CONVERSANDO COM CAMÕES NO SEU QUINGENTÉSIMO ANIVERSÁRIO XIX

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*


CONVERSANDO COM CAMÕES NO SEU QUINGENTÉSIMO ANIVERSÁRIO XIX
*


 


O CÉU, A TERRA, O VENTO SOSSEGADO


*



O céu, a terra, o vento sossegado…


As ondas, que se estendem pela areia…


Os peixes, que no mar o sono enfreia…


O nocturno silêncio repousado…
*



O pescador Aónio, que, deitado


onde co vento a água se meneia,


chorando, o nome amado em vão nomeia,


que não pode ser mais que nomeado:
*



Ondas (dezia), antes que Amor me mate,


torna-me a minha Ninfa, que tão cedo


me fizestes à morte estar sujeita.
*



Ninguém lhe fala; o mar de longe bate;


move-se brandamente o arvoredo;


leva-lhe o vento a voz, que ao vento deita.
*



Luíz de Camões
***



Mas de repente o vento a voz devolve


Num tom que é o da voz da sua amada:


Ergue-se Aónio que não vendo nada


No mar chorado inteiro se dissolve
*



De novo a voz... E no sal que o envolve


Julga rever a face delicada


Dessa que pelo mar fora tragada:


A culpa tanta, dor alguma a absolve!
*



Quão mais o vento intenta consolá-lo,


Mais sofre Aónio, o pobre pescador


Que mais no mar perdeu do que ganhou
*



Cala-te vento, estás a torturá-lo!


Não vês que o enlouquecem pranto e dor


Quando emulas a Ninfa que ele amou?
*


 


Mª João Brito de Sousa


06.03.2024 - 15.50h
***


O soneto de Camões foi transcrito do blog Sociedade Perfeita


 


 

Comentários

  1. Bonito verso! "No mar chorado inteiro se dissolve"

    Um abraço, Maria João!

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  2. Que lindo Maria João, o consolo do vento nem sempre alivia a alma que se sente incompleto.
    Votos de uma tarde tranquila para si e para a Mistral.
    Beijinhos grandes entre chuva e sol.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Olá, Sofia! :)

      Soube através do Cheia no Sociedade Perfeita que este soneto de Camões é autobiográfico e que é ele próprio o pescador Aónio, sendo a afogada a bela Dinamene.
      Neste caso, embora o vento dele se apiedasse e tentasse devolver-lhe a voz da amada, a sua dor e o seu remorso exacerbavam-se ainda mais . Esta parte já é suposição minha, que no soneto de Camões nada, nem ninguém tenta consolá-lo...

      Votos de uma tarde tranquila também para ti :)

      Beijinhos grandes entre chuva e frio

      Eliminar
    2. Boa tarde Querida Maria João e foi uma suposição maravilhosa e de que gostei, o bonito destas "conversas" entre poemas, é de que pode criar novas formas de ler e sentir os poemas do passado e a Maria João é pura Mestria ou Musa nesse sentido.
      É um exercício intelectual maravilhoso que pouco conseguem mas muitos apreciam, eu aprecio e agradeço.
      O José está a fazer também um trabalho fantástico e ajuda-nos a conhecer e a interpretar poemas que de outro modo poderiam cair no esquecimento, ele é muito generoso.
      Beijinhos Grandes de para as duas Gatinhas, Sra. Dona Maria e Sra. Dona Mistral.

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    3. Obrigada, Sofia!

      Na verdade nada disto estaria a acontecer se o nosso amigo José não estivesse a editar os sonetos de Camões em homenagem ao seu quingentésimo aniversário, por isso encaminho os eventuais leitores para o seu blog e lhe fico muito grata. Gosto que, na poesia, as coisas aconteçam espontaneamente e, a mim, aconteceu-me sentir-me muitíssimo tentada a dialogar com Camões...
      Quanto à Mistral, hoje parece um bocadinho melhor, mas é difícil de dizer porque ora parece estar melhor, ora piora de repente...

      Beijinhos também para ti

      Eliminar
  3. Que belo diálogo camoniano
    às leio um e parece-me o outro
    meu engano
    e fazes vivo quem há tanto
    se foi e está bem morto

    Abraço enquadrado

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    Respostas
    1. Obrigada, Rogério!

      A este, a quem aqui volto a dar voz, só a carne morreu que as palavras sobreviveram-lhe meio milénio e mais sobreviverão, a menos que o mundo enlouqueça de vez.

      Não terei eu essa sorte que não salvei os meus versitos de nenhum naufrágio, não combati nas índias nem em rixas de amor e/ou honra e muito menos auguro ver Marcelo Rebelo de Sousa à minha espera em Belém para das minhas mãos receber um poético panegírico à nossa lusa Pátria ...

      Um forte abraço

      Eliminar

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