FRÁGIL SERIA O FRUTO E FRACO O CHÃO - Reedição

3 anos, na varanda da casa da rua Luís de Camões, Algés (2) (5).jpg


FRÁGIL SERIA O FRUTO E FRACO O CHÃO
*


 



Quero-te, solidão, mais do que ao mar


E mais do que ao vulcão que trago aceso


Nas mil e uma noites sem luar


Dos dias em que o céu se compra a peso
*


 



Do tanto que te quero e sei mostrar,


Do muito que te anseio, adubo e prezo,


Fico, de corpo e alma, a levedar


A massa do teu pão posto em defeso
*


 



Porque és a amante que poucos entendem


E a mãe dos versos que me surpreendem


No ventre do silêncio, ó solidão,
*


 



Se não fora por ti, fermento vivo


Do verso-pão que como e que cultivo,


Frágil seria o fruto e fraco o chão!
*


 



Maria João Brito de Sousa



19.06.2019
***

Comentários

  1. Obrigada querida Mª João pela partilha da reedição deste magnífico soneto, soberbo!
    "Porque és a amante que poucos entendem
    E a mãe dos versos que me surpreendem"
    Muito interessante também na estrutura, agora que o apreciei, vou igualmente "estudar" as suas variantes e subtilezas. Como vês ensinado pelo exemplo, basta estarmos atentos, que está aqui tudo, o ritmo, a harmonia, a rima, o tom, a sintaxe, a estrutura, as figuras de estilo...
    Votos de que seja um dia num correr quotidiano sem sobressaltos, que por vezes é o mais importante para a necessária tranquilidade.
    Beijinhos, mais um grande, forte Xi querida, e inspiradora, Poetisa Mª João!

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    1. Embora ande a saltitar entre a cozinha e o estendal com a graciosidade com que um elefante coxo saltita de nenúfar em nenúfar, fico muito feliz por saber que gostaste deste meu soneto do ano da graça - e da desgraça, que foi o ano do meu enfarte com ruptura da coronária... - de 2019.
      Há dois dias que não aspiro a sala... Depois de estender tudo, vou ter de arranjar forças para dar uma aspiradela neste chão cheio de migalhas e de pelos da Mistral... Se a Asae vê isto, ainda apanho uma multa

      Outro grande, grande xi

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    2. Sabes, Mª João, já vi fotografias de nenúfares gigantes que eram bem capazes de ser um óptimo tapete de descanso, inclusivamente, as estruturas que os suportam e que ficam por baixo da folha, no anverso(? Não deve ser esta a palavra, sempre com a minha preguiça de consultar os dicionários ) tem sido muito úteis para o estudo de estruras de construção que possam flutuar, para fazer face quer no caso de cidades em países como a Holanda, como para as zonas costeiras na mitigação dos efeitos da subida do nível dos oceanos.
      Mas na minha opinião, deveríamos de pensar em reduzir o nosso impacto ambiental, para ontem, caso contrário não haverá nenúfar que nos valha
      Continuação de um dia tranquilo, apesar da roupa , querida Mª João!
      Mais beijinhos e Xi!

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    3. Hummmm... acabo de me dar conta que também não sei que nome se deve dar à parte de trás de uma folha, mas o dr. Google ajudou: é a face abaxial E isto serve para todas as folhas de todas as plantas.
      Mas tens toda a razão quanto à imperiosa urgência de diminuirmos a nossa gigantesca pegada ambiental...
      E, já que tocámos neste assunto, sabes por que é que os combustíveis fósseis nunca voltarão a existir depois de esgotados? É porque as bactérias aprenderam a digerir os materiais orgânicos que há muitos milhões de anos foram a sua origem. Quando o petróleo se esgotar de vez... kaput! Nunca mais uma única gotinha dele será naturalmente produzida neste planeta que habitamos...
      Se não reduzirmos o nosso impacto ambiental muito rapidamente, não teremos futuro enquanto espécie.

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    4. Nem em mil anos chegaria a essa palavra "abaxial" , obrigada querida Mª. João.
      Mas essa parte abaxial da folha do nenúfar além de provir para a sua estabilização na superfície da água, também é importante para fazer a filtragem.
      E não sabia que se caminhava para o caput dos combustíveis fósseis pela acção de uma bactéria (além da nossa acção humana, claro). Pelo que leio, as directivas para tentarmos salvar o planeta, que deveriam ser implementadas até 2025, estão muitissimo longe de serem alcançadas, e isso é muito preocupante, pois a partir de determinado ponto, e aqui relembro as aulas de física do secundário, tal como um elástico que estica, estica, e um certo número de vezes, atingido o seu ponto de ruptura... Nada a fazer, não se consegue reverter o processo, ponto a partir do qual é exponencial a degradação do material, até se fragmentar e perder todas as ligações físicas e químicas entre as moléculas que o compõem tornando-se matéria amorfa. Inútil. Descaracterizada. Ou seja, a imagem de que é disso que se trata e é o que estamos a fazer ao planeta é contra natura e encaminha-nos para a extinção, onde, concordo contigo, não teremos futuro enquanto espécie.
      Esperemos que além de destruir, a humanidade encontre como preservar e regenerar, reverter todos estes processos, como vimos acontecer, por exemplo, durante o tempo de confinamento. Não estou a sugerir que seja implementada uma acção tão drástica e radical, mas algo tem de ser feito. Sobretudo porque sabendo as causas, conhecendo os efeitos, a lei determina qual o resultado final, e não sou eu que o digo, mas a base da ciência e do racionalismo, que parece faltar apesar de tão evoluídos num sentido, apenas aceitamos parte dos processos, mascarando ou omitindo o que não nos convém, ou interessa, enquanto espécie, e no âmbito global revelamos incapacidade para mudar o curso da história da humanidade.
      É por isso que é importante participarmos, mesmo que pouco, para fazermos o que estiver ao nosso alcance, reciclar, reutilizar, reduzir, entre outras.
      Para podermos continuar a desejar uns aos outros dias felizes e lindos como o sol e a lua

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    5. Também eu não sabia que os combustíveis fósseis nunca, nunca mais pudessem formar-se, ainda que déssemos ao planeta uns milhões de anos de descanso. Aprendi-o com o Phil, o amigo irlandês que é doutorado em biologia molecular... Agora estou a ver se entendo alguma coisa de "go terms" e de ciências ómicas. Não é nada fácil, mas sempre vou percebendo uma coisita ou outra e alargando um bocadinho os meus pouquíssimos conhecimentos de biologia molecular.
      Agora também fiquei a saber que a face abaxial dos nenúfares tem muita coisa para ensinar aos humanos Esta foi contigo que aprendi!
      Sabes o que eu, sempre aqui fechadita, faço? Meto um balde grande na banheira e é lá que lavo as mãos, os dentes e o rosto... depois é só aproveitar aquela água para deitar na sanita e muito raramente utilizo o autoclismo. Custa-me um bocadito porque o balde de água fica pesado, mas fá-lo-ei enquanto tiver força para isso.

      Mais xi

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    6. Excelente sugestão, já implementei no inverno a colecta de água fria enquanto espero pela água quente (no verão não é lá muito necessário , suporta-se bem a água fria que rapidamente fica tépida, no inverno com os cabos frios é que demora um pouco mais.
      É sempre bom partilhar conhecimento, sugestões, como na tua poesia, só se acrescenta.
      Mais uns Xi

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    7. Parecendo que não, poupamos muitos litros de água ao planeta com esta medida tão simples...

      Mais outros xi

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  2. Tudo neste soneto é bom!
    Bomreto de dia, Maria João!
    Um abraço

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    1. Obrigada, Cheia!

      Imagine que estive o dia inteiro sem abrir a boca para falar e só quando a equipa de enfermagem veio colher uma gota de sangue para medir-me o INR, descobri que estava rouquíssima, quase afónica... Mas não me sinto muito constipada embora tenha tossido um bocado, esta noite...

      Bom resto de dia e um abraço

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  3. "...Do verso-pão que como e que cultivo, ..."
    Sempre belas imagens poéticas. Votos de saúde e paz e "Festas Felizes"!

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    1. Bem-haja pela sua apreciação, Francisco.

      Retribuo os votos de um Feliz Natal com muita saúde e a paz possível neste mundo tão ferido por sangrentas guerras!

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  4. É a solidão o lugar onde não queremos estar mas é o lugar onde voltamos uma, outra e outra vez.
    Desejo-lhe um Natal de Paz, saúde e inspiração.
    Um abraço.
    L

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    1. Eu creio que ela - a solidão - nos seduz muito mais do que aquilo que pensamos... Afinal precisamos dela para escrever...
      Isto pode parecer-lhe estranho, L., mas o ideal, para mim, é poder passar algumas horas por dia junto de amigos e ficar na mais absoluta solidão durante todo o resto das 24 horas, ora lendo e escrevendo, ora esperando por um abraço de uma Musa/estado de espírito, que nem sempre está disposta a oferecer-mo...

      Um Natal com muita Paz, saúde e inspiração para si também.

      Forte abraço

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  5. Oi Maria João
    Bom vê-la voltando aos costumes ... muito me alegra,porque fazes falta !
    Sou solitária por natureza , desde que me entendo um pouco nunca frequentei multidões.
    Quando bate um vazio, vou lá fora dar uma caminhada ,(antes que tudo fique caótico),e
    volto outra .'quero-te solidão mais do que o mar ' _ ele é meu grande aliado.
    Sempre morei pertinho,quase à margem .
    De verdade, vim cá te abraçar neste Natal e desejar que tudo de bom te aconteça .
    E que 2024 seja leve para todos nós e junto seguiremos trocando figurinhas e poesias.
    Grande grande abraço e Bom Natal. Florzinha

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    1. Obrigada, querida Lis

      Eu só amo a minha solidão/solitude porque só quando estou só consigo dar largas à minha criatividade... Mas gosto muito de conviver durante algumas horas por dia, todos os dias se puder ser

      Mesmo ao nível da criatividade, abro uma enorme excepção para as coroas de sonetos que ADORO escrever com um companheiro ou companheira de versos. Nem imaginas quão gratificada me sinto quando alguém me dá a honra de tecer comigo uma Coroa! Ultimamente só o poeta Custódio Montes tem tido a gentileza de me acompanhar, mas já escrevi coroas com muitos outros sonetistas incluindo um teu compatriota...
      Espero que tenhas um muito Feliz Natal e que, como muito bem dizes, que 2024 nos seja mais leve do que este 2023 que tão pesado tem sido para todos nós.

      Pode ser um pouco infantil, mas até gosto de usar uns emoticonzinhos, de vez em quando Pena que o Pai Natal e o pinheirinho estejam ambos "encravados" e não possam ser partilhados.

      FELIZ NATAL e um grande abraço!

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  6. Como ando a esvoaçar
    Ave de asa maltratada, pousei aqui
    Acabo mesmo agora de confirmar
    Que tua Musa voltou para ti

    Abraço militante

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    1. Olha que eu também estou toda maltratadinha: ele são os pulsos, a coluna, as pernas, o estômago, o coração, etc., etc...
      Este soneto foi uma reedição, agora a Musa só vem muito de vez em quando...

      Abraço militante

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