O TAL VINTE E CINCO
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Fotografia de Eduardo Gageiro
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O TAL VINTE E CINCO
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Aos vinte e cinco foi dia
Quando era de madrugada
E nesse dia a alegria,
Toda a alegria que havia,
Explodiu quando libertada
*
Aos vinte e cinco chorou-se
Pelo motivo contrário
Ao que o estado novo trouxe:
Aos vinte e cinco cantou-se,
Sonhou-se um poder operário!
*
Tantos mil, fomos vontade,
Que num grito, um grito só,
Saudámos a liberdade,
Todos em pé de igualdade
E a pisar o mesmo pó,
*
O pó de todas as ruas
Metro a metro percorridas
Por chaimites, por charruas...
E sonhei, ou vi faluas
Trocar mar por avenidas?
*
Aos vinte e cinco, sonhámos,
Aos vinte e cinco sentimos
O sabor do que criámos
E desse dia guardámos
O que hoje não permitimos
*
Depois? Depois aprendemos,
Porque, pouquinho a pouquinho,
Percebemos que o que temos
São sobras do que fazemos,
Mas mais ninguém está sozinho,
*
Por isso é que sempre urgente
Lutar mais, com mais afinco,
Lutar, tendo bem presente
Que há sempre quem rosne à gente
Que fez o tal vinte e cinco!
*
Maria João Brito de Sousa
23.04.2018 – 09.46h
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O tal vinte e cinco já tem meio século, que se prolongue por todos os séculos.
ResponderEliminarNoite tranquila, Maria João!
Um abraço.
Boa noite, Cheia!
EliminarNão costumo trazer a este blog poemas escritos na chamada "medida antiga" ou redondilha maior, mas hoje abri uma excepção. E, sim, o tal vinte e cinco já tem meio século.
Um abraço!
E hoje confirmámos que o 25 de Abril continua. Um mar de gente na Avenida da Liberdade... inesquecível ter lá estado.
ResponderEliminarUm abraço.
L
Sei que sim, L., e tenho muita pena de não ter podido ser uma gota desse mar de povo...
EliminarMas posso sempre recordar a primeira vez que fui "caçada", com centenas de outras pessoas, num cerco da polícia de choque, no Rossio, e de como me safei, bem como ao meu apavorado ex-marido, apontando para a minha enorme barriga com uma mão e perguntado quase a rosnar a um deles se achava que aquilo era coisa que se fizesse a uma "senhora" grávida. Depois empurrei-o com toda a força, consegui romper o cordão e passei levando o meu marido quase de rastos atrás de mim. Por aqui se vê como as coisas eram "suaves" no tempo de Marcelo e das famigeradas conversas em família. Pouco antes, estivéramos os dois no Pic-Nic a enrolar em toalhas as cabeças ensanguentadas dos que ali se refugiavam depois de terem sido atingidos por cassetetes o que não durou muito porque o restaurante foi subitamente invadido por um grupo de polícias e todos tivemos de fugir abandonando os feridos.
Posso, sim senhor. Posso sempre lembrar-me disto, que não foi rigorosamente nada em comparação com os horrores por que tantos passaram, e sentir-me feliz por saber que a Avenida da Liberdade se transformou, hoje tal como nos anteriores cinquenta anos, num mar de gente livre.
Um forte abraço!
"Que há sempre quem rosne à gente"
ResponderEliminarOs cães rosnam
mas a caravana passa!
(bom poema)
Abraço
Obrigada, Rogério!
EliminarÉ uma reedição e nem sequer deveria estar neste blog que é exclusivo dos sonetos, mas hoje decidi que haveria de quebrar uma regra :)
Forte abraço