POUCA TERRA, POUCA TERRA...

                                            

                                                                      A nossa velha casa do Dafundo, na Marginal,

                                                                              mesmo à beira da linha do comboio

                                                                                                         *


POUCA-TERRA, POUCA-TERRA

*

Pouca-terra, pouca-terra…

Tanta terra falta ainda,

Tanto rio por navegar,

Tanto cume de alta serra,

Tanto trilho que não finda,

Tanta praia e tanto mar!

*

 

E, do comboio que passa,

Pouca-terra/muita-pressa,

Na melopeia de infância,

Não concebo uma ameaça:

Quero ver que terra é essa,

Quero medir-lhe a distância!

*

 

Pouca-terra? – mais que fosse! –

Quanta insondável lonjura

Há no triste olhar que fica

Numa curva amarga ou doce

Da transitória procura

A que o homem se dedica

*

 

Pouca-terra… e, afinal,

Tanto, ainda por cumprir

Nas distâncias que prevejo:

Pouca terra? Não faz mal,

Muito mais terra há-de vir!

Pouca terra e... tanto Tejo!

*

 

 

Maria João Brito de Sousa

08.08.2010 – 15.35h

***


Comentários

  1. A minha próxima paragem é na minha rua, mas não na minha casa, onde se realiza o encontro do Círculo Literário de hoje.

    Abraço desejando-lhe uma boa viagem 🚂

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    Respostas
    1. “Pouca terra e... tanto Tejo!“

      Somente agora encontrei o poema tão cheio de movimento …

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    2. Escolheu uma excelente paragem, Teresa!

      Outro abraço e uma boa viagem!

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    3. Os comboios da Linha do Estoril - agora passou a chamar-se Linha de Cascais - sempre fizeram parte da minha vida. Agora que estou impossibilitada de me deslocar em transportes públicos e que já os não vejo passar quando estou na minha varanda, sinto-lhes a falta.

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  2. Vamos lá então em pouca terra pouca terra pouca terra

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  3. Brancas nuvens negras18 de agosto de 2023 às 14:38

    A luz da infância que ainda não se extinguiu, agora, pelas palavras da autora já adulta que interiorizou e não esqueceu um percurso que, decerto, fez muitas vezes.
    Um abraço.

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    Respostas
    1. Ainda não se extinguiu, não, L. :)

      Tive uma esplêndida infância que, de alguma forma, me ajudou a sobreviver a muitas das agruras que me esperariam mais tarde.
      Nesses comboios, fiz o liceu todo, de Algés a Oeiras, além de que gostava de vê-los passar quando estava a ver o Tejo na varanda da frente da casa do Dafundo...

      Outro abraço!

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