LANTERNA QUE ILUMINA - Reedição
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LANTERNA QUE ILUMINA
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Coroa de Sonetos
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Maria João Brito de Sousa e Laurinda Rodrigues
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1
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Conceitos nossos, os de bem e mal,
Tão naturais quanto água cristalina
E tão inevitáveis quanto o sal
Da rocha que no mar o dissemina.
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Nossos porque nos é fundamental
Explicar espantos que a vida determina
Desde o tempo remoto e ancestral
Em que o medo nasceu. Quem o domina?
*
Demos e deuses no mesmo bornal;
Era a razão ainda uma menina
Que a cada descoberta acidental
*
Crescia no saber. Esmorece a sina
Na explicação do mundo e do real;
A razão é lanterna que ilumina!
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Maria João Brito de Sousa - 14.10.2020 - 15.38h
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2
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"A razão é lanterna que ilumina"
quando os sentidos exigem perceber
o porquê de nascer e de ter sina
que traçou o caminho a percorrer.
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Acaso tens "razão" naquilo que sentes
nas emoções que explodem no momento?
Percebes a "razão" ao ver que mentes
se te impunhas verdade a cem por cento?
*
Negaste a todo o corpo ter "razão"
quando adoece, num súbito apagão
do teu desejo "racional" de ter bem-estar?
*
Olha ao fundo de ti e está lá tudo
quando sorris, ou ris, ou estás sisudo,
mesmo quando a lanterna se apagar.
*
Laurinda Rodrigues
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3
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"Mesmo quando a lanterna se apagar"
Terei estado segura que a razão
Me acompanhou nas horas de sonhar
Ou de saber conter a frustração,
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Sempre que navegando neste mar
Soube enfrentar a negra escuridão
E, vez por outra, até soube amansar
As mais brutais rajadas de um tufão...
*
A pulsão que aqui vês canalizada,
Por nós foi decidida e avaliada:
Com ela conto quando aqui me atrevo
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Que ela me ampara ainda que estragada
(desde que eu nunca minta... ou quase nada),
E tudo o que escrevi, a ela o devo.
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Maria João Brito de Sousa - 15.10.2020 - 15.30h
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4
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"E tudo o que escrevi a ela o devo!"
Lá vai uma mentira! Não faz mal!
Porque a tua poesia é o relevo
de seres intensidade emocional:
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Pois a cultura, que subjaz ao verso,
nasceu, cresceu e acabou adulta
num balanço vital e controverso
no seio de uma Família que a exulta.
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Podes, por isso, invocar "razões"
para esquecer o gosto das paixões
que vibram nas palavras da poesia...
*
Mas eu, enquanto Irmã sem ser de peito,
vou vigiando da "razão" o jeito
de, "sem razão" de ser, ser fantasia.
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Laurinda Rodrigues
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5
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"De "sem razão" de ser, ser fantasia"
Que é algo que jamais a antagoniza
Porque a razão é livre e também cria
Quando em verso se faz e se harmoniza
*
Com toda a emoção que em si cabia...
Sabes bem que a razão idealiza
Que pega na meada, a tece, a fia
E não desiste até que a finaliza!
*
Porque as separas e dizes que minto
Se eu digo (quase) tudo quanto sinto
E as trago equilibradas no meu peito?
*
Vemos as coisas de um modo distinto:
Vês-me perdida nalgum labirinto
Só por trazer congénito defeito?
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Maria João Brito de Sousa - 15.10.2020 - 16.36h
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6
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"Só por trazer congénito defeito"
é uma frase que à "razão" reduz:
quem julga quem e afirma desse jeito
talvez não veja para além da luz.
*
A lua às vezes tem forma de corcunda
quando está prestes a ser a lua cheia
e alguém ousa dizer que ela se afunda
numa figura estranha que a desfeia?
*
Pensar o mundo por meio da razão,
rejeitando o oculto, o secreto, a ilusão
que só a alma vê, pressente, reconhece,
*
é como caminhar apenas num sentido
e nunca acreditar que vale ter vivido
sem a razão dizer aquilo que acontece.
*
Laurinda Rodrigues
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7
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"Sem a razão dizer aquilo que acontece"
Só serve a quem por tudo se confunde;
Provavelmente a alma desconhece,
Não sabe que a razão na luz se funde.
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A esse fio, nem toda a gente o tece,
Por muito que a meada em luz abunde:
Há-de haver sempre um nó que o fio empece
E que fuja ao confronto que contunde.
*
Sei que muito bem sabes que te entendo,
Mas saberás da luz que eu vou tecendo
Dentro desta minha alma racional?
*
Pega então na meada que te estendo
E diz-me, sem rodeios, se estás vendo
O despontar do velo original?
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Maria João Brito de Sousa - 15.10.2020 - 20.02h
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8
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"O despontar do velo original"
vi-o nascer no campo entre o rebanho
e não há outra luz que se lhe iguale
nem força visceral do seu tamanho.
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Não tem de ter "razão" nessa energia
que intuitivamente o alimenta:
agasalha no peito a sua cria
e é o grupo coeso que o sustenta.
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Se os humanos pudessem entender
que são corpos de luz a florescer,
calando muitas vezes a "razão",
*
talvez não fossem escravos da tristeza
nem estivessem tão cegos para a beleza
e ouvissem mais a voz do coração.
Laurinda Rodrigues
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9
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"E ouvissem mais a voz do coração"
Que nunca desprezei porque a mantenho
Bem livre e de mãos dadas co`a razão
Que também viu nascer esse rebanho.
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Sentes mais do que eu? Creio que não,
Que igualmente sentimos... mas é estranho
Que separes razão e coração
Quando ambos devem ter igual tamanho.
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Se bem equilibrados, movem mundos,
Mergulham juntos nos lagos profundos,
Juntos sobem ao céu que os não limita
*
E lado a lado serão mais fecundos;
Aquecerão até os vagabundos
Que andem por estradas de alcatrão e brita.
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Maia João Brito de Sousa - 16.10.2020 - 11.33h
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10.
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"Que andem por estradas de alcatrão e brita"
serão uns vagabundos bem saudáveis
porque esta reclusão até irrita
e torna os pacifistas vulneráveis.
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É difícil manter a coesão
entre aquilo que se pensa e o que se sente:
os estímulos bons para o coração
não são aceites pela razão da gente.
*
Assim, mesmo que queira partilhar
a união do sentir e do pensar,
reconheço que não passa de teoria...
*
E prefiro brincar, sem preconceito,
aos opostos entre cabeça e peito
e fazer, dessa luta, alegoria.
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Laurinda Rodrigues
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11
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"E fazer dessa luta alegoria"
Também eu posso e faço certamente
Mas não me digas que é só teoria
O que em prática ponho honestamente.
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Manter os dois coesos na harmonia
Pode bem conseguir-se facilmente;
Se assim não fosse eu não conseguiria
Escrever, sorrir, amar, seguir em frente...
*
Opostos, sim, mas só na brincadeira,
Que esta união é mesmo verdadeira
E se um desaguisado acontecer
*
Virá a ansiedade, bem certeira,
Desesperar-nos à sua maneira:
Ambos terão muitíssimo a perder!
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Maria João Brito de Sousa - 16.10.2020 - 15.14h
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12
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"Ambos terão muitíssimo a perder":
mas "perder" qual dos dois é que avalia?
lá estamos novamente a submeter
ao juízo, à razão, a tirania.
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Eu não fechei as portas à "razão"
mas a ela prefiro o termo "mente"
que tem a ver com a compreensão
de tudo o que se pensa e que se sente.
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Pode ser só semântica a falar
mas confesso que gosto de brincar
às "coroas" sem princesas ou rainhas...
*
E, depois, no final, apoteose
em que duas mulheres fazem osmose
a entoar, em coro, as ladainhas.
*
Laurinda Rodrigues
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13
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"A entoar, em coro, as ladainhas"
De encanto musical e singular,
Pois também eu deponho as tais rainhas
E me entrego à justiça popular
*
Que estas estrofes, sendo muito minhas,
São escritas para quem delas gostar
E pra quem saiba ler nas entrelinhas
Do tanto que por cá se ousou cantar!
*
Quanto ao juízo... para que é preciso
Se é o "todo" que sofre o prejuízo
Do desentendimento do dueto?
*
Seja o meu coração forte e conciso,
Rebente-me a razão em espanto e riso
Que a mente já me fecha este terceto
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Maria João Brito de Sousa - 16.10.2020 - 18.50h
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14
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"Que a mente já me fecha este terceto"
numa união perfeita com o oposto:
são o sol e a lua num dueto
da lua nova que escondeu o rosto.
*
Simbologia que a poesia tece
em melodia feita de palavras:
tem sentido no céu o que acontece
sincronia com a terra que tu lavras.
*
É serena a paisagem deste outono
evoca o inconsciente no seu sono
que obriga a ver o real e o irreal...
*
Afinal, somos nós que fabricamos
todos aqueles arquétipos que invocamos:
"conceitos nossos os de bem e mal".
*
Laurinda Rodrigues
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Excelente !
ResponderEliminarMuitos parabéns para ambas.
Um abraço, Maria!
Obrigada, pela parte que me cabe, Cheia!
EliminarUm abraço!
Parabéns a ambas pela maravilhosa coroa de sonetos!
ResponderEliminar"Pensar o mundo por meio da razão,
rejeitando o oculto, o secreto, a ilusão
que só a alma vê, pressente, reconhece,
*
é como caminhar apenas num sentido
e nunca acreditar que vale ter vivido
sem a razão dizer aquilo que acontece."
Muitíssimo obrigada por esta partilha, Mª. João para ler e reler, muito bom.
Muitos Parabéns!
Muito obrigada pelos teus belos tercetos, querida Cotovia.
EliminarNa verdade, é tão redutor - e perigoso... - desprezar a fantasia quanto dispensar a racionalidade, mas este não é o melhor dos dias para eu expor seja o que for...
Muito recentemente faleceu a minha única prima irmã e agora o marido de uma das minhas amigas mais próximas, uma pessoa que eu admirava muito e que até me ofereceu um poema que não consigo encontrar no meio de milhares de convocatórias, exames e resultados de exames médicos...
Outro grande xi