CONVERSANDO COM MIGUEL TORGA
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RENDIÇÃO
*
Vem, camarada, vem
render-me neste sonho de beleza!
Vem olhar doutro modo a natureza
e cantá-la também!
*
Ergue o teu coração como ninguém;
Fala doutro luar, doutra pureza;
Tens outra humanidade, outra certeza:
Leva a chama da vida mais além!
*
Até onde podia, caminhei.
Vi a lama da terra que pisei,
e cobri-a de versos e de espanto
*
Mas, se o facho é maior na tua mão,
vem camarada irmão,
erguer sobre os meus versos o teu canto.
*
Miguel Torga
***
Ergui sobre os teus versos o meu canto
Mas não te rendo os sonhos de beleza
Que não terão, os meus, essa grandeza
Que o mundo galvaniza em puro espanto
*
Mas à força de ansiá-lo tanto, tanto
Quanto o pobre quer pão pra pôr na mesa,
Tentei manter uma candeia acesa
Sobre o canteiro em que os meus sonhos planto
*
Mas quis fazer bem mais que o que podia:
Entre realidade e fantasia
Tentei equilibrar-me sem tombar
*
E sobre a chama ardente da candeia
Quis cozinhar poemas para a ceia
Que não comi porque os deixei queimar...
*
Mª João Brito de Sousa
13.08.2023 - 23.00h
***
O poema RENDIÇÃO, de Miguel Torga, foi retirado do blog "O Cheiro da Ilha". Obrigada, Maria.
Sem saber porquê ao ler isto chorei
ResponderEliminarUm choro onde a mágoa é verdadeira
Não sou nem nunca serei pessoa sobranceira
Mas sou, pra meu penar, as dores que já penei.
Não me rendo, nem fraquejo na desdita
E admiro quem se ergue, quem se levanta
No meu coração viverá aquela se espanta
Quem, por tanto querer, nunca é proscrita.
Não me redimo nem me desculpo
De errar; já que humana sou e serei
Lamento é certos passos que já dei
Assim como lamento não ter nascido
Em melhor e mais rico berço
Mas tal não foi assim, por mim pedido.
Que seja sempre feliz, Poetisa Mª João.
Abraço-a com admiração.
Fico-lhe muito grata, Maria Antonieta/Maria Papoila, por me acompanhar nesta poética conversa com Miguel Torga que, para mim, sempre foi o velho Rocha, Já que ainda trago no ouvido a voz da minha avó Alice com o pesado telefone de disco na mão: - "Ó Toine - leia-se Tuáne -, vem cá que o Rocha precisa de falar contigo!" E o Toine, que estava sentado no cadeirão da sala, lá vinha todo contente... "Ó Rocha, viva meu velho! Então quando é que vens jantar connosco?"---- Belos tempos!
EliminarQue seja também muito feliz, Maria Antonieta!
Um abraço!
Um poema que rivaliza em qualidade com o poema de Torga. Uma distinção que a Maria João faz ao poeta que, sendo entendido como um grande poeta, nunca foi muito amigo dos que estavam colocados partidáriamente à esquerda dele.
ResponderEliminarSaúde, Um abraço.
Pelo que li no seu comentário ao comentário anterior, Torga abria excepções aos que considerava seus amigos.
EliminarMais um abraço.
O meu convívio com o Torga aconteceu durante a minha infância, L. ... Para mim, então com poucos palmos de altura, todos os que fossem contra o Estado Novo eram "de esquerda" e era sabido por todos que em nossa casa não entravam fascistas, com excepção dos pides que, volta e meia, nos visitavam sem terem sido convidados. De qualquer forma, eu adorava o velho Rocha e a sua poesia tanto quanto a sua prosa. Chegou a pedir-me que preparasse ilustrações para uma reedição de Os Bichos, mas a minha avó Alice faleceu entretanto e depois do seu funeral o Torga deixou de visitar-nos, o meu avô poeta entrou em depressão e teve o seu primeiro AVC e até o Nemésio foi espaçando as suas visitas. A minha avó era o grande pilar daquela casa e uma magnífica anfitriã. A sua morte mudou a vida de todos nós e a minha mãe que andava a braços com o novo bebé que era a minha irmã Clara, não tinha mão na nova governanta nem na velha empregada, a Ludovina.
EliminarRecordo-me muito bem das frequentes discussões que eclodiam entre o Torga e o meu avô, mas agora sei que nenhum dos dois era comunista. Na verdade, o único comunista da família era o meu pai que, no entanto, e tanto quanto recordo, só depois da Revolução dos Cravos aderiu oficialmente ao Partido.
Saúde e um forte abraço!
Acrescentei umas linhas que desapareceram e que repito, mais ou menos assim:
EliminarReparo, depois de ler a sua resposta ao comentário anterior que Torga abria excepções para os que considerava seus amigos.
Mais um abraço.
Maria João pode apagar a repetição.
EliminarDo alto dos meus poucos anos de vida, sempre o vi como um antifascista... Eu era uma criança precoce, mas era apenas uma criança, não entendia muito de política e, para mim, tudo se resumia a uma guerra surda e cruel entre "situacionistas" - fascistas - e "anti-situacionistas" que eu confundia com comunistas...
EliminarOutro abraço!
Compreendi e respondi como pude, L. Privei com o Torga dos 0 aos 10 anos de idade. Fartei-me de andar ao colo dele, ouvi mil e uma histórias contadas por ele. Um grande escritor e um anti-fascista, foi como sempre o viram os meus negros olhos infantis...
EliminarNos blogs do Sapo não é muito fácil apagar os comentários, L.... Deixe ficar a repetição que tenho medo de me enganar e apagar o que não devo
Eliminar"...erguer sobre os meus versos o teu canto.
ResponderEliminarMiguel Torga
Ergui sobre os teus versos o meu canto..."
Mª João
Boa noite, Francisco :)
EliminarE olhe que não é mentira nenhuma porque os primeiros poemas que li foram os do Torga e os do meu avô. Alguma influência ambos devem ter tido sobre a minha poesia infantil...
É curioso o que o Torga fez com este soneto... já reparou que os versos que não têm as dez sílabas métricas, têm exactamente as seis sílabas que correspondem ao primeiro hemistíquio de um verso decassilábico? ´É mais uma das muitas excentricidades do soneto, mas o efeito é muito belo.
Um fraterno abraço
Excelente, Maria!
ResponderEliminarBoa semana e um abraço.
Obrigada, Cheia!
EliminarBoa semana e um abraço daqui também!
Se poesia é o pão da alma
ResponderEliminarentão raspa a parte queimada
e serve a ceia
a minha alma esfomeada
(surpreendido pela força do poema de Namora)
O primeiro poema não é do Namora, é do Torga, querido amigo!
EliminarQuanto à Ceia queimada, já a tiveste nas mãos, lembras-te? É a Ceia do Poeta e foste tu quem ma imprimiu do primeiro ao último poema :) A tua esfomeada Alma terá sempre um lugar sentado na minha mesa poética. Prometo tentar não deixar queimar mais nenhum verso.
Forte abraço