OUÇO - Custódio Montes e Mª João Brito de Sousa
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OUÇO
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Coroa de Sonetos
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Custódio Montes e Mª João Brito de Sousa
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1.
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Ouço música, leio, canto o fado
Descubro entre os amigos a amizade
Trabalho com prazer e com vontade
E ando sempre assim maravilhado
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No canto, por guitarra acompanhado,
Sigo o ritmo, o som, a agilidade
Dos dedos que a trinam com saudade
De lembranças chegadas do passado :
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Coimbra e o choupal e as noitadas
O prazer de cantar às namoradas
E ter à nossa volta muita gente
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E gosto de escrever, ler e ouvir
Histórias que se contam e a seguir
Transformo-as em poemas diligente.
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Custódio Montes
01.02.2024
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2.
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"Transformo-as em poemas, diligente"
E transmutada em musa ou em tricana
Passo eu a ser o som que dele emana,
Por momentos, esqueço que sou gente...
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Levou-me, este soneto, a antigamente,
Aos tempos de uma infância soberana
Da qual conservo o sonho, a garra, a gana
E a força da vontade de ir em frente...
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Ouço hoje ainda os fados que o Menano
E o Bettencourt compunham mano a mano
Sobre os poemas do meu velho avô
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Ouço os sonetos mesmo quando os leio...
Talvez o que ouço assim vos seja alheio,
Mas não vos vou negar isto que sou!
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Mª João Brito de Sousa
01.02.2024 - 16.10h
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3.
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“Mas não vos vou negar isto que sou”
E digo, claro, então, tudo o que sinto
E o que canto e o que escrevo, não vos minto,
Vem da alma e foi ela que o ditou
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O coração recorda o que alcançou
E ao vê-lo com clareza e tão distinto
Dá logo atrás um salto por instinto
A ver se torna a amar o que ele amou
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Regressa novamente à mocidade
E lembra em torvelinhos essa idade
Os sonhos e os cantos à guitarra
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Esquecemos o tempo que, voraz,
Nos tirou essa força de rapaz
Pensamos ter de novo a mesma garra
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Custódio Montes
1.2.2024
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4.
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"Pensamos ter de novo a mesma garra"
E, às vezes, tê-la-emos por instantes:
Os nossos versos tornam-nos gigantes
Despojados até da eterna parra
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E quando ao longe geme uma guitarra,
Ouvindo-a tal e qual ouvimos antes
E em tudo nos tornamos semelhantes
Ao cântico primevo da cigarra...
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Posso ouvir os silêncios dos compassos,
Este chão a gemer sob os meus passos
E solta-se-me a voz que os dedos calam:
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Uma pauta invisível os vai guiando
E os movimenta como se dançando
Sobre estas mudas teclas que os embalam.
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Mª João Brito de Sousa
01.02.2024 - 23.40h
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5.
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“Sobre estas mudas teclas que as embalam”
Já se ouve ao perto a voz do estudante
Que canta à luz da lua, esfuziante,
Sem murmúrios à volta que se calam
*
Todos os estudantes se regalam
Ao ouvir o cantar e a voz sonante
Dum fado de poeta importante
De quem no Alentejo todos falam
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Legou seu nome nobre à sua neta
Que brilha e brilhará como poeta
E que com sua lavra faz tesouros
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Que em muitos dos compêndios ficarão
A ir de geração em geração
E também alegrar os seus vindouros
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Custódio Montes
2.2.2024
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6.
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"E também a alegrar os seus vindouros"
Se os seus vindouros os lerem um dia
E se orgulharem dessa poesia
Que foi humilde e nunca pediu louros
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Ou se as elites, lá nos seus pelouros,
Vierem a escutar o que dizia
Esse avô sábio cuja melodia
Arrebatava mestres e calouros
*
Mas não era, esse avô, alentejano,
Nasceu no Porto o poeta decano
Que mais tarde em Coimbra foi estudante
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Por lá casou, por lá meu pai nasceu,
Mas foi na bela Oeiras que morreu,
Distante do seu berço, tão distante....
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Mª João Brito de Sousa
02.02.2024 - 11.30h
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7.
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“Distante de seu berço tão distante…”
E foi daqui do norte a estudar
Passou a ouvir a cabra a badalar
Em Coimbra com orgulho de estudante
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Estudava e mostrava o seu semblante
E a profundeza de alma de encantar
E versos que depois ouviu cantar
Da sua poesia empolgante
*
Segui o seu exemplo mas no canto
Que em poesia só quando levanto
O estro com a aura dum poema
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Que me sopra do mar, vindo de Oeiras
E então procuro e busco as maneiras
De tentar poetar sobre esse tema
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Custódio Montes
2.2.2024
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8.
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"De tentar poetar sobre esse tema"
Jamais me cansarei. Ouço e dedilho
E cada verso nasce como um filho
Que eu concebesse para o meu poema...
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De novo o Norte me concede um lema,
Um lema que pra mim é um rastilho,
E toda nos seus versos me ensarilho
Achando em cada um causa suprema!
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Ouço o Barroso nos versos que canta
E a virtuosidade é tanta, tanta,
Que me faz recear não estar à altura
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Mas não posso parar. O chamamento
É bem mais forte que este meu lamento:
Ouço e respondo, já não tenho cura...
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Mª João Brito de Sousa
02.02.2024 - 13.20h
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9.
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“Ouço e respondo, já não tenho cura…”
Que a doença que afirma não é mal
É inspiração antes e normal
Que a faz subir ao cume, a toda a altura
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Poetisa de nome e tão madura
Que segue no poema triunfal
Verseja sobre o tema principal
Com voos altos prenhes de ternura
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De cada vez que chega ao seu cume
Sente-se à volta o cheiro e o perfume
De jardins a florir a cravo e rosa
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Inalo esse perfume …que bem cheira!
E sinto-me embalar à sua beira
Que linda essa flor e que formosa!!!
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Custódio Montes
2.2.2024
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10.
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"Que linda essa flor e que formosa!!!"
Ouço agora dizer, meu querido amigo
E enrubesço um pouco... é muito antigo
O meu pudor de jovem, sendo idosa...
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Há muitos, muitos anos, fui viçosa...
Talvez fosse a beleza o meu castigo
Porque deixei o poema ao desabrigo
E toda, toda inteira me fiz prosa...
*
Mas ouço-me e ouvindo-me sorrio
Pois fui sempre descendo como um rio
Que sem opção procura a sua foz
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E agora que essa foz está tão pertinho
Abrando o passo e relembro o caminho
Que em tempos foi calando a minha voz.
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Mª João Brito de Sousa
02.02.2024 - 15.20h
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11.
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“Que em tempos foi calando a minha voz”
Mas abre os seus clarões por onde passa
Num trajecto tão longo que o enlaça
Numa linda autoestrada até à foz
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E vai acompanhada, não a sós
Num cortejo fiel que se lhe abraça
E canta uma canção cheia de graça
Correndo sem parar sobre trenós
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A sua juventude bem se vê
Na clara alvorada que se lê
Em toda a sua esbelta poesia
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Siga por sua estrada sem lamento
Que o legado que deixa é monumento
Expondo tudo à luz com alegria
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Custódio Montes
2.2.2024
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12.
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"Expondo tudo à luz com alegria"
E, às vezes, uma ponta de tristeza
Por não poder manter a chama acesa
Quando o meu corpo inteiro se avaria...
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Mas avancemos porque é melodia
Aquilo que vem pôr na minha mesa
E dela fui servida qual princesa
Que abraça a c`roa pela qual porfia.
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Ouçamos juntos este belo fado
Que por nós dois vai sendo elaborado
De corpo e alma, com musa ou sem ela
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Ouçamos tudo pra tudo ir dizendo:
Ainda que hoje a mão me vá doendo,
Até ao fim hei-de servir-me dela!
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Mª João Brito de Sousa
02.02.2024 - 16.40h
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13.
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“Até ao fim hei-de servir-me dela”
Que comandada bem pela cabeça
Ornamenta o poema peça a peça
E a poesia fica bem mais bela
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Assim fará brilhar ao alto a estrela
Sem que haja alguém ou coisa que o impeça
Nem melhor urdidura que se teça
Deixando esculpida linda tela
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Avance sem parar na poesia
Transforme-se a fraqueza em valentia
E conte-nos os sonhos que tiver
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Pode por-se à janela a ver o mar
Escreva sempre sempre sem parar
Enquanto sobe e desce no escaler
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Custódio Montes
2.2.2024
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14.
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"Enquanto sobe e desce no escaler"
Ao lado do gageiro e junto à Musa,
Ouve a poeta uma voz que a acusa
De ser bem mais poeta que mulher...
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Não é verdade! Como o pode ser
Se é o que sempre foi e não se escusa
De negar o que diz quem dela abusa
Só porque escreve e pinta como quer?
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E pegando nos remos segue em frente,
Confronta as ondas, enfrenta a corrente
E atraca enfim no ponto desejado
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A quem lhe perguntar que faz na vida
Dirá com voz serena e decidida:
- "Ouço música, leio, canto o fado."
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Mª João Brito de Sousa
02.02.2024 - 20.35
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Gostei muito.
ResponderEliminarNoite tranquila, Maria João.
Um abraço.
Obrigada pela parte que me cabe, Cheia!
EliminarEsta acabou de ser feita, ainda está quentinha
Uma noite serena e um abraço