DIALOGANDO COM CAMÕES NO SEU QUINGENTÉSIMO ANIVERSÁRIO XXIX

Febo e diana (1).jpg


Imagem Pinterest


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LAMIA AND THE KNIGHT


John William Waterhouse


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DIALOGANDO COM CAMÕES NO SEU QUINGENTÉSIMO ANIVERSÁRIO
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DIANA PRATEADA, ESCLARECIA


*



Diana prateada, esclarecia


com a luz que do claro Febo ardente,


por ser de natureza transparente,


em si, como em espelho, reluzia.
*



Cem mil milhões de graças lhe influía,


quando me apareceu o excelente


raio de vosso aspecto, diferente


em graça e em amor do que soía.
*



Eu, vendo-me tão cheio de favores


e tão propinco a ser de todo vosso,


louvei a hora clara, e a noite escura,
*



pois nela destes cor a meus amores;


donde colijo claro que não posso


de dia para vós já ter ventura.
*



Luís de Camões


***



Enganais-vos, Senhor. A qualquer hora


De um dia claro ou de uma noite escura,


Estou pronta a conceder-vos a ventura


Que em carícias se acende e se demora
*


 


Não vedes que o desejo me devora?


Aplacai-me esta sede, esta secura,


Que eu prometo levar-vos à loucura


Com a graça e o ardor que Diana ignora...
*


 


Que Febo e ela juntos se consolem


Enquanto vindes consolar-me a mim


Que mais sedenta estou que qualquer deus
*



Derramai sobre mim o vosso pólen,


Tomai-me toda inteira até que, enfim,


Vos jure que me haveis levado aos céus.
*


 


Mª João Brito de Sousa


30.04.2024 - 10.00h
***



O soneto de Camões foi transcrito do Blog Sociedade Perfeita


 

Comentários

  1. Este, levaria qualquer um aos céus. O que me ri, Maria João!
    Muitos parabéns.

    Um abraço.

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    1. Obrigada, Cheia!

      Estava cansada de personificar mulheres zangadas com o homem, que com o poeta nunca me atreveria a vestir a pele de quem pudesse tentar menorizá-lo.

      Hoje resolvi dar-lhe um pequeno prémio de consolação.

      Outro abraço

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  2. Teresa Palmira Hoffbauer30 de abril de 2024 às 14:40

    Li num blogue amigo:

    „Celebram-se em 2024 os 500 anos anos do nascimento de Luís de Camões, mas, curiosamente, não se tem ouvido falar muito daquele que é sem qualquer dúvida o maior poeta português, o mais prolixo e variado, aquele cuja vida foi realmente uma aventura mas cuja obra demonstra um talento que muito dificilmente será ultrapassável.“

    Penso que os cinquenta anos do 25 de Abril ofuscaram, até agora, os quinhentos anos de Camões. Os diálogos de dois poetas portugueses são importantíssimos.

    Abraço lento, sou urbana e patriota, pedindo que continue a conversar com o nosso maior poeta. Já agora, conheço muitíssimo bem a pintura.

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    1. Olá, Teresa!

      Também foi num blog amigo que me surgiu a urgência de responder a um soneto de Camões utilizando a sua perfeita métrica e vestindo a pele de algumas das suas muitas amadas.
      Não duvido de que os 50 Anos de Abril tenham ofuscado este quingentésimo aniversário, mas os poetas, mesmo os trazem Abril indelevelmente gravado no peito, não se esquecem uns dos outros e foi assim que celebrei Abril com um soneto de Abril e depois voltei aos meus poéticos diálogos com Luís Vaz de Camões. Amanhã erguerei de novo o meu cravo vermelho porque não deixarei passar em branco o Dia do Trabalhador, mas estou quase certa de que ainda voltarei a estas minhas conversas em verso decassilábico heroico.
      Camões será lembrado no seu dia, que não é por acaso que é também o Dia de Portugal e das Comunidades de Expressão Lusófona.

      Quanto à pintura, deveria tê-la legendado com rigor, tem toda a razão... Fá-lo-ei em seguida.

      Que seja então lento o abraço que lhe deixo enquanto lhe prometo que voltarei a conversar com Camões, assim a Musa mo permita... Mas sei que ela vai voltar a querer que eu a siga até estas conversas.

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  3. "Derramai sobre mim o vosso polén".

    Boa tarde de Paz, querida amiga Maria João!
    Ah! Oxalá nossos poetas derramem seu néctar sobre nossa inspiração!
    Lindo seu poetar com toda pompa que Camões merece.
    Tenha dias abençoados!
    Beijinhos com carinho fraterno

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    1. Boa tarde de Paz, querida Rosélia!

      Sá de Miranda adiantou-se a Camões, mas foi este último que ficou a ser conhecido como o pai da "medida nova" e do soneto em Portugal, tal como aconteceu na Sicília e em Itália com Jacopo Da Lentini vs Dante e Petrarca.

      De qualquer forma foi Camões quem soube transformar os seus sonetos em verdadeiras pedras preciosas e é justo que nós, sonetistas contemporâneos, festejemos o seu quingentésimo aniversário sem roubar nem um bocadinho do brilho das esplêndidas celebrações do meio século do 25 de Abril.
      É justo e acredito que também seja importante.

      Que tenha uma excelente tarde de terça-feira!

      Beijinhos com fraterno carinho

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  4. Gosto muito dos poemas de Camões

    Beijinhos
    Resto de Dia Feliz

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    1. Olá, Luísa!

      Também eu gosto muito dos sonetos de Camões

      Um dia feliz também para ti.

      Beijinhos

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  5. A Maria João já conhece o meu comentário :)
    Gosto muito desta sequência de diálogos com Camões, minha querida académica neoclássica.
    Espero que a saúde esteja sob controlo!
    Beijinho

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    1. Olá, Ana!

      Obrigada por gostar desta minha série de diálogos com Camões :)

      O controle desta minha incontável colecção de mazelas crónicas está a ser feito, mas a medicação é tanta que tenho de usar os alarmes do telemóvel e toda a minha capacidade de concentração para não falhar nenhuma das tomas... ou, pior ainda, enganar-me e tomar algum medicamento a dobrar. Além dos muitíssimos comprimidos, ampolas, cápsulas, saquetas, etc., etc. que me cabem a mim, tenho agora a Mistral - gata - a necessitar que eu lhe injecte insulina de 12 em 12 horas. Ando a queixar-me da memória que me vai falhando nisto ou naquilo, mas que não falha nunca quando se trata de medicação. Há dias em que me sinto quase robotizada :)

      Beijinho

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  6. Revisitar Camões e ainda ser presenteado com estes magníficos diálogos é simplesmente fantástico Maria João, que posso eu dizer mais, que inspiração nunca lhe falte.
    Abraço cúmplice na esperança que bem se encontre

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    1. Muito obrigada, Cúmplice do Tempo! :)

      A Musa nem sempre está comigo embora seja parte de mim... Faço o possível por sincronizá-la com o meu tempo livre, mas ela é um estado de espírito que surge quando menos espero. No fundo, no fundo, creio que a prefiro assim, um pouco selvagem e imprevisível...

      Um abraço cúmplice

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  7. Bom e belo 1º de Maio em harmonia MJ, beijinhos

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  8. Brancas nuvens negras1 de maio de 2024 às 11:15

    Hoje, uma provocação a Camões com algo de sensual. Quando lhe baterem à porta espreite primeiro.
    Um abraço.
    L

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    1. Bom 1º de Maio, L.!

      Não, este soneto ainda é o de ontem, o de hoje é uma reedição dedicada ao Dia do Trabalhador. Chegou um pouco tarde porque tenho estado muito indisposta.

      Um abraço!

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