UM PASSEIO COM CUSTÓDIO MONTES

COM A ARVORE DA BORRACHA (4).jpg


UM PASSEIO COM CUSTÓDIO MONTES
*
Coroa de Sonetos
*


1.
*


Ao andar, a tristeza vai-se embora


Que vejo lindas moças a passar


Também cravos e rosas ao olhar

E vem-me uma alegria acolhedora
*

Desenvolvo, ao andar, força motora


Que me faz ir mais longe a caminhar


Fortalecem-se os músculos a andar

Sentindo-me melhor a cada hora
*

Vejo cravos e rosas, raparigas


Que me inspiram no verso e nas cantigas


Ao olhar o seu rosto e o seu seio
*



Vejam bem o que ganho, pois remoço

Ao andar sem cansaço e pouco esforço


E a ver coisas lindas no passeio
*


Custódio Montes
19.9.2023
***


2.
*


"E a ver coisa lindas no passeio"


Apesar dos tropeços e dos sustos,


Sou tentada a espreitar entre os arbustos


De onde emana um dulcíssimo gorgeio
*



Um melro distraído em seu recreio


Consigo vislumbrar sem grandes custos


E sinto-me a mais brava dentre os justos


Por ter vencido incómodo e receio!
*



Correm crianças junto do canteiro


Nestes cinquenta metros do carreiro


Que vai da minha porta ao cafezinho
*



Mas não fora a bengala que me ampara,


Nem esse quase nada eu avançara


Que é cada vez mais duro o meu caminho...
*


Mª João Brito de Sousa


19.09.2023 - 16.00h
***



3.
*
“Que é cada vez mais duro o meu caminho”


Porque já avançou a minha idade


E mesmo que eu siga com vontade


As pernas já me cansam um pouquinho
*



Mas para mostrar força ao vizinho


Na rua vou com mais velocidade


Levanto o peito impante com vaidade


E para não sofrer vou com jeitinho
*


Faço por parecer que sou um jovem


E para que os que passem o comprovem


Eu ando com um ritmo bem veloz
*


Mas quando chego a casa já cansado


Deito-me a descansar um bom bocado


E só mostro a fraqueza quando a sós
*



Custódio Montes
19.9.2023
***


4.
*
"E só mostro a fraqueza quando a sós"


Me encontro com meus versos... mas sem Musa


Porque ela odeia ver-me assim, contusa,


E ainda que me tolha dor atroz
*


Monta no seu cavalo e vai veloz,


Sem qu`rer sequer ouvir a minha escusa,


Pra onde o corpo meu se me recusa


A tentar alcançar, ficando nós
*



Eu e a dor que maldigo e me maldiz,


Achacada talvez, não infeliz,


Que sempre acabo assim, nem mal, nem bem:
*



Acostumada à dor já eu vou estando


E se uma musa parte cavalgando,


Outra qualquer ressurge e me sustém!
*



Mª João Brito de Sousa


19.09.2023- 20.00h
***


5.
*
“Outra qualquer ressurge e me sustém”


E assim eu vou andando devagar


Sento-me na parede, volto a andar


A musa às vezes vai atrás também
*



Por norma inspiração ela contém


Pensa, escreve, corrige sem parar


Eu tomo as minhas notas e a olhar


Caminho mais um pouco e o verso vem
*


O tempo passa, anda mais depressa


A musa vai-se embora e regressa


Outras vezes amua e vai embora
*


Quando chego a casa já nem sei


Se o verso se compôs e se rimei


Ou se o poema vem ou se demora
*


Custódio Montes
20.9.2023
***


6.
*


"Ou se o poema vem ou se demora",


Eis o que a toda a hora me espicaça


A alma, sob a velha carapaça


Do corpo estropiado no qual mora
*



E enquanto envelhecendo, hora após hora,


Esta estranha incerteza me trespassa,


Vou-me enchendo de rugas porque a traça


Se faz pagar bem cara... mas valora!
*



Passeio - mais por dentro que por fora-


E nasce em mim a fauna e cresce a flora


Que o tempo em mim semeia enquanto passa
*



E quanto mais o tempo me decora,


Mais este corpo gasta e det`riora,


Mas mais a minha Musa aumenta em graça!
*



Mª João Brito de Sousa


29.09.2023 - 14.30h
***


7.
*


“Mas mais a minha musa aumenta em graça!”


Porque tem lá por dentro o pensamento


Que extravasa cá fora de momento
*


E apanha com élan tudo o que passa


Depois juntando a musa à sua raça


Envolve o seu poema com talento
*


Que a gente sabe bem ser um portento


E cobre-o de beleza e assim o enlaça
*


Andar é bem preciso para mim


Porque se não andasse julgo, enfim,


Que a minha musa nunca me ajudava
*


A dar um lindo enfeite ao meu poema


E para o escrever era um dilema


Porque estando eu parado ela amuava
*


Custódio Montes
20.9.2023
***


8.
*


"Porque estando eu parado ela amuava"


Tal como a minha amua se eu, teimando,


Me esforço para andar e tropeçando


Caio e nem sequer saio de onde estava...
*



Porém, não sendo dela mera escrava,


Posso bem dispensá-la... ao meu comando


Irá meu coração, mesmo mancando,


Cobrar da Musa o que ela me cobrava
*


Se o cavalo-de-fogo é meu também,


Se somos filhas de uma mesma mãe


E de um só corpo estamos dependentes
*


Somos apenas uma, tu e eu...


Sofrerá uma o que outra já sofreu,


Chorando um dia e, noutro, sorridentes.
*



Mª João Brito de Sousa


20.09.2023 - 20.20h
***


9.


*
“Chorando um dia e, noutro, sorridentes”


Porque a alma e a musa em unidade


Andam, mesmo paradas, na cidade


Trabalham como moiras permanentes
*


Não descansam e até mesmo doentes


Andam a magicar, pois, na verdade,


Não param no seu reino a majestade


De musa e alma tão eloquentes
*


Mas eu transporto a musa a passear


Que ela segue contente a me inspirar


E se a sinto cansada então descanso
*


Sentamo-nos num banco e encostados


Fica-nos livre a mente e abraçados


Mais facilmente a ideia eu alcanço
*


Custódio Montes
20.92023
***


10.
*


"Mais facilmente a ideia eu alcanço",


Mais esta tresloucada e velha Musa


Correndo se me escapa e me recusa


Do verso o suave e pendular balanço...
*



Ainda agora, qual touro não manso,


Tentou mudar de ritmo... e eu, confusa,


Vi-me aflita, lhe juro, que ela abusa


E não segue o compasso em que eu avanço!
*



Uma única vez me aconteceu,


Vê-la muito mais forte do que eu,


Mudar-me um hemistíquio todo inteiro,
*



Impor-me as cinco sílabas sonoras


E deixar-me um vazio que durou horas


Nas teclas e na tinta do tinteiro!
*



Mª João Brito de Sousa


20.09.2023 - 22.30h
***



11.
*
“Nas teclas e na tinta do tinteiro”


Ficou-me o pensamento a fraquejar


A ideia foi-se embora e a baralhar


A palavra ficou sem paradeiro
*


Andei a procurá-la o dia inteiro


Foi-se a manhã e a tarde a procurar


A noite apareceu e ao acordar


Encontrei-a bem junto ao travesseiro
*



Falei com ela, amei-a, fiz-lhe festas


Ficou muito feliz, limou arestas


Levou-me à porta, então, da poesia
*


Palavra harmoniosa, obrigado


Encontrei o teu rumo e encontrado


Deixaste-me inundado de alegria
*


Custódio Montes
20.9.2023
***


12.
*


"Deixaste-me inundado de alegria"


O coração que quase me parou


Quando senti que alguém me sequestrou


O dom de dominar a melodia
*



E já só me restava o que saía,


Qual disco velho que outro alguém riscou...


Sim, meu amigo, o susto já passou


E serenou-me a mão que então tremia,
*



Mas não me sinto ainda bem segura


De nunca mais viver esta loucura,


Esta impotência face à poesia
*



Este não conhecer-me em quem eu era


E a sensação de ser eterna a espera


A que me condenou esta avaria!
*



Mª João Brito de Sousa


21.09.2023 - 00.00h
***
13.
*


“A que me condenou esta avaria!”


Mas andar faz-me bem ao coração


Alivia-me a mente e a tensão


E vejo cravos, rosas, harmonia
*



Inspira-me a vereda que me guia


A ver e encontrar o pontilhão


Que atravesso com toda a atenção


E chego logo ao cais da poesia
*



Salto dentro, onde encontro a palavra


E vou lançando a ideia e sigo a lavra


Com harmonia, gosto e com carinho
*


Descanso, sinto cheiros, vejo flores


E penso, nessa altura, nos amores


Fazendo-lhes poemas no caminho
*



Custódio Montes
21.9.2023
***



14.
*
"Fazendo-lhes poemas no caminho"


Está o nosso passeio quase findo


E devo-lhe dizer que foi bem lindo,


Embora me pareça, a mim, curtinho...
*



Ainda que eu não tenha um passo asinho


E me atrapalhe para o ir seguindo...


Outro virá e eu esperarei sorrindo


Que da próxima vez não vá sozinho
*


Porque embora tolhida e vagarosa


Quero poder ver uma ou outra rosa


Dessas que brotam da terra onde mora
*


E passo a passo, ainda que me assuste,


Sei que o que diz não é nenhum embuste:


"Ao andar a tristeza vai-se embora"!
*



Mª João Brito de Sousa


21.09.2023 - 13.15h
***


 


Na fotografia, eu com a minha saudosa Ficus elastica, nos alvores deste século

Comentários

  1. A foto é bem original porque descomprometida com o cenário.
    A coroa de sonetos é em tudo um passeio pelos caminhos que, nesta época, são nossos conhecidos. Para o fazer foi preciso um grande fôlego. Apreciei.
    Um abraço.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Obrigada pelo que respeita á minha metade, L.

      Essa foto descomprometida e descontextualizada é fruto de um aviso que o Sapo disponibilizou a todos os seus bloggers sobre os riscos muito reais de publicarmos imagens que violem os direitos de autor de seja quem for. Confesso que andei a pecar durante 16 anos, mas prometo ser agora mais cautelosa, com muita pena, claro, pois dava-me um certo prazer encontrar imagens que dialogassem com os meus sonetos...

      Forte abraço!

      Eliminar
  2. Maria João
    Gostei da foto.
    Adorei estes sonetos em passeio.
    Admiro profundamente quem tem talento para escrever sonetos, tão bem.
    Fiquem ambos de parabéns por este momento tão especial de poesia.
    Bom final de semana.
    Obrigada!
    Um beijo
    :)

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Boa noite, Piedade

      Muito obrigada pela parte que me cabe neste trabalho a quatro mãos, amiga.

      Um excelente fim-de-semana neste ainda suave começo de Outono.

      Um beijo

      Eliminar
  3. É preciso ter muito folgo, para escrever coroas de sonetos. Muitos parabéns aos dois.
    Boa noite, Maria.
    Um abraço.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Não digo que não, Cheia, não digo que não, porque não é com facilidade que encontro sonetistas com disponibilidade para me acompanharem em Coroas de Sonetos... E também sei que muitos leitores nem sequer têm paciência para ler uma coroa inteirinha nos tempos apressados que vivemos e em que quanto menos se tiver de ler, melhor...
      Perdem assim uma conversa toda inteira em soneto clássico, com os seus momentos de desabafo e tudo, que eu deixo muitas vezes escapar pequenas dificuldades que possa estar a sentir durante a "viagem" poética.
      Obrigada!

      Bom descanso e um abraço!

      Eliminar
  4. Olá Mª. João!
    Parabéns a ambos! Como é bonito este passeio poético pela vossa Coroa.
    Admirável.
    É espantosa a vossa capacidade de criar sonetos ao ritmo dos passos, por um caminho de flores e palavras, sentimentos e incertezas, mas sempre disponíveis para continuar a apreciar a paisagem.
    Muito obrigada a ambos.
    Obrigada pela partilha.
    Enorme Xi e aplaudo vigorosamente querida Mª. João. Bravo! 🐦

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Obrigada pela metade que me cabe deste trabalho a quatro mãos, pequena Cotovia

      Fico contente por saber que gostaste, apesar do meu inesperado bloqueio

      Um bom descanso e outro grande beijinho axicoraçãozado[(L)

      Eliminar
    2. Olá querida Mª. João.
      O teu bloqueio é evocativo do "passeio" em que todos nós nos encontramos nesta vida, não isenta de sustos e desencontros, por vezes até o compasso do verso nos troca as voltas e põe cabelos em pé. Mas a ordem está reposta e o décimo soneto desta belíssima coroa composto e "penteado" a rigor neste passeio a 4 mãos entre ti e o Custódio Montes, para nos presentear na entrada de mais uma estação da vida, o Outono.
      Parabéns e obrigada pela partilha.
      Uma note tranquila, querida Mª. João, hoje (já é dia 22) é dia de desafio 1foto1texto, e na Cotovia dia de Tanka (ou Waca), espero que gostes destes mini poemas nipónicos em que a ausência de rima tradicional é uma regra mas a métrica está presente de 5-7-5+7-7.
      Enorme Xi e mil beijinhos axicorãozados para ti, querida Mª. João. 🐦

      Eliminar
    3. Bom dia, linda Cotovia!

      Dormi razoavelmente, obrigada, mas nunca mais voltei a dormir que nem uma pedra, apesar de ser exactamente que nem uma pedra que eu dormi durante anos e até há bem poucos meses,
      Pois, o décimo soneto foi resgatado ao bloqueio disártrico, mas esteve muito tempo à espera de ser escrito na medida que lhe competia, coitado, rsrsrsrs Agora que já passou, rio-me da minha triste e desamparada figura a escrever e a apagar verso hendecassilábico, atrás de verso hendecassilábico até conseguir, com um esforço sobre-humano, voltar ao ritmo do decassilábico. Foi surreal!

      Que tenhas um dia feliz neste Outono que, por aqui, ainda está morninho

      Mil beijinhos axicoraçõezados

      Eliminar
    4. Um susto, e dos valentes, querida Mª João!
      Esse pânico afinal refletindo melhor, não o quero, contradigo o que inicialmente anunciei, não era um benefício, seria um enorme prejuízo!
      Ainda bem que não existem lâmpadas mágicas como as de Aladino que me ia correr muito mal isto de desejar coisas alheias
      Se o génio bater à minha porta, mando-o embora sem pedir nada que é mais seguro!
      Beijinhos axicorãozados querida Mª João!

      Eliminar
    5. Não, espero que nunca apanhes um susto destes sobretudo se, como eu, souberes que pode ser sintoma de uma situação neurológica nada, mas mesmo nada simpática. Não era, ou eu ainda estaria toda baralhada, mas cheguei a temer que fosse...

      Hummm... olha que se eu pudesse pedir qualquer coisa ao génio da lâmpada, talvez lhe pedisse que me oferecesse uns dentinhos novos, que eu não os posso comprar

      Beijinhos axicoraçõezados

      Eliminar
  5. E assim
    juntaram-se os dois à esquina
    compondo palavras
    mas sem concertina
    Bom dia com alegria que é já sexta feira
    e o fim de Semana no ar também.
    Belo dia e beijinhos MJ.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. A concertina, podias trazê-la tu, !

      Ai, tens razão, já é sexta-feira e eu tenho de adiar pela quarta vez a minha ida ao hospital para fazer infiltrações nos joelhos, que o MR tem aulas durante todo o dia e eu não tenho quem possa levar-me e depois ficar dois dias a tomar conta de mim, que vou ficar sem poder andar...
      Não sei como está o tempo por aí, mas por aqui ainda está morninho, apesar de enevoado.

      Beijinhos

      Eliminar

Enviar um comentário

Mensagens populares deste blogue

NAS TUAS MÃOS

MULHER

A CONCEPÇÃO DOS ANJOS - Em nove sílabas métricas