FOLHAS - Custódio Montes e Mª João Brito de Sousa
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FOLHAS - Coroa de Sonetos
Custódio Montes e Mª João Brito de Sousa
1.
*
Ainda há folhas verdes e amarelas
Nos ramos do carvalho ao alto erguido
Resistem ao inverno aparecido
As verdes são mais fortes do que aquelas
*
Que caem mais depressa, como estrelas
Cadentes, num adeus enternecido
Depois rolam no chão humedecido
Vemo-las mais de perto e são tão belas!
*
As verdes ficam presas lá no ar
Suspensas como aves pelos céus
Mas sem sair do ramo nem voar
*
Do chão não vemos nós os olhos seus
Senão talvez se vissem a chorar
Pelas irmãs que vão sem um adeus
*
Custódio Montes
3.12.2023
***
2.
*
"Pelas irmãs que vão sem um adeus"
Não chorarão as folhas que, ficando,
Ignoram que a seguir estarão voando
Em loucos remoinhos pelos céus
*
Pra formarem, depois, pequenos véus
Sobre o chão, sob os pés que as vão pisando...
Soltam-se agora algumas como um bando
E uma lágrima cai dos olhos meus
*
Tombam as folhas velhas e cansadas,
Mas dentro em breve as novas brotarão
E da nudez das árvores geladas
*
Nascerão folhas verdes em botão...
Falham-me agora as rimas, desoladas,
E espalham-se-me inúteis sobre o chão.
*
Mª João Brito de Sousa
03.12.2023 - 15.25h
***
3.
*
“E espalham-se-me inúteis sobre o chão”
Mas mesmo assim encontra-se beleza
Ao ver as mutações da natureza
Conforme vai mudando a estação
*
E basta olhar e ver com atenção
Que cada folha tem a singeleza
De ter a vida curta e a certeza
De cair como as outras cairão
*
Pois tudo tem um fim, é passageiro
Cada coisa tem seu acontecer
Umas vão-se depois outras primeiro
*
E cada dia isso é bom de ver.
Mas o belo ao se olhar prazenteiro
Como a folha ao nos dar tanto prazer
*
Custódio Montes
3.12.2023
***
4.
*
"Como a folha ao nos dar tanto prazer"
Assim são as pequenas alegrias,
Esses raios de sol que às manhãs frias
Vêm iluminar e aquecer
*
Tudo tem prazo, doa a quem doer,
E há sempre um fim prás nossas energias
Mas enquanto vivemos somos vias
Pra tudo o qu`inda está pr`acontecer
*
Passageiros, é certo, mas humanos
E cada um de nós com seu talento,
Vamo-lo propagando ao longo de anos
*
Clamamos a atenção do desatento
E mesmo sendo já velhos decanos
Poetamos em rajadas como o vento!
*
Mª João Brito de Sousa
03.12.2023 - 17.15h
***
5.
*
“Poetamos em rajadas como o vento”
Que soa nas quebradas dos outeiros
Como os anunciantes pioneiros
Com voz sonora e cheia de talento
*
A boa nova chega de momento
Com badalados tons sempre certeiros
Bem ao alto espalhadas por sineiros
Audíveis e agradáveis a contento
*
O tema é a folha que caiu
E deixou no carvalho a sua irmã
Depois de ao chão cair ela fugiu
*
E deixou de se ver pela manhã
Bem triste, a sua irmã jamais a viu
E aqui se canta a fuga com afã
*
Custódio Montes
3.12.2023
***
6.
*
"E aqui se canta a fuga com afã"
Fechando o ciclo da renovação
Para que as folhas mortas pelo chão
Dêem lugar às folhas de amanhã
*
Se a vida é curta, que não seja vã,
Que nenhum verso nosso nasça em vão
E que o Soneto, escrito com paixão,
Seja tão tentador quanto a maçã...
*
Sei que o tema é a folha, nunca o fruto,
Mas ambos nascerão do mesmo galho
E de uma mesma mãe serão produto
*
Enquanto se desnuda o seu carvalho,
Eu luto pra vencer um duro luto
E às vezes - tantas vezes... - sei que falho.
*
Mª João Brito de Sousa
03.12.2023 - 21.00h
***
7.
*
“E às vezes - tantas vezes - sei que falho”
Mas falhar é humano notem bem
Aposto, todos falham e ninguém
Dirá que nunca fez esse trabalho
*
Cada um pendurado no seu galho
Deixará ver esse erro que se tem
Falhando como os mais ele também
Nem que seja tão só mesmo um migalho
*
Desviei-me do assunto nestes versos
Porque o tema é a folha e o seu cair
Não outros diferentes ou diversos
*
Ver a folha no ramo a ir e vir
E depois por motivos mui adversos
Vê-la solta a voar e a fugir
*
Custódio Montes
4.12.2023
***
8.
*
"Vê-la solta a voar e a fugir"
Foi o que motivou esta ousadia
De fazer algo no qual nem eu cria
Que pudesse avançar e concluir...
*
Dança a folha ao descer e ao subir
Ao sabor da gelada ventania
E eu, que mal me mexo, gostaria
De ser folha tão só pra não sentir
*
Ou pr`aceitar a dor naturalmente
Sem que essa dor me fira como agora...
Dançar ao vento e ser uma semente
*
Em vez disto que sou, que sofre e chora,
Por um amigo que, de tão doente,
Nem sonha que o que sou por ele implora.
*
Mª João Brito de Sousa
04.12.2023 - 00.50h
***
9.
*
“Nem sonha que o que sou por ele implora”
Como manda a justiça e a gratidão
Porque era para mim como um irmão
E sinto-o a sofrer e a ir-se embora
*
Por isso também sofro hora a hora
Com a minha fraqueza e condição
E a angústia que me vai no coração
Com esperança a ver se ele melhora
*
É triste ver partir quem nós amamos
Mas a vida é amar e é sofrer
E nessa condição todos estamos
*
Sentimo-nos em baixo a padecer
Mas a alegria vem quando lembramos
Momentos que tivemos de prazer
*
Custódio Montes
4.12.2023
***
10.
*
"Momentos que tivemos de prazer",
El`cheio de saúde e eu doente
Mas, por ele amparada, sorridente
Que tanto então julgava assim poder...
*
Agora partirá sem eu o ver...
Há tanto tempo que se encontra ausente,
Que eu julgo ser a folha inda pendente
Que à folha em queda quer tentar reter
*
Faz frio lá fora e dentro do meu peito
Não sei se há sangue ou seiva ou só tristeza...
Espero por ele ou simplesmente aceito
*
Que caia a folha que julguei bem presa?
O meu pequeno mundo era perfeito
E hoje nem de existir tenho a certeza...
*
Mª João Brito de Sousa
04.12.2023 - 13.50h
***
11.
*
“E hoje nem de existir tenho a certeza”
Mas existe-se sempre enquanto há vida
E deixam-se os tormentos à deriva
Esquecem-se ao olharmos a beleza
*
E nesse olhar e ver com singeleza
Tomamos a cautela que é devida
Pomos a poesia ao alto erguida
E construímos nela a fortaleza
*
E firmes sempre em frente a caminhar
Com bela e poética passada
E flores lado a lado a enfeitar
*
A vida tem beleza assim pensada
E sempre a andar risonhos e a cantar
Sem esses condimentos não é nada
*
Custódio Montes
4.12.2023
***
12.
*
"Sem esses condimentos não é nada",
Nem se honra a bela folha que caiu:
Escrevamos mesmo presos por um fio
Ao mais pequeno galho da ramada
*
E se a partida dói qual espadeirada
Ou nos sentimos quase em desvario,
Honremos esse irmão que hoje partiu
Com uma c`roa que há-de ser lembrada
*
Como a folha mais verde e mais pujante
De um carvalho por mim imaginado
Numa terra de sonho, algo distante,
*
Que o vento quis levar no seu bailado
Para a deixar tombar mais adiante
Num gesto sem sentido e não pensado...
*
Mª João Brito de Sousa
04.12.2023 - 22.30h
***
13.
*
“Num gesto sem sentido e não pensado…”
A folha foi levada e lá caiu
O vento tresloucado soprou frio
Sempre, sempre mais forte e mais gelado
*
O sol ia caindo e já deitado
Fez aumentar o vento e o calafrio
Que cada vez mais fraco e doentio
Enregelou à volta o chão molhado
*
Tremia já a folha e o vento norte
Aumentou sua força e a ventania
Ingente e enovelada, bem mais forte
*
Fez com que a folha, muito fraca e fria,
Voasse ao deus-dará e já sem sorte
Ninguém a visse mais ao vir o dia
*
Custódio Montes
5.12.2023
***
14.
*
"Ninguém a visse mais ao vir o dia"
Mas embora ninguém pudesse vê-la,
Persiste no meu peito, é verde, é bela,
Sorri ainda e ainda me alumia
*
Que, às vezes, a amizade, por magia,
Transforma a folha morta numa estrela
E nunca, nunca mais se esquece dela,
Por mais forte que sopre a ventania...
*
No Outono da vida, o vento colhe
As folhas secas, mas não colhe aquelas
Que nosso coração protege e escolhe
*
Quando a amizade as transmutar em estrelas,
Gritaremos à dor que hoje nos tolhe:
-"Ainda há folhas verdes e amarelas"!
*
Mª João Brito de Sousa
05.12.2023 -11.20h
***
Ao Manuel Rui do Canto Dias Duarte Ferreira
29.05. 1961- 04.12.2023
*
Reservados os direitos autorais
***
Li um pouco à pressa a coroa de sonetos.
ResponderEliminarVou voltar menos emocional e com mais tempo.
Desatar o nó do luto é terrivelmente difícil — eu sei do que estou a falar.
Quero deixar palavras reconfortantes, mas não as encontro.
Abraço-a, Maria João, compreendo como ninguém a sua dor.
Daqui, do meu fim de Tejo hoje sombrio, abraço-a também, Teresa. Obrigada
EliminarMuito bonita homenagem querida Poetisa Mª João e Caro Custódio Montes, obrigada a ambos por com amizade e bem querer partilharem esta coroa onde:"a amizade, por magia, Transforma a folha numa estrela"
ResponderEliminarOs meus sentimentos a ambos, a todos os Amigos e Família.
Obrigada pela parte que me cabe nesta coroa que não é de flores, mas de versos entrelaçados com folhas que se transformam em estrelas, querida Cotovia.
EliminarUm abraço muito, muito apertado
Uma bonita homenagem.
ResponderEliminarUm grande abraço, Maria João!
Obrigada, Cheia.
EliminarUm grande abraço
Um dueto maravilhoso nesta poética de tom triste e tão vital. Assim é a vida real, mas só a poesia tem o dom de transformar lágrimas de luto em beleza.
ResponderEliminarUm abraço aos dois
Agradeço do fundo do coração pela parte que me cabe, Ana.
EliminarUm abraço grande, grande
'Quando a amizade as transmutar em estrelas,
ResponderEliminarGritaremos à dor que hoje nos tolhe:'
-"Ainda há folhas verdes e amarelas"!
Lindo isso, Maria
A sua musa correpondendo de pronto e a contento.
Dar honra a quem tem honra ' _ essa é a boa homenagem.
Um abraço forte , amiga
Obrigada pela parte que me cabe nesta pequena homenagem a um Homem que merece muito, muitíssimo mais do que o pouco que lhe posso dar, querida Lis
EliminarUm abraço forte, forte
Horas de adeus
ResponderEliminarque até a minha Guitarrita
aflita
respeita o silêncio dos que partem
Bom dia e boas rotinas agasalhadas MJ, beijinhos
Obrigada pela tua compreensão, ...
EliminarComo digo no soneto que ontem à noite escrevi, ainda me sinto pouco à vontade com as palavras... é como se elas viessem quebrar um silêncio que ainda me vai sendo necessário...
Beijinhos
Aceitar a nossa finitude é um avanço na compreensão da nossa passagem efémera por este lugar. O longo poema, a duas mãos, tem um destinatário, é uma homenagem. A tristeza também pode ter beleza como se prova pelo que hoje aqui se publica.
ResponderEliminarUma saudação aos dois poetas.
Um abraço.
L
Obrigada, L., pela parte que me cabe neste trabalho a quatro mãos.
EliminarEsta última folha caída era ainda jovem, trabalhava no ensino por uma dúzia de folhas e esteve a meu lado durante todos os mais duros momentos dos últimos oito anos da minha vida. Estou a tentar reaprender a sobreviver.
Um forte abraço
Que lindo querida Maria João! Ele sempre nos falava de ti, trazia-me suas poesias e desejava promover o nosso encontro poético. Partilho a dor, o abraço e uma tentativa de soneto minha, com amor para ele. Espero nos encontrarmos, ainda que nas asas da poesia!
ResponderEliminarSONETO PARA MANUEL
Hoje o céu amanhece tão nublado
Com a chuva chorando tua partida
A chegada da tua despedida
Deixa o teu Carcavelos desolado
Portugal despertou hoje calado
E o Brasil também chora a tua ida
Teu abraço, tua voz, olhar e vida
Deixarão nosso céu mais estrelado
Deus esteve connosco e é fiel
Porque tu exististe, e está contigo
Desde o nome escolhido, Manuel!
Nossa casa e memórias são comigo
Tens agora nas mãos o teu corcel
Obrigada por tudo, meu amigo!
(Josy Correia, 07//12/23, Carcavelos)
Oh, Josy, que coisa linda, o teu soneto de homenagem ao Manuel Rui!
EliminarCreio que sou a única pessoa que sempre tratou este grande amigo por Manuel Rui, nunca só por Manuel... Mas isso não importa nada agora.
Também a mim ele falava frequentemente de ti e da Luciane, sim. Houve até um dia em que prometeu que me levaria a visitar-vos, mas houve um qualquer contratempo de última hora e, infelizmente, nunca chegou a ser possível encontrarmo-nos. Quem sabe, talvez agora vocês venham dar um passeiozinho até à pastelaria Paris, perto do Palmeiras Shopping ... Estou lá todos os dias entre as 18.00 e as 19.30h e não será difícil reconhecerem-me pela minha looooonga cabeleira branca.
Um grande abraço
"Tudo tem prazo, doa a quem doer,"
ResponderEliminarAh, e se doeu!...
Abraço enlutado
Se doeu, querido amigo, se doeu...
EliminarUm abraço apertado
Bom dia
ResponderEliminarbom e belo dia em harmonia
que o fim de Semana está já no ar.
Bela sexta feira MJ, beijinhos
Leio-te numa segunda-feira, .... Que tenhas uma feliz semana!
EliminarBeijinhos
Que coroa de sonetos que são como flores oferecidas a alguém ausente. Que delicadeza e sensibilidade. Parabéns aos dois.
ResponderEliminarTudo de bom minha Amiga.
Só volto para o ano.
Um Natal cheio de amor.
Um ano de 2024 com saúde e paz.
Um beijo.
Só me lerá para o ano, Graça, mas não deixarei de lhe agradecer as palavras solidárias, nem de retribuir os votos de amor, saúde e paz
EliminarUm beijo
Bela sexta feira, e bom fim de Semana Natalícia
ResponderEliminarno desejo de que tudo vá bem MJ.
Beijinhos
Tudo vai mal, , que agora tem sido o estômago a doer-me de tal forma que não consigo dormir até às tantas... Espero que tudo vá bem contigo.
EliminarBeijinhos