POEMA À PRIMEIRA MULHER II - Reedição

As três idades (2).jpg


POEMA À PRIMEIRA MULHER II
*



Imaculada, afirmo o que não devo:


Preencho a escura cova do meu fim


Com quanta flor semeie num jardim


Quimérico, insondável e primevo…
*



Ingénua, sem sonhar que me descrevo


À luz do que mais puro existe em mim,


Não fora o escuro abismo ser assim,


Profundo - tanto mais quão mais me elevo… -
*



Talvez soubesse projectar-me toda


Nos sonhos que me orbitam numa roda


Que aspira à mais perfeita identidade
*



Mas, finalmente, o germe do real


Corrompe a carne preservada em sal,


Desponta e vem-me impor toda a verdade.
*


 


Maria João Brito de Sousa


20.06.2014 - 16.33h
***


NOTA – Soneto recriado a partir do soneto original “Poema à Primeira Mulher”


in Pequenas Utopias, Corpos Editora, 2012


Imagem- "As Três Idades do Homem", Hans Baldung Grien

Comentários

  1. Belíssimo Soneto este Poema à Primeira Mulher II, Parabéns Mª. João!
    Todas teremos enfim escrito desde o primeiro dia o nosso fim inevitável, nesse profundo sentir, ao qual se em sonhos se desenha a realidade, essa mesma tráz de volta a verdade da mortalidade:
    "Talvez soubesse projectar-me toda
    Nos sonhos que me orbitam numa roda
    Que aspira à mais perfeita identidade"
    Prosseguiremos sonhando para viver plenamente a verdadeira realidade.
    Muito impactante, gostei, gostei mesmo muitissimo.
    Um forte Xi ❤️! 🐦
    P.S. e finalmente, acertadamente ( ou atempadamente): Bom São João, Mª. João!

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    Respostas
    1. Olá, pequena Cotovia!

      Este soneto, ou melhor, o original deste soneto está editado em livro. Não te sei dizer exactamente porquê - já lá vão nove anos... - encontrei-o e recriei-o/reformulei-o todo, de alto a baixo. Normalmente, o que a realidade me traz é bem menos definitivo do que a morte: costumo pensar muito é naquilo que pode ser mudado pelo ser humano, sobretudo em termos sociais, mas neste dia foi isto que me ocorreu, pelo menos momentaneamente.
      Bom São João para ti, que eu estou mais ou menos cozida ou assada num caldeirão

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    2. Está realmente um calor diabólico e que acaba com a minha tensão, se normal já é de 8.5/5.5 então com estas temperaturas deve de ficar lá por baixo fraquita, fraquita.
      Se resolvessem por-me num caldeirão secalhar nem dava por nada ...
      Aquilo que pode ser mudado pelo ser humano é por um lado uma preocupação, pelo mau serviço que temos vindo a prestar ao planeta, e por outro uma esperança, pois muitas vezes vimos o melhor que o ser humano tem em solidariedade e entre-ajuda.
      Fico muitíssimo curiosa de conhecer s primeira versão, tanto que andei esvoaçando pelo teu poetaporkedeusker mas não a encontrei, portanto deduzo que só a tenhas no livro publicado. Assim pensei ainda acerca deste soneto, que a primeira mulher também é além da jovem ( tal como na imagem que acompanha, das três idades) uma de outras duas mulheres, Eva segundo a religião, e Lucy, segundo a ciência e até ver, qualquer uma delas o início e o fim.
      Pois que somos sempre uma e a outra realidade e parte desta estranha existência da vida e do espírito. Mas isso serei eu a cogitar as dualidades óbvias, daquelas sobre as quais as questões são circulares e o fim de confunde com o princípio, questões demasiado complexas quer para uma Cotovia quer para este calor todo.
      Um grande, grande Xi❤️!✨💫🐦

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    3. Pois, provavelmente só o tenho no livro e é este o tal livro que foi vendido até ao último exemplar, portanto não o tenho comigo, que o computador faleceu entretanto e levou na sua memória o Poema À Primeira Mulher...
      Eu fui hipertensa durante anos e anos. Por mais anti hipertensores que me dessem, nada, a TA andava sempre lá nos píncaros até o meu cardiologista me dar nada mais, nada menos do que dois diuréticos : a Furosemida em jejum e a Espironolactona ao almoço. Foi remédio santo! A única vez que tive um episódio de hipertensão ao cubo foi quando escrevi uma coroa a jacto com o Jay Wallace Mota sobre a origem do universo https://poetaporkedeusker.blogs.sapo.pt/coisa-nenhuma-jay-wallace-mota-e-ma-822847

      XI

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    4. Pois sei bem que coroa e pico de tensão foi esse, um susto bem recente!
      Nessa altura comentei:
      "Olá Maria João!
      Extraordinária Poesia!
      Gostei tanto desta coroa de sonetos.
      Nem sabia que existia, uma espécie de desgarrada, cantiga ao desafio, de rap, mas em soneto! Fantástico!
      Bravo, intrépido, uma excelente oportunidade para unir as diferentes longitudes da nossa língua.
      "Na inversão de volta para o nada (...)"
      Se nada houver por lá, nessoutro lado
      Para o qual a matéria foi sugada
      Bem como toda a luz que houver gerado"
      A poesia como a luz que ilumina até ao mais escondido canto redondo infinito de Moebius.
      Adorei! Muito bom.
      Obrigada por esta fantástica surpresa Maria João!
      Abraço forte.🐦"
      E antes ainda de saber do teu pico de tensão ainda reforcei o meu estado de asombro, terás de me desculpar, nunca tinha visto uma coroa nem sabia que existia tal maravilha. Depois lá me acalmei um pouco quando revelaste que não te estavas a sentir muito bem.
      E com este calor quem não se consegue mexer lá muito bem sou eu cometas tensões baixitas, mas não têm o potencial de gravidade da hipertensão, é pacífico, até demais no sentido literal...
      Espero que tenhas um resto de dia de descanso, amanhã é o dia do teu temido exame, tenho confiança no teu xô Dr. Do coração e que te vai tratar muito bem, apesar do teu M, que não é apenas de Maria, nesta inusitada situação te estar a atormentar, espero que corra tudo bem para ele e para ti Mª. João!
      Por este lado terei de prestar apoio a minha mãe que com os seus 90 anos, não sei se pelo calor, se por ter alguma infecção latente, ou qualquer coisa relacionada com a bronquite cronica, teve de fazer análises de urgência e estamos a aguardar os resultados para saber o porquê do seu estado confusional e nada orientado, com um discurso que nos assustou a todos. Espero que venha algo nas análises que justifique isto para poder iniciar medição.
      Um grande Xi ❤️!

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    5. Pode muito bem ser do calor, sim, o súbito estado confusional da tua mãe. Todos perdemos electrólitos com o suor, mas nos idosos e nas crianças pequeninas o desequilíbrio hidro-electrólitico pode ser muito grave e levar a estados confusionais extremos. Espero que seja só esse o problema e que se resolva rapidamente com uns balõezinhos de soro e sódio tudo se resolva rapidamente.
      Como ainda não preparei a montanha de coisas que terei de levar comigo amanhã de manhã e o MR ainda nem me telefonou a combinar a hora a que me vem buscar, não vou escrever mais nada hoje. Amanhã devo chegar do hospital lá para o meio ou final da tarde e espero então poder ter boas novas sobre a tua mãe, se vier em estado de ler e escrever seja o que for, claro. Aquela coisa da perfusão do miocárdio continua a assustar-me, mas tem mesmo de ser e o que tem de ser tem muita força. Quase tanta como a minha desaparecida Musa
      Até amanhã - espero - e um grande xi

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    6. Espero ter boas notícias tuas amanhã então ao final da tarde, que o exame decorra dentro da normalidade e que os resultados sejam bons.
      Amanhã de manhã deveremos ter mais alguma informação, é verdade que este calor não ajuda os mais idosos, nem as mini pessoas, que sofrem imenso com as altas temperaturas e desidratação.
      Xi, até amanhã!🐦

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  2. Brancas nuvens negras24 de junho de 2023 às 12:58

    A verdade é aquilo em que acreditamos.
    Um abraço.
    L

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    1. Bom dia, L.!

      Sim, sempre o foi! No entanto, deixar de acreditar que existem verdades comuns a muitos de nós, não prenuncia nada de bom, por muito que esteja "na moda". Nem um génio como o do sr. Nietzche me conseguiria convencer do contrário...

      Forte abraço!

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  3. Brilhante. Encantador de ler
    *
    Fim de semana com Saúde, Paz e Amor.
    */*

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    1. Obrigada , Mariete!

      Retribuo os votos de um fim-de-semana com Paz, Saúde e Amor.

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  4. Excelente poema!
    Boa noite, Maria!
    Um abraço

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