montes e Mª João Brito de Sousa

camoes e dinamene.jpg


Imagem retirada daqui


*


DINAMENE
*
Coroa de Sonetos
*


Custódio Montes e Mª João Brito de Sousa
*


1.
*


Dinamene, onde estás que não te vejo


As ondas ocultaram-me o olhar


Porque o barca não pára de oscilar


Já desde que saí do rio Tejo
*



Vou em frente à procura dum desejo


Sê amiga a ajudar-me a encontrar


Esse cais para eu desembarcar


E assim realizar o meu ensejo
*


Uma amiga indicou-me um velho cais


Num jardim onde andou a minha idade


Vou em frente, haja mesmo vendavais
*


Para voltar a ter felicidade


Oh Dinamene, afasta os temporais


Que não aguento mais esta saudade
*


Custódio Montes


28.5.2023
***


2.
*


"Que não aguento mais esta saudade"


Mas foi vossa essa escolha meu senhor,


Que bem maior foi esse estranho amor


Ao que escrevestes, do que ao que me invade...
*



Forte amor foi o meu que na verdade


Por vós perdi a vida e o esplendor


E ao vosso mar, senhor, sei-o de cor


Que me afundei na sua imensidade...
*



Cuidai que o vosso Tejo me não esqueça


Que, às tempestades, tentarei detê-las


Contanto que Poseidon não me impeça
*


E que Éolo, ao soprar nas vossas velas,


Do que lhe peço nunca desmereça,


Senhor das minhas horas mais singelas.
*


Dinamene


por


Mª João Brito de Sousa


18.05.2023 - 13.50h
***


3.
*
“Senhor das minhas horas mais singelas”


Cuida deste meu barco que à deriva


Não mais me leva ao pé da minha diva


Vencendo as altas vagas e procelas
*



Olimpo, endireita-me estas velas


Que o regresso à saudade me cativa


Na alma que se anima e se activa


Para alcançar as margens ledas, belas
*



Neste imenso ruído à minha volta


Quero encontrar a paz e dar-lhe a palma


E não andar num mar revolto à solta
*


Éolo, pára os ventos dá-lhes calma


Ajuda este meu barco, faz-lhe escolta


Para encontrar o amor desta minha alma
*


Custódio Montes


28.5.2013
***



4.
*
"Para encontrar o amor desta minha alma"


À vida eu voltaria, se pudesse,


Mas já não escuta Deus a minha prece


Nem vós, senhor, ao mar bateis a palma
*



Por isso jazo imersa nesta calma


Das profundezas que ninguém conhece


E esta que vos amou calma parece


No abismo negro e frio, sem ver vivalma...
*



Ah, pudesse eu voltar, por um momento,


Aos vossos braços, respirar enfim,


Para vos dar um pouco mais de alento
*



Mas quase nada sobra já de mim


Enquanto a vós vos sobra um tal talento


Que humano algum jamais o teve assim!
*


Dinamene


por


Mª João Brito de Sousa


28.05.2023 - 15.10h
***


5.
*


“Que humano algum jamais o teve assim”


Só Deus o pode ter não um humano


E quem não pensa assim é puro engano


Porque o homem não tem poder sem fim
*



Mas deixemos de lado esse latim


Senão o Poseidon dá um abano


Cobre-nos o veleiro com um pano


E lá vai água abaixo este festim
*



Sigamos, pois, avante na viagem


Para ver se encontramos, na verdade,


O que queremos ver lá junto à margem
*



Regressando talvez à nossa idade


Com a beleza e graça de ser pajem


E afastar por momentos a saudade
*


Custódio Montes


28.5.2023
***



6.
*


"E afastar por momentos a saudade"


É tudo o que mais posso ambicionar,


Mas fui vencida pelo grande mar


E morri quando em plena mocidade
*



Se assim, senhor, me fui na flor da idade,


Que sempre vos lembreis de me lembrar:


Como eu amei ninguém vos há-de amar,


Mas se outra vos trouxer felicidade
*



Ide, senhor!, gozai essa ventura


Que, a mim, tão cruamente me roubaram


Quando era tão menina e bela e pura...
*



Amainai, vagas, que os ventos mudaram!


A vossa barca está livre e segura,


Mesmo morta os meus braços vos amparam!
*


Dinamene


por


Mª João Brito de Sousa


28.05. 2023 - 17.30h
***


7.
*


“Mesmo morta os meus braços vos amparam”


Coitada, mesmo morta, ainda pensa


Que recebe do amor a recompensa


No meio dessas ondas que a levaram
*



Dinamene, as lembranças que ficaram


Voaram pelo mundo sem licença


E lembram tua imagem, tua crença


E como património nos honraram
*



Se te livrares da morte, dos grilhões


Que te levaram nova e imatura


Regressa para os nossos corações
*


Amar-te-emos mais - que és tão pura -


Como te amou o épico Camões


Sem voltar a morrer nessa aventura
*


Custódio Montes


28.5.2023
***


8.
*


"Sem voltar a morrer nessa aventura",


Pudesse eu renascer como imortal


Pr` amar o meu senhor de modo tal


Que me estimasse mais que à literatura...
*



Estou, porém, morta. Resta-me a candura


De me saber tão pura e tão leal


Que lanço a minha voz feita de sal


Até vós, meu senhor, minha ventura!
*



Vós, vivos, que escutais os meus lamentos


Nada fareis por mim. Talvez lembrar


A escrava que passou por mil tormentos
*



E a jovem que acabou por se afogar


Mas que ao falar-vos vence os elementos


E, por amor, seduz o próprio mar!
*



Dinamene


por


Mª João Brito de Sousa


28.05.2023 - 19.20h
***
9.
*


“E, por amor, seduz o próprio mar”


Que a tragou no seu ventre tão profundo


Que abarca muito mais que meio mundo


Mas que a mantém imersa num altar
*



Amante que salvou sem se salvar


Tão bela com seu ar fresco e jucundo


Levada pelo mar fero, iracundo


Que depois a prendeu para a amar
*



Agora com o mar ela é poder


E continua amante interessada


Ajuda quem lhe pede para ver
*



Se lhe pode encontrar a sua amada


Atenuando a dor e o sofrer


Como quem sonha ali ter uma fada
*



Custódio Montes


28.5.2023
***


10.
*


"Como quem sonha ali ter uma fada"


Me quis o mar prender... e me prendeu


E foi o meu senhor quem me perdeu,


Esse que amei como ama uma encantada
*



Bem me viu, meu senhor, quase afogada,


Mas nem essa aflição o comoveu,


Que foi ao manuscrito que escolheu


E não a mim que me julgava amada...
*



Agora foi o mar que me tornou


Sua escrava leal. Eternamente


Serei escrava que a escrava retornou
*



Neste meu trono de algas, não sou gente,


Que em gente nunca o mar me transformou,


Nem Poseidon me deu o seu tridente!
*



Dinamene


por


Mª João Brito de Sousa


28.05.2023 - 20.50h
***



11.
*


“Nem Poseidon me deu o seu tridente”


Mas és muito importante na magia


Que entregas e que dás à poesia


Por salvar Portugal e sua gente
*



Perante a destruição quase eminente


Do livro que nos dá tanta alegria


Salvou-o o escritor que se afligia


Com a mão livre e um olho somente …
*



Tinha uma mão ao alto e a outra mão


Afastava a procela ao seu redor


E nessa grande e enorme confusão
*



Não sabia qual era o bem maior


Que tinha ali bem junto ao coração….


Perdendo um, salvou o outro amor
*


Custódio Montes


28.5.2023
***


12.
*


"Perdendo um, salvou o outro amor"


E crerás tu que o deva perdoar


Por conseguir um outro amor salvar


Entregando-me à minha eterna dor?
*



Talvez tenhas razão e, se assim for,


De que me vale agora lamentar?


Amor de escrava só o quer o mar


Que nela descarrega o seu furor...
*



Tu, que estás entre os vivos, desconheces


O que é ser-se uma eterna prisioneira


Das profundezas em que permaneces
*



Dia após dia, a eternidade inteira,


Sem que ninguém atenda às tuas preces


Nem entenda se és falsa ou verdadeira!
*


Dinamene


por


Mª João Brito de Sousa


28.05.2023 - 22.45h
***
13.
*


“Nem entenda se és falsa ou verdadeira”


Mas que queres que diga? Na verdade


Eu sou ninfa e por toda a eternidade


Mesmo que me aflija e o não queira
*



Camões logo soube isso e à primeira


Quis namorar comigo e à vontade


Andou à minha volta em liberdade


E correu o mar todo à minha beira
*



Mas com a tempestade veio a onda


Que nos forçou a andar dentro e fora


Agora não há sítio onde me esconda
*


Vagueio pelo mar a toda a hora


E só me encontrarão andando à ronda


Sem pressa, devagar e com demora
*


Custódio Montes


28.5.2023
***


14.
*


"Sem pressa, devagar e com demora"


Eu hei-de procurar-te, Dinamene,


Ainda que sem vela e que sem leme


Me perca mar adentro, ou mar afora...
*



Seja eu eterno só por uma hora!


Não haverá ninguém que me condene


Nem um segundo, só, em que não reme


Para encontrar-te onde uma vaga aflora!
*


Não cessarei, amor, de procurar-te


Nesse mar que, por ter-te, agora invejo,


E do qual, meu amor, hei-de arrancar-te
*



Pra devolver-te à vida num só beijo,


Que amar-te assim, amor, também é arte:


"Dinamene, onde estás que te não vejo"?
*



Lviz Vaz de Camões


por



Mª João Brito de Sousa


29.05. 2023 - 00.00h
***


 


DINAMENE (1).jpg


 


 


 


 

Comentários

  1. Bela Lusiada
    onde só falta, a gitarrada brinco.

    Bela Semana em harmonia
    e bom dia com alegria também MJ, beijinhos

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Dom dia, !

      Guitarra, harpa, bandolim... fica á vontade para acompanhares esta pequena aventura Lusíada. :)

      Obrigada pela parte que me cabe!

      Boa semana e beijinhos!

      Eliminar
  2. Uma coroa de sonetos a incentivar a minha capacidade de ler e entender os poemas. Gostei deste vosso diálogo com Dinamene e pude imaginar o nosso poeta Camões em diálogo com ela. Parabéns.
    Tudo de bom, minha Amiga Maria João.
    Uma boa semana.
    Um beijo.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Fico-lhe muito grata pela parte que me cabe nesta Coroa de Sonetos, Graça!

      Tudo de bom também para si, minha Amiga!

      Um beijo

      Eliminar
  3. Excelente!
    muitos parabéns para ambos.
    Um abraço

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Muito obrigada pela parte que me cabe neste trabalho a quatro mãos, Cheia :)

      Um abraço!

      Eliminar
  4. Olá Mª. João!
    Que belissima, emocionante e emotiva Coroa de Sonetos! Romântica e inevitavelmente faz sentir vontade de entrar neste mar poético!
    Excelente o remate para a evolução de sentimentos em crescendo nesta epopeia urgente de procura do amor, que se revela uma eterna busca heróica!
    Excelente, parabéns aos dois sonestistas de excelência, Custódio Montes e querida Mª. João!
    Onde anda esse mar, essa Musa, essa Poesia?! Pois aqui no poetaporkedeusker!
    Parabéns também pela referência no Follow Monday!
    Uma comunidade que preza a poesia é uma comunidade que preza a vida, o amor, a beleza da amizade.
    Um enorme e grande Xi de parabéns, Mª. João!
    Noite tranquila e serena!🐦

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Olá, pequena Cotovia

      Obrigada pelos parabéns :) Fiquei surpreendida porque não sabia o que fosse o Follow Monday. Creio que sou uma sapita gregária que mal conhece o seu sapal...

      Quanto à nova Coroa, o CM diz-me que, só em Coroas, já teríamos um livro de 498 páginas, salvo erro. Respondi-lhe que estávamos a escrever Os Lusíadas do séc. XXI, embora Os Lusíadas tenha sido escrito em oitavas e decassílabo maioritariamente heroico ;)
      Mas também tenho muitas Coroas com a Laurinda Rodrigues, com o Joaquim Sustelo, com o Jay W. Mota, com a Helena Teresa Ruas Reis, com a MEA, com a Lourdes Henriques e algumas a várias mãos em que também entrou a Ro Mar. Se não tenho cem Coroas, ando muito perto disso. Estou rica
      Que tenhas, também, um soninho descansado

      Um grande xi

      Eliminar

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