SONETO - 4

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SONETO - 4
*



Morou no meu olhar há muitos anos...


Não sei por que partiu mas foi-se embora


Sem dar aviso nem causar-me danos


Quando entendeu chegada a sua hora
*



Na mala levou risos, desenganos


E aquela lucidez que me enamora...


Mas nunca mais voltou, cobriu de panos


Olhos e rosto. Jura que não chora!
*



Quanto a mim, fugaz pouso do seu brilho,


Vi-o partir como quem olha um filho


Que sempre soube não lhe pertencer
*



Morou-me no olhar? Morou em mim,


Mas todas as viagens têm fim


E - enfim! - é mesmo assim. Ou tem de ser.
*


 


Mª João Brito de Sousa


29.11.2024 - 22.00h
***


Sonetos da Contagem Decrescente
***


 

Comentários

  1. Bom fim de Semana, em toda a harmonia e poesia MJ
    Beijinhos

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    1. Viva, !

      Tudo em harmonia para ti que, por cá, imperam as dores físicas e ainda estou mais a dormir do que acordada...

      Beijinhos

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  2. Um poema muito impressivo, dolorido mas resignado. Afinal, temos de aceitar a inevitabilidade de perder o outro como nos perderemos a nós próprios.
    Um abraço.
    L

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    1. Boa tarde, L.

      Perdoe-me se tropeçar nas palavras, mas estou meia a dormir depois de ter passado uma noite inteirinha a tentar não gritar por causa das cãibras/isquemia dos membros inferiores. Adiante, que temo ter gemido demasiado alto e acordado algum vizinho...

      Nem aqueles que amamos, nem nós, nem mesmo os nossos mais belos sonhos de infância são eternos.... Afinal de contas, a morte é-nos tão essencial quanto o nascimento, por muito que contra ela nos rebelemos, por muito que façamos para a ir adiando mais e mais e mais... É mesmo assim. E não poderia ser de outra forma.
      Já o nosso velho Luiz Vaz cantava

      ":::Todo o mundo é composto de mudança,
      Tomando sempre novas qualidades.
      *

      Continuamente vemos novidades,
      Diferentes em tudo da esperança;
      Do mal ficam as mágoas na lembrança,
      E do bem, se algum houve, as saudades..."

      Obrigada e um forte abraço, .L.

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  3. Boa tarde Maria João
    Seus sonetos são lindissímos e fico sempre a pensar como comentar, mas aqui vai a minha análise.
    O soneto reflete uma despedida serena e madura, marcada por um sentimento de aceitação. A autora retrata a partida de alguém que foi profundamente significativo, mas cuja ausência não causa dor, apenas uma melancolia inevitável. A imagem da mala carregando "risos, desenganos e lucidez" reforça a ideia de que a relação deixou marcas duradouras, mas não feridas.
    O tom do soneto é de resignação e introspecção, especialmente na comparação entre o olhar para o amado que parte e o olhar de uma mãe para um filho que sabe não lhe pertencer. É uma metáfora de desapego, cheia de ternura e compreensão. O fechamento é marcado pela aceitação filosófica de que "todas as viagens têm fim", revelando uma sabedoria madura diante das mudanças que a vida impõe.
    Desejo as suas melhoras de saúde.
    Bom fim de semana e paz.
    Deixo um beijo.
    :)

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    1. Muito, muito obrigada por esta bela análise literária, querida Piedade.

      Há muito que aprendi a distinguir o que pode ser evitado do que não pode e por muito que nos doa acontecerá mais cedo ou mais tarde porque faz parte desta coisa esplêndida que é a própria VIDA.
      Nem sei bem se me dirijo a um filho que perdi à nascença, se aos meus sonhos de infância, se de mim mesma, mas é exactamente como diz, sim: "uma metáfora de desapego".

      Para si, votos de um bom fim-de-semana com Saúde e Paz.

      Um grato beijo

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  4. Olá querida Mª. João.

    Um soneto ímpar, belíssimo, uma saudade cantada de quem canta em agradecimento pela vida, e aceitação do que não pode ser alterado nem mudado.

    Somos todos um, parte de algo maior sem tempo nem espaço. É uma forma de sentir, essa consciência de que não estamos nunca separados pois tal não existe, e esses risos estão em nós, em todos os minutos da nossa vida.

    Muito obrigada pela bela partilha deste poema, que reparo agora, está em contagem decrescente! Nossa, o que é isso? Um lançamento?

    Por falar em lançamentos, tiveste os teus poemas incluídos num livro recentemente , mas não consigo encontrar o comentário onde falamos sobre isso. Gostaria muito de poder adquirir, mas estou às escuras. Please help querida Mª. João,.quando puderes esclarece est tua amiga distraída e fã.

    Votos de que consigas domar a cabeleira heinsteiniana, e de melhoras, mesmo se discretas.

    Um enorme Xi-coração querida Mª João!

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    1. Estou feita uma barata tonta a querer fazer tudo e a não conseguir fazer quase nada, querida Cotovia

      Bem, quanto à contagem decrescente, preferiria não adiantar muito sobre o assunto... No entanto, todos nós entramos em contagem decrescente desde o dia em que vimos ao mundo e este é o meu modo de o dizer, desajeitadamente...

      Eu? Tive os meus poemas incluídos num livro recentemente? Grande novidade me dás pois não faço a menor ideia. Estarás a falar do RECLUSÃO da Laurinda Rodrigues no qual participei a seu lado e ao lado do poeta Fernando Augusto Cunha de Sá? Mas esse livro já foi lançado em 2022...
      Certo é que pensei vir a publicar mais um livrito, mas não estou em condições de o fazer, ainda por cima com a montanha de "red tape" que em breve terei de escalar para ver se consigo um auxílio pecuniário para as contas da farmácia que são gigantescas porque tenho de tomar muitos medicamentos não comparticipados.
      Não sei se a cabeleira ainda está heinsteiniana, rsrsrs... ainda nem tive tempo de me ver ao espelho, embora a tenha escovado apressadamente.

      Um enorme x

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    2. Ai, caramba: "tive os meus poemas recentemente incluídos num livro?" Que raio de incoerência gramatical! Desculpa.

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  5. Um soneto que nos toca, que nos faz pensar na viagem que é a vida.
    "Mas todas as viagens têm fim"

    Boa noite, Maria João.
    Um abraço.

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    1. Obrigada, Cheia!

      Todas, todas, todas as viagens têm um fim, nem as estrelas que dão brilho às nossas noite têm direito à eternidade...

      Um abraço

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  6. Todas as despedidas são dolorosas, ate as que temos de fazer da pessoa que um dia fomos. Criança ou adolescente, já não somos, mas o nosso olhar, bem lá no fundo, continua a ser o mesmo.
    Um grande abraço e que esta noite possa ser de descanso e repouso.
    Ninguém merece tanto sofrimento.
    Um beijinho, Maria João.

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    1. Muito obrigada, Janita.

      Tem razão, "o nosso olhar, bem lá no fundo" continua a ser o mesmo...

      Um beijinho

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  7. Gostei imenso de ler. Também os comentários que não desmerecem do tema descrito. Parabéns, sempre, tal a "destreza" poética com que exprime seus sentimentos. Saúde! E Paz!

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    1. Muito grata pelas suas palavras, Francisco.

      Saúde, Paz e o fraterno abraço de sempre

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