DIAS TRISTES - Helena Fragoso e Mª João Brito de Sousa -Reedição

JOVEM - José de Brito.jpg


"Jovem" - Tela de José de Brito, meu bisavô


*


 


DIAS TRISTES
*
Coroa de Sonetos
*


Helena Fragoso e Mª João Brito de Sousa
*


1.
*


Há dias e dias na vida da gente


Uns que nos sorriem, outros que até não…


Há os que nos fazem torturas à mente…


São aos quais eu chamo de " dias de cão".…
*


Tem uns que são duros e que num repente


Emanam tristeza…nos deitam ao chão….


Até nos destroem a alma, a pureza


Só nos trazem mágoas, dor na contramão…
*


Tem dias que tudo nos parece ausente


Em que nada vibra, nada se consente…


Dias em que o mundo é mera ilusão….
*


Enfim, dias tristes em que consciente,


Nossa alma chora, sentindo latente


A saudade, as mágoas e a solidão…
*


 


Helena Fragoso
***
2
*


"A saudade, as mágoas e a solidão"


Podem, minha querida, ser tão passageiras


Quanto o são as aves, se de arribação,


Ou as altas chamas de alguma fogueira
*



Que ao fim de umas horas se consumirão


Pra deixar só cinzas brancas e poeira...


Sim, há dias tristes, há "dias de cão",


E há dias que são riso e brincadeira
*



Nesta nossa estrada, em vez de alcatrão,


Há pedras bem duras a forrar o chão


E arbustos com espinhos mesmo à nossa beira
*



Mas nós prosseguimos. Não, não foi em vão


Que continuamos nesta direcção,


Neste mundo (quase) carrossel de feira!
*



Mª João Brito de Sousa


29.11.2022 - 15.15h
***



3.
*


Neste mundo (quase) carrossel de feira


Que descompensado corre sem noção


Com dias que roubam e de que maneira


Nossa paciência e concentração...
*



Tem dias que a vida não se mostra inteira


E em que nossos passos se colam ao chão.


Dias em que os sonhos ardem na fogueira


Só restando as cinzas da desilusão…
*


E neste caminho, nesta ribanceira


Os dias que passam seguem de maneira


Que haja riso, pranto, dor e solidão…
*



Tem dias que a vida na sua cegueira


Nos deixa sem rumo, sem eira nem beira.


Perdidos nas sombras e na escuridão…
*


Helena Fragoso
***


4.
*


"Perdidos nas sombras e na escuridão"


Sem ver mais que um palmo do nosso futuro


Tornámo-nos sombras tecidas no escuro,


Quase inexistência, quase assombração...
*


 


Mas todas as sombras são a projecção


De algo consistente, volumoso e duro,


Que pode ser gente ou somente um muro


Cuja sombra é fruto... de iluminação
*



Sem luz, minha amiga, por pouca que seja


Não haverá sombra, nem quem nela esteja


Tão desiludido quanto estás agora:
*



Salta-me esse muro que, do outro lado,


Tudo está mais claro, mais iluminado


E verás que as sombras terão ido embora!
*


 


Mª João Brito de Sousa


07.12.2022 - 11.50h
***


5.
*


"E verás que as sombras terão ido embora"


Levando com elas dor e solidão


Nasce um novo dia, uma nova aurora


É um dia triste? Diria que não…
*



Um dia que corre nesse mundo afora


Formando um oásis mantendo a ilusão


Que há dias felizes e que a qualquer hora


Os dias mais tristes se transformarão
*



Ao pular o muro vi sombras lá fora


Vi dias sorrindo numa ou outra hora


Vi sombras andando pela escuridão..
*



Então ao ver tudo, voltei, vim embora,


Pensei nesses dias que vão mundo afora


Uns tristes, é certo... outros até não.
*


Helena Fragoso
*



6.
*


"Uns tristes, é certo... outros até não"


Que se nuns chorei, nos outros me ri


E entre choro e riso muito eu aprendi


Ao subir o muro da contradição:
*



Vi os que acumulam milhão a milhão


E os que moirejam não tendo pra si


Nem um pedacinho do que nalguns vi,


E vi os sem-terra junto dos sem-pão
*



Sucumbindo às bestas do nazi-fascismo


Que, por todo o mundo, escava um sujo abismo


Em que os dias - todos! - são de escravidão!
*



E pra que não seja mais do que um aviso,


Pra que sobrevivam os dias do riso,


Que nos não enganem as bestas que o são!
*


 


Mª João Brito de Sousa


09.12.2022 - 11.35h
***


7.
*


"Que nos não enganem as bestas que o são"


Ferozes selvagens sempre assim os vi…


Negando aos mais pobres a casa e o pão


Com cruéis discursos como sempre li….
*



Existe a esperança, não é ilusão…


E talvez por isso eu nunca a perdi


Tem dias sorrindo, sim, na contramão


Desses tristes dias que também vivi…
*



Tem dias risonhos que bem os senti


Que enquanto duraram amei e sorri


Mesmo que só fossem total ilusão…
*



Nos outros, nos tristes, até me perdi


Com tanta maldade como nunca vi


Fruto desta nossa civilização…
*


Helena Fragoso
*


8.
*


"Fruto desta nossa civilização"


Que ao capitalismo tanto idolatrou,


Renasce o nazismo do que del` sobrou,


Mais letal que um vírus, mais sem compaixão
*



Mas se há esp`rança ainda de lhe pôr travão,


Esses dias tristes em que a dor cravou


Punhais de aço puro nos que dizimou,


Em dias felizes se transformarão!
*



Planta a tua esp`rança companheira amiga


Para que ela em breve se transforme em espiga


E pra que da espiga nasça essoutro pão
*



Que consola a alma e conforta a barriga,


Que ora trigo loiro, ora uma cantiga,


Tanto é poesia quanto é refeição!
*


 


Mª João Brito de Sousa


13.12.2022 - 17.20h
***


9.
*


"Tanto é poesia quanto refeição,"


Que alimenta a alma, que dá cor à vida


Nesses dias tristes que sem compaixão


Tudo vai embora sem ter despedida…
*



Mas tem um momento de consolação


Em que os dias chegam sorrindo pra vida


Dias de alegria de amor de paixão


De uma liberdade por nós conseguida…
*



Aí companheira de luta de vida,


Sorriem os dias na paz que é vivida


Em nossos momentos de satisfação…
*



E os dias tristes estarão de partida


Levando tristezas retalhos de vida…


Deixando alegrias, paz no coração.
*


Helena Fragoso
***


10.
*


"Deixando alegrias, paz no coração"


Como a que hoje sinto por de novo ler-te:


Não há mais angústia que me desconcerte


Nem que a voz me tolha pra prender-me ao chão!
*



Virão alegrias, amiga, virão,


Embora eu não possa, certeira, dizer-te


Quando exactamente sorrirão ao ver-te,


Só posso afirmar-te que te sorrirão
*



E estes tristes dias que a tantos oprimem,


Serão apagados pelos que redimem


Todas as angústias e todos os prantos
*



Virão dias claros que os prantos suprimem


E enquanto aguardamos, nossos versos exprimem,


Nos sonhos de agora, a esp`rança de tantos!
*



Mª João Brito de Sousa


18.12.2022 - 15.05h
***


11.
*


Nos sonhos de agora a esprança de tantos…


Que com fé desejam a paz neste mundo…


Dias de tristeza e outros de encantos…


Faz parte da vida, verdade no fundo…
*



Nesses dias tristes, nem sabemos quantos,


Dias do fascismo, um momento imundo…


Sofreram na carne, e Deus…foram tantos…


Outros que sumiram nesse submundo…
*



Mas vamos em frente construindo a fundo


Um novo universo a bem deste mundo


Uns dias, sim, tristes, outros serão santos …
*



E mesmo algum ódio, talvez iracundo


Se transforme em sonhos em sonhos que a fundo


Serão mesmo a esprança, a esprança de tantos…
*


Helena Fragoso
***


12.
*


"Serão mesmo a esprança, a esprança de tantos"


Que de novo vêem erguer-se o nazismo


Conquanto o julgassem morto em cada abismo


Que o próprio cavara por todos os cantos
*



Foi enorme o pasmo, grandes os espantos


Que nos abalaram como um brutal sismo,


Mas de novo calmos, quebrou-se o mutismo


E entre os que resistem não cabem mais prantos
*



Não sei dizer como, nem sei dizer quando,


Mas vejo o nazismo de novo afundando


No profundo abismo que pra nós cavou
*



Não será com balas, mas será lutando


Que os que quer esmagados o irão esmagando


Até que digamos: - O monstro acabou!
*



Mª João Brito de Sousa


18.12.2022 - 19.15h
***


13.
*


"Até que digamos o monstro acabou"…


Até que tenhamos paz e liberdade…


Até derrotarmos quem nos torturou


Com ódios, com guerras, matanças, maldade….
*



Até que vejamos que o mundo mudou


Que haja novos dias de luz, claridade…


Que os dias renasçam do bem que os criou


Os dias felizes a bem da verdade…
*



Há dias e dias que a vida mudou


Com tudo o que a gente viveu e lutou


Até houve dias deixando saudade…
*



Os tais dias tristes que o vento levou


Os dias risonhos que o sol nos doou


Tristes ou risonhos … dias de verdade…
*


Helena Fragoso
***


14.
*


"Tristes ou risonhos... dias de verdade",


Dias que nos encham de amor e de paz,


Dias que nos mostrem que há gente capaz


De remir os erros desta sociedade,
*



De implantar, no mundo, a solidariedade


Com fundas raízes, não breve e fugaz,


Dando um passo em frente e, a seguir, dois atrás,


No que vai tocando à nossa liberdade...
*



Que a guerra entre os povos termine de vez!


Se aquilo que vejo é também o que vês,


Que quem sofre e paga é quem está inocente,
*



Então, companheira, que pague quem fez


De cada alegria, dor e morbidez:


"Há dias e dias na vida da gente"!
*



Mª João Brito de Sousa


21.12.2022 - 13.50h


***

Comentários

  1. Grande Pintor esse teu Bisavô
    na arte de retratar Perfeito MJ.
    Brrrrr que já nevou na na Serra, e está frio... Belo sábado em harmonia
    Beijinhos.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Bom dia,

      Sim, foi um grande mestre que obteve um bolsa régia, foi estudar pintura em Paris e, depois, veio leccionar na Academia Portuense de Belas Artes. Este é o pai da minha avó paterna que foi uma segunda figura maternal para mim.

      Imagino o friozinho que deve estar por aí... é que, por aqui, na "amenidade" da beira-mar, está de bater os dentes
      Beijinhos

      Eliminar
  2. Muitos parabéns para as autoras desta maravilhosa Coroa, as poetisas Helena Fragoso e Mª João Brito de Sousa!
    Muito bonita a obra do bisavô, José de Sousa, expressiva, emotiva, muito bela, parabéns também, querida Mª João, e obrigada pela partilha desta reedição.
    Um dia bom, espero as tuas melhoras.
    Beijinhos e um Xi forte, forte.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Olá, olá! Não são muitos, os que aventuram a ler uma coroa inteirinha, mas eu sei que estás entre esses poucos, pequena Cotovia.
      Só o meu bisavô é que, coitado, ficou com o nome trocado: este meu bisavô, José de Brito, foi o pai da mãe do meu pai, a minha avó francesa e minha segunda figura materna. Podes encontrá-lo na Wikipédia se o quiseres conhecer melhor...

      Quanto à Helena Fragoso, é uma poeta/sonetista capaz de criar com uma beleza tão suave e triste que não encontrei melhor do que esta "Jovem" para ilustrar a nossa Coroa de Sonetos. Conheci-a há uns 13 anos no Horizontes da Poesia e fiquei rendida aos sonetos dela. É portuguesa, mas actualmente reside no Brasil. Ela que me perdoe, mas já me não recordo em que região ou cidade se encontra...
      Por enquanto, não me sinto mesmo nada melhor...

      xi

      Eliminar
    2. tens toda a razão, troquei o sobrenome ao teu bisavô com o do teu poeta avó, que cabeça a minha.
      Sabes que pus nomes bem curtinhos às minhas filhas para não me baralhar, Sara e Raquel, e mesmo assim às vezes consigo baralhar-lhes os nomes
      Com a idade tenho adquirido o tique de que não gostava nada quando era mais nova, de as chamar de amores, aliás como também faço com a minha mãe, e pronto ficam todas chamadas, mas afinal depois tenho de as ouvir perguntar: Eu?! Eu?! Não tu. Tu quem? Eu ou ela?! Aí ai a minha vida.
      Fico preocupada por não te estares a sentir melhor, quer pela dificuldade respiratória como pelo uso continuado das fraldas
      Votos renovados de.melhoras para breve, querida Mª João.
      Mais um Xi

      Eliminar
    3. Por enquanto, embora gostasse de já me sentir melhor, ainda é cedo para esperar a plena acção da Amoxiciclina com Ácido Clavulânico. Além do mais, ninguém me garante que os vírus não tivessem ficado por cá depois de terem aberto a porta às bactérias: posso estar a ser o insuspeito palco de uma verdadeira festança bacteriano/viral, eheheheh

      Esperarei por segunda-feira. Se até lá continuar na mesma, posso ter de ir novamente ao Centro de saúde, embora a ideia não me fascine mesmo nada...

      Eliminar
  3. Brancas nuvens negras6 de janeiro de 2024 às 15:07

    Primeiro, um elogio à obra de pintura, das melhores no seu tempo e ainda agora motivo de admiração.

    A poesia a quatro mãos é um tratado sobre a tristeza e todas as suas formas mas, com a devida resposta de quem luta e crê na vitória sobre os causadores de uma parte desse infortúnio.

    Um abraço às duas autoras.
    L

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Agradeço em meu nome e em nome da Helena Fragoso, uma enorme sonetista portuguesa a residir no Brasil.

      Um forte abraço, L!

      PS - perdoe-me a lentidão mas a minha infecção respiratória ainda não começou a ceder ao antibiótico e estou a esforçar-me por não ir para a cama

      Eliminar
  4. Muitos parabéns para as autoras desta coroa, bem como para o seu bisavô. José de Brito, que nos brindou com esta bonita pintura.

    Um abraço, Maria João.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Obrigada, pela parte que me cabe, Cheia!

      Mestre José de Brito, meu bisavô, é um grande pintor, sem dúvida

      Abraço

      Eliminar
  5. "Dias em que o mundo é mera ilusão…"
    Há dias assim!
    Excelentes Artistas tem na sua Família. Felicitações!
    Votos de excelente 2024, com Saúde e Paz.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Muito obrigada pela parte que me cabe, Francisco.

      O pai da mãe do meu pai foi - e é! - um dos nossos grandes mestres da pintura. O mais conhecido dos seus quadros "Martyr du Fanatisme" esteve durante muitos anos no Louvre e encontra-se agora no Museu de Arte Contemporânea do Chiado.

      Retribuo os votos de um 2024 com Saúde e Paz

      Eliminar
  6. A pintura, é surpreendentemente bela

    Quanto à coroa
    mentiria se dissesse que a li toda

    Fui lendo, até que dei
    por aquilo que procurei

    e cito
    isto

    "Não será com balas, mas será lutando
    Que os que quer esmagados o irão esmagando
    Até que digamos: - O monstro acabou!"

    Abraço sob a forma de aplauso

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Obrigada pela parte que me cabe, Rogério!

      O meu bivô era um grande mestre da pintura a óleo, sem dúvida.

      Quanto à Coroa de Sonetos, creio que ficou esplêndida. A Helena Fragoso é uma das grandes sonetistas portuguesas.

      Forte abraço

      Eliminar

Enviar um comentário

Mensagens populares deste blogue

UM VOO DE PARDAL - Soneto muito ligeiro, dedicado à Ligeirinha

OBRIGADA!

ESPANTO