OUÇO - Custódio Montes e Mª João Brito de Sousa

Eu, com o pc, 2009.jpg


OUÇO
*


Coroa de Sonetos
*


Custódio Montes e Mª João Brito de Sousa
*


1.
*
Ouço música, leio, canto o fado


Descubro entre os amigos a amizade


Trabalho com prazer e com vontade


E ando sempre assim maravilhado
*



No canto, por guitarra acompanhado,


Sigo o ritmo, o som, a agilidade


Dos dedos que a trinam com saudade


De lembranças chegadas do passado :
*


 


Coimbra e o choupal e as noitadas


O prazer de cantar às namoradas


E ter à nossa volta muita gente
*


 


E gosto de escrever, ler e ouvir


Histórias que se contam e a seguir


Transformo-as em poemas diligente.
*



Custódio Montes
01.02.2024
***
2.
*


"Transformo-as em poemas, diligente"


E transmutada em musa ou em tricana


Passo eu a ser o som que dele emana,


Por momentos, esqueço que sou gente...
*



Levou-me, este soneto, a antigamente,


Aos tempos de uma infância soberana


Da qual conservo o sonho, a garra, a gana


E a força da vontade de ir em frente...
*



Ouço hoje ainda os fados que o Menano


E o Bettencourt compunham mano a mano


Sobre os poemas do meu velho avô
*



Ouço os sonetos mesmo quando os leio...


Talvez o que ouço assim vos seja alheio,


Mas não vos vou negar isto que sou!
*



Mª João Brito de Sousa


01.02.2024 - 16.10h
***


3.
*
“Mas não vos vou negar isto que sou”


E digo, claro, então, tudo o que sinto


E o que canto e o que escrevo, não vos minto,


Vem da alma e foi ela que o ditou
*



O coração recorda o que alcançou


E ao vê-lo com clareza e tão distinto


Dá logo atrás um salto por instinto


A ver se torna a amar o que ele amou
*



Regressa novamente à mocidade


E lembra em torvelinhos essa idade


Os sonhos e os cantos à guitarra
*



Esquecemos o tempo que, voraz,


Nos tirou essa força de rapaz


Pensamos ter de novo a mesma garra
*



Custódio Montes
1.2.2024
***


4.
*


"Pensamos ter de novo a mesma garra"


E, às vezes, tê-la-emos por instantes:


Os nossos versos tornam-nos gigantes


Despojados até da eterna parra
*



E quando ao longe geme uma guitarra,


Ouvindo-a tal e qual ouvimos antes


E em tudo nos tornamos semelhantes


Ao cântico primevo da cigarra...
*



Posso ouvir os silêncios dos compassos,


Este chão a gemer sob os meus passos


E solta-se-me a voz que os dedos calam:
*



Uma pauta invisível os vai guiando


E os movimenta como se dançando


Sobre estas mudas teclas que os embalam.
*


 


Mª João Brito de Sousa


01.02.2024 - 23.40h
***


5.
*


“Sobre estas mudas teclas que as embalam”


Já se ouve ao perto a voz do estudante


Que canta à luz da lua, esfuziante,


Sem murmúrios à volta que se calam
*



Todos os estudantes se regalam


Ao ouvir o cantar e a voz sonante


Dum fado de poeta importante


De quem no Alentejo todos falam
*



Legou seu nome nobre à sua neta


Que brilha e brilhará como poeta


E que com sua lavra faz tesouros
*



Que em muitos dos compêndios ficarão


A ir de geração em geração


E também alegrar os seus vindouros
*



Custódio Montes
2.2.2024


***


6.
*


"E também a alegrar os seus vindouros"


Se os seus vindouros os lerem um dia


E se orgulharem dessa poesia


Que foi humilde e nunca pediu louros
*



Ou se as elites, lá nos seus pelouros,


Vierem a escutar o que dizia


Esse avô sábio cuja melodia


Arrebatava mestres e calouros
*



Mas não era, esse avô, alentejano,


Nasceu no Porto o poeta decano


Que mais tarde em Coimbra foi estudante
*



Por lá casou, por lá meu pai nasceu,


Mas foi na bela Oeiras que morreu,


Distante do seu berço, tão distante....
*



Mª João Brito de Sousa


02.02.2024 - 11.30h
***


7.
*


“Distante de seu berço tão distante…”


E foi daqui do norte a estudar


Passou a ouvir a cabra a badalar


Em Coimbra com orgulho de estudante
*



Estudava e mostrava o seu semblante


E a profundeza de alma de encantar


E versos que depois ouviu cantar


Da sua poesia empolgante
*



Segui o seu exemplo mas no canto


Que em poesia só quando levanto


O estro com a aura dum poema
*



Que me sopra do mar, vindo de Oeiras


E então procuro e busco as maneiras


De tentar poetar sobre esse tema
*



Custódio Montes
2.2.2024
***


8.
*


"De tentar poetar sobre esse tema"


Jamais me cansarei. Ouço e dedilho


E cada verso nasce como um filho


Que eu concebesse para o meu poema...
*



De novo o Norte me concede um lema,


Um lema que pra mim é um rastilho,


E toda nos seus versos me ensarilho


Achando em cada um causa suprema!
*



Ouço o Barroso nos versos que canta


E a virtuosidade é tanta, tanta,


Que me faz recear não estar à altura
*


Mas não posso parar. O chamamento


É bem mais forte que este meu lamento:


Ouço e respondo, já não tenho cura...
*



Mª João Brito de Sousa


02.02.2024 - 13.20h
***


9.
*
“Ouço e respondo, já não tenho cura…”


Que a doença que afirma não é mal


É inspiração antes e normal


Que a faz subir ao cume, a toda a altura
*



Poetisa de nome e tão madura


Que segue no poema triunfal


Verseja sobre o tema principal


Com voos altos prenhes de ternura
*



De cada vez que chega ao seu cume


Sente-se à volta o cheiro e o perfume


De jardins a florir a cravo e rosa
*



Inalo esse perfume …que bem cheira!


E sinto-me embalar à sua beira


Que linda essa flor e que formosa!!!
*



Custódio Montes
2.2.2024


***


10.
*


"Que linda essa flor e que formosa!!!"


Ouço agora dizer, meu querido amigo


E enrubesço um pouco... é muito antigo


O meu pudor de jovem, sendo idosa...
*



Há muitos, muitos anos, fui viçosa...


Talvez fosse a beleza o meu castigo


Porque deixei o poema ao desabrigo


E toda, toda inteira me fiz prosa...
*



Mas ouço-me e ouvindo-me sorrio


Pois fui sempre descendo como um rio


Que sem opção procura a sua foz
*



E agora que essa foz está tão pertinho


Abrando o passo e relembro o caminho


Que em tempos foi calando a minha voz.
*



Mª João Brito de Sousa


02.02.2024 - 15.20h
***


11.
*


“Que em tempos foi calando a minha voz”


Mas abre os seus clarões por onde passa


Num trajecto tão longo que o enlaça


Numa linda autoestrada até à foz
*



E vai acompanhada, não a sós


Num cortejo fiel que se lhe abraça


E canta uma canção cheia de graça


Correndo sem parar sobre trenós
*



A sua juventude bem se vê


Na clara alvorada que se lê


Em toda a sua esbelta poesia
*


Siga por sua estrada sem lamento


Que o legado que deixa é monumento


Expondo tudo à luz com alegria
*


Custódio Montes
2.2.2024
***
12.
*


"Expondo tudo à luz com alegria"


E, às vezes, uma ponta de tristeza


Por não poder manter a chama acesa


Quando o meu corpo inteiro se avaria...
*



Mas avancemos porque é melodia


Aquilo que vem pôr na minha mesa


E dela fui servida qual princesa


Que abraça a c`roa pela qual porfia.
*



Ouçamos juntos este belo fado


Que por nós dois vai sendo elaborado


De corpo e alma, com musa ou sem ela
*


Ouçamos tudo pra tudo ir dizendo:


Ainda que hoje a mão me vá doendo,


Até ao fim hei-de servir-me dela!
*


Mª João Brito de Sousa


02.02.2024 - 16.40h
***
13.
*


“Até ao fim hei-de servir-me dela”


Que comandada bem pela cabeça


Ornamenta o poema peça a peça


E a poesia fica bem mais bela
*



Assim fará brilhar ao alto a estrela


Sem que haja alguém ou coisa que o impeça


Nem melhor urdidura que se teça


Deixando esculpida linda tela
*



Avance sem parar na poesia


Transforme-se a fraqueza em valentia


E conte-nos os sonhos que tiver
*



Pode por-se à janela a ver o mar


Escreva sempre sempre sem parar


Enquanto sobe e desce no escaler
*



Custódio Montes
2.2.2024
***


14.
*


"Enquanto sobe e desce no escaler"


Ao lado do gageiro e junto à Musa,


Ouve a poeta uma voz que a acusa


De ser bem mais poeta que mulher...
*



Não é verdade! Como o pode ser


Se é o que sempre foi e não se escusa


De negar o que diz quem dela abusa


Só porque escreve e pinta como quer?
*



E pegando nos remos segue em frente,


Confronta as ondas, enfrenta a corrente


E atraca enfim no ponto desejado
*



A quem lhe perguntar que faz na vida


Dirá com voz serena e decidida:


- "Ouço música, leio, canto o fado."
*



Mª João Brito de Sousa


02.02.2024 - 20.35
***


 


 


 

Comentários

  1. Gostei muito.
    Noite tranquila, Maria João.
    Um abraço.

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    Respostas
    1. Obrigada pela parte que me cabe, Cheia!

      Esta acabou de ser feita, ainda está quentinha

      Uma noite serena e um abraço

      Eliminar

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