LINDA! - Custódio Montes e Mª João Brito de Sousa

Pormenor do Nascimento de Vénus, Pinterest (1).jpg


Pormenor de O Nascimento de Vénus


Sandro Botticelli


*


LINDA
*


Coroa de Sonetos
*


Custódio Montes e Mª João Brito de Sousa
*



1.
*
Linda te imagino que és só candura


Andas à procura do teu amor


Seja como for serás sempre pura


Nessa luta dura és um esplendor
*



És como o condor em voo na altura


Se esse andar te cura feito sem dor


Damos-te valor e essa doçura


Tão meiga e madura anda ao teu redor
*



Andas com vigor que lindo andar


Vem-me namorar que tenho desejo


De te dar um beijo e de te abraçar
*



Vem-me acorrentar que já não te vejo


Desde que no Tejo te vi passear


Pondo-me a tocar o meu realejo
*



Custódio Montes
6.2.2024


***
2.
*


"Pondo-me a tocar o meu realejo"


Por nenhum harpejo vos ousei trocar,


Mas o meu olhar espelha o belo Tejo


Que com seu cortejo corre rumo ao mar...
*



Pudesse eu cantar, mas sei bem que fraquejo


E a ninguém cotejo, que a desanimar


Não quero arriscar, nem cedo a tal desejo,


Antes me protejo vendo o rio passar...
*



Devo acreditar que sou deveras bela


Ou tão só singela moça suburbana


Que pescou sem cana versos sem cautela?
*



Passa um barco à vela, mas a voz serrana,


Firme, não se engana, no tanto que anela:


Cada verso apela a quanto dele emana.
*


 


Mª João Brito de Sousa


06.02.2024 - 15.20h
***
3.
*
“Cada verso apela a quanto dele emana”


Um ou outro engana, é preciso cuidado


Que um verso errado por vezes promana


Dum João semana que é mal-educado
*



E sendo criado, de vós, soberana,


Lanço a minha cana ao verso rimado


Será mal pensado? Vou ver se se irmana


Com o que dimana do seu bem pensado
*



Mas desconfiado, tenho algum medo


De criar enredo sem muito pensar


E ao terminar embata num rochedo
*



E fique aí quedo sem saber rimar


Escrevo a tentar e, por isso, concedo


Pôr aqui meu dedo e assim acabar
*



Custódio Montes
6.2.2024
***
4.
*
"Pôr aqui meu dedo e assim acabar",


Com verso a brilhar mum belo arremedo,


Conto-lhe, em segredo, que estou a adorar


Vê-lo assim cantar, forte qual rochedo
*



Que a novo brinquedo visse e a brincar,


Indo exp`rimentar, se fosse o seu medo,


Que o seu verso ledo ousasse espantar


Pra não mais voltar a ser um degredo...
*



Sei que ainda é cedo e que é natural


Que lhe caia mal o esforço já feito,


Mas tirou proveito de algo exp`rimental...
*



Será desleal dizer-lhe que aceito


Que o leve a seu jeito até ao final,


Num vagar total que entendo e respeito?
*


Mª João Brito de Sousa


06.02.2024 - 20.40h
***


5.
*
“Num vagar total que entendo e respeito”


Com vagar me deito e cedo me levanto


Para meu espanto vai outro a eito


Até me deleito sem choro nem pranto
*



Mas fico a um canto e sua arte espreito


Se lhe apanho o jeito vou escrever tanto


Que até me suplanto e alcanço o conceito


Do verso perfeito melhor que o dum santo
*



Sigo por enquanto só a marcar passo


O sentido traço para escrever


E a condizer sem um grande embaraço
*



Enfeito com laço de bem parecer


E o soneto ter um bom ritmo e compasso


E o seu belo traço pra me envaidecer
*



Custódio Montes
7.2.2024
***
6.
*


"E o seu belo traço pra me envaidecer"


E me conceder o prazer com que o faço,


Que enlevada abraço quanto me disser


E volto a correr pra compor novo traço...
*



Se o tempo for escasso, nem quero saber!


Está-me hoje a doer uma perna e um braço


E um louco mormaço vem-me entontecer...


Venha o que vier, eu remato este laço
*



Que vou, passo a passo, compondo e tecendo


Com chamas que acendo e com cinzas antigas...


Ah, velhas amigas, que bem vos entendo
*



Quando a mim vos prendo e transformo em cantigas


Que as mais raparigas invejam... Não vendo!


Mais nada pretendo e aqui ninguém briga!
*


Mª João Brito de Sousa
07.02.2024 - 16.25h
***


7.
*
“Mais nada pretendo e aqui ninguém briga”


Que é linda a cantiga que vos canto agora


E é promissora e à rima me obriga


Para que prossiga tal voz de cantora
*



Nela se implora, e talvez se consiga,


Que não haja intriga pelo poema fora


Nem qualquer senhora que foi rapariga


Nos mostre a barriga mui provocadora
*


Paro por agora, por aqui me fico


Porque não pratico coisas sem valor


Não ando ao redor nem também amplifico
*



Qualquer namorico nem coisas de amor


Peço por favor, não ligue, se claudico,


Porém, não abdico de falar com calor
*



Custódio Montes
7.2.2024
*


8.
*
"Porém não abdico de falar com calor"


Embora o pudor me diga que fico


Corada se aplico nas faces rubor...


Seja como for, eu em nada o critico
*


Se achar menos rico o verso, em teor...


Já fez o favor de subir este pico,


Tiro-lhe o meu quico pl`o esforço e ardor


E até p`lo suor que eu aqui verifico
*


Ter suado a litro só pra me agradar...


Se me perdoar, ficarei satisfeita


Pois não sou atreita a magoada ficar
*



Por ter de parar a meio de uma empreita:


Uma outra colheita nos há-de aguardar,


Não me faz desfeita se me abandonar.
*



Mª João Brito de Sousa


07.02.2024 - 22.50h
***


 


9.
*
“Não me faz desfeita se me abandonar”


Mas sem trabalhar como se há-de viver


Sem pão pra comer e só a mandriar?


Ah, já sei parar e ir para o poder
*


 


Algo hei-de fazer, escrever, poetar


A obra terminar, não cair no lazer


Faz-me padecer, viver sem trabalhar


E também penar ou mesmo padecer
*



E não quero ser uma alma ao abandono


Eu quero ser dono de pura amizade


Andar à vontade e não pôr-me num trono
*


E nem tenciono viver de piedade


Tenho lealdade e o seu a seu dono


Eu não a abandono, teria saudade
*



Custódio Montes
8.2.2024
***


10.
*


"Eu não a/o abandono, teria saudade"


Desta f`licidade que em versos lhe abono


Pois sendo sem dono, versejo à vontade:


Espero que lhe agrade sem fazer-lhe sono...
*



O soneto nono quer continuidade


E em boa verdade, se lhe envio um "mono",


Tudo "descorono"... minha identidade


Já de mim se evade se me desmorono...
*



Ao décimo entono com grande firmeza


Pra lhe dar beleza, força e alegria,


Embora a harmonia seja a singeleza
*



Que com gentileza minha mão lhe envia:


Viva a sinfonia, viva a subtileza


Que de mim fez presa desta melodia!
*



Mª João Brito de Sousa


08.02.2024 - 15.00h
***


11.
*
“Que de mim fez presa desta sinfonia”


Linda melodia que a tocar escuto


E mais resoluto fico dia a dia


Com muita empatia pelo seu produto
*



Aqui devoluto com a simpatia


Da sua magia e engenho arguto


Um seu atributo com muita magia


E tanta alegria minuto a minuto
*



O seu estatuto que tanto me agrada


É minha alvorada com sol a nascer


Que me faz crescer nesta luta travada
*


De rima encontrada que me dá prazer


E faz entender a rima aprimorada


À vate estimada quero agradecer
*


Custódio Montes
8.2.2024
***


12.
*


"À vate estimada quero agradecer"


E eu não sei sequer como elogiá-lo,


Pois se em verso falo, como descrever


O meu espanto ao ler seus versos "de estalo"?
*



Quero agraciá-lo como deve ser


Pois é um prazer lê-lo e então glosá-lo...


Juro, é um regalo podê-lo fazer,


Mesmo sem saber se consigo agradá-lo
*


Cabe-me saudá-lo: vai adiantada


A C`roa rimada destoutra maneira


Que segue certeira, bem elaborada
*



Como se uma fada lha tecesse inteira,


Seguindo na esteira da rima cantada


E aprimorada, sendo pioneira!
*



Mª João Brito de Sousa


08.02.2024 - 20.00h
***


13.
*
“E aprimorada, sendo pioneira!”


E é a primeira na qual interfiro


Com um tema giro à namoradeira


Que à minha maneira ao cimo refiro
*



Palavras insiro como brincadeira


Paixão pioneira com a qual deliro


E no fim suspiro, quase choradeira,


Com voz prisioneira nos olhos a fito
*


 


Depois quase grito a dizer que a amo


Mas eu nesse ramo sou desajeitado


Muito limitado e por isso me tramo
*



Que aquilo que clamo é desapropriado


E o meu bem amado fica verde ramo


E aquilo que exclamo não é escutado
*


Custódio Montes
8.2.2024
***


14.
*


"E aquilo que exclamo não é escutado"


Mas será glosado que a c`roa é um ramo


Que corre qual gamo na erva de um prado,


Feliz, descuidado, sem dono nem amo...
*



Se ao gamo aqui chamo, na cr`oa encastrado


Dá brilho dobrado a quanto proclamo


Se o verbo derramo por sobre este fado


Vivido e cantado por vezes num bramo...
*


Depois o acamo nestoutro destino,


Que parece um hino rimando em fartura


Com tanta ternura que evoca um menino
*



Brincando, ladino, c`uma partitura


Que a canção conjura quase em desatino:


" Linda te imagino que és só candura"!
*



Mª João Brito de Sousa


08.02.2024 - 22.20h
***

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