A QUEM SOUBER OUVIR O (EN)CANTO DOS PARDAIS

O (EN)CANTO DOS PARDAIS.jpg


A QUEM SOUBER OUVIR
O (EN)CANTO DOS PARDAIS
*



Aos mortos nos covais e aos que estão por vir,


Aos que estão a dormir, aos que nem dormem mais,


Aos troncos verticais dos cravos a florir


E a quem souber ouvir o (en)canto dos pardais,
*



Aos rios nos seus caudais, aos montes por subir,


Às pedras por esculpir, aos mestres geniais,


Às infracções verbais, aos versos por escandir


E à morte que há-de vir porque somos mortais:
*


 


O poema é uma aventura incerta e fascinante


Que ninguém nos garante, infinda descoberta,


Quase uma fresta aberta ao gesto vacilante
*



Do que ainda hesitante ousar o que o liberta


Porque a fresta desperta o que o levara avante


Naquele exacto instante em que ele a dá por certa.
*


 


Maria João Brito de Sousa


17.06.2020 - 12.31h
***


Em verso alexandrino com rima duplamente encadeada

Comentários

  1. Brancas nuvens negras19 de junho de 2023 às 00:31

    "O poema é uma aventura incerta e fascinante"
    Mantém-nos vivos.
    Um abraço.
    L

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    1. Sim, L., mantém-nos vivos mas, do mais fundo de mim, espero que faça mais alguma coisa para além disso. Para mim, por exemplo, a poesia foi vital para o meu crescimento enquanto ser humano desde os tempos em que a morte estava ainda tão distante que era difícil ter a certeza de que viria um dia.

      Um grande abraço

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  2. Depois de ler
    apeteceu-me voar
    ou cantar

    Abraço, com asa de pássaro

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  3. Pois é, e como tal
    boa Semana com alegria
    bom dia em harmonia que o Verão
    parece ter perdido
    o coração Beijinhos

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    1. Bom dia, !

      O Verão anda um tanto embuçado, mas é um mau-humor temporário. Não tarda põe-se a brilhar outra vez

      Beijinhos

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  4. Sim, esta aventura incerta e fascinante que é o poema, leva-nos a a amar a natureza e a tomar atenção ao que nos rodeia. Adoro o canto dos pardais. Por aqui, onde moro, são os melros que não se calam nunca.
    Tudo de bom. minha Amiga Maia João.
    Uma boa semana com saúde.
    Um beijo.

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    1. Ah, Graça, por aqui os pardais desapareceram há muito. De quando em quando aparece um melrito para me matar saudades , mas com excepção de um reduzido número de pombos e de uma gaivota caminheira que aparece sempre sozinha a passear-se junto ao meu prédio, as aves quase desapareceram do Passeio Vitorino Nemésio.
      Uma boa semana com muita saúde e Paz.
      Obrigada e
      um beijo!

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  5. Um poema fascinante, que nos ajuda a ter asas, para podermos voar.
    Feliz resto de dia, Maria!
    Um abraço

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  6. "O poema é uma aventura incerta e fascinante"
    E eu que tantas certezas tenho, no fascínio de cada poema pela Maria João partilhado.
    É tão bom voar por este cantinho
    Desejos cúmplices de uma boa semana para si, deixo lhe o meu abraço cúmplice

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    Respostas
    1. Bem-haja, Cúmplice do Tempo!

      Retribuo os votos de uma excelente semana.

      Um abraço

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  7. Lindíssimo Soneto, Mª. João!
    Gosto mesmo desta ritmo que o alexandrino dá ao Soneto, é assim um sentimento arrebatador, fico siderada!
    Muito obrigada!
    "E a quem souber ouvir o (en)canto dos pardais,
    *
    Aos rios nos seus caudais, aos montes por subir,
    Às pedras por esculpir, aos mestres geniais,
    Às infracções verbais, aos versos por escandir
    E à morte que há-de vir porque somos mortais:"
    Sublime!
    E as coincidências, a dos encantos da Poesia e da Vida, da relação com a morte, e o encanto do pardal... Acredita que ainda ontem observei uma obra de pintura que era um pardalito pousado numa bola espelhada onde a sua imagem se duplicava e pensei como era uma metáfora interessante para a vida, e aqui a volto a encontrar, a mesma referência.
    Não há coincidências
    Um grande e forte Xi, Mª. João!
    P.S.Muitíssimo grata pela tua partilha deste alexandrino, gostei mesmo, e não sei porque referiste que não são tão musicais como os decassílabos(?) ,eu adoro-os!

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    Respostas
    1. Fico muito feliz por saber que gostaste, Cotovia!
      Penso que se me tivesse ocorrido mais cedo compor um alexandrino com rima dupla encadeada, talvez não tivesse ficado tantos anos de costas viradas para este tipo de soneto... Mas, pronto, não vou recriminar-me por isso! As coisas ocorrem quando ocorrem e eu, muito sinceramente, não gostava nem um bocadinho dos sonetos alexandrinos que tinha lido: estava mesmo convencida de que nunca viria a dar-me ao trabalho de tentar escrever um único.

      Deves ser a única pessoa sobre este planeta que considera que o alexandrino é mais musical do que o eneassilábico, decassilábico ou hendecassilábico Pelo menos és a única que eu conheço, ainda que no mundo virtual, mas ainda bem que nem todos temos as mesmíssimas preferências.
      Talvez seja pela simetria! É bem possível que ele te agrade pela perfeita simetria que forçosamente tem de ter para poder ser chamado de alexandrino

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    2. Ainda bem que os escreves, são mesmo uma maravilha!
      Sim deve de existir alguma coisa no ritmo da sonoridade e na sonoridade dos sons e imagens criadas em simultâneo com as palavras que me cativa sobremaneira no alexandrino, é arrebatador!
      Embora também me agrade muitíssimo o hendecassilábico, o alexandrino é de facto espectacular. E sim, seria uma tragédia se todos tivéssemos os mesmíssimos gostos! O mundo caía para um dos lados ia tudo a correr para o mesmo sítio
      Xi Mª. João!

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    3. Ahahahahah!!! Estou a imaginar-nos todos a corrermos para o mesmo lado, rsrsrs

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  8. AOS PARDAIS...
    Que lá de cima dos beirais
    O olhar esguio e maroto...
    Nem sequer vós reparais
    Que lá em baixo um garoto
    Passeia cheio de alegría
    Na cabeça não leva chapéu
    E o pardal de cima se alivia
    E aquilo cai como do Céu !...
    ... o puto em seu desabafo:
    - Ó pardais
    Que lá de cima dos beirais
    Sem olhar pr'a quem passa
    Sem pudor como vos aliviais
    E não vedes a desgraça
    Que na cabeça causais...
    Eu fico pensando ao vê-lo
    Que talvez aquela trapaça
    Faça crescer o cabelo
    Da criança que ali passa...
    2025-03-21 - VS

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    Respostas
    1. Ao VS
      *
      Não tenho bem a certeza
      Se o que sai de uma cloaca
      Pode, ou não, gerar beleza,
      Já que não passa de caca...
      Mas quem sabe se algum calvo
      Irá ser abençoado
      Se um pardal tomar por alvo
      Seu couro descabelado?
      *

      Mª João

      21..03.2025

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