A VISITA DO DEMIURGO

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*


A VISITA DO DEMIURGO
*



Chegaste à noite vindo desse espaço


No qual o Tejo passa a Rubicão,


Com tua cabeleira de sargaço


Molhando as velhas tábuas do meu chão
*



Trazendo mágoas nos teus olhos de aço


E uma gaivota azul no coração.


Abri-te a porta, dei-te o meu abraço,


Servi-te o vinho da consumação
*



Brindámos juntos, fumámos um maço


De algas, de funcho e de manjericão:


- Por que desceste do teu alto paço
*



Até á minha humana habitação?


- Para contar-te deste meu cansaço


E desta minha eterna solidão...
*


II
*



Partiste devagar. Foi passo a passo


Que te esfumaste nessa escuridão...


Olhei pra mim e vi no meu regaço


Qual reflexo subtil, quase ilusão,
*



Um pequenino mas visível laço


De pedra rubra como um coração...


Sorrindo entre o que faço ou que não faço


Guardei-o numa caixa de latão...
*



Pró Demiurgo o tempo é sempre escasso


Quando visita o mundo da Razão,


Se senta à minha beira, de olhar baço,
*



Bebe comigo o vinho, em comunhão,


Abre os braços à paz do meu terraço


E sai levando as trevas pela mão.
*


 


Mª João Brito de Sousa


17.12.2024 - 15.30h
***


 


 


 

Comentários

  1. Uma visita muito importante.
    Boa noite, Maria João!

    Um abraço.

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    1. Boa noite, Cheia!

      Sim, foi uma visita daquelas que limpam a alma... Mas este Demiurgo, tal como a minha Musa, não existem, são simples/complexos estados de espírito. Bem, agora não lhe poderei dizer que os estados de espírito não existem porque, esses, existem sem sombra de dúvida. Não têm é os atributos físicos que eu lhes atribuo nos poemas e até nos comentários.

      Bom descanso e um abraço

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  2. A Maria João tem contacto com deuses e musas e a sua obra revela que eles investem na criadora certa.
    Um abraço.
    L

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    1. Boa noite, L.

      Agora fez-me sorrir São meros estados de espírito que gosto de transformar em personagens, por vezes fantásticas: A Musa e o seu Cavalo de Fogo, Morfeu, o sedutor mas só nas noites em que as malvadas cãibras e dores da isquemia me deixam dormir e este Demiurgo que vem tristonho mas me limpa a alma e leva consigo as trevas e a tristeza...

      Obrigada e um forte abraço

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  3. Oi querida Flor
    O que seria de nós sem essa magia que de ti transborda e nos encoraja a desejar uma visita nas asas de uma gaivota. Hoje,transcrevi um poema e a maioria das vezes a fotografia é que me pertence e é nela que me apresento melhor ,mas hoje as fadas não apareceram .Tive ímpetos de excluir, pensei que não é bom que não estejamos d=satisfeitos com nossos duendes rs Isso só pra te dizer que achei lindo o poema , ficou meio quietinha mas está tão linda e tão inspirada , que me encanta vir ler-te.
    Que bom tomar um vinho no terraço e desejar que a Paz leve embora as trevas que por acaso se engane de local. Parabéns, amiga e que este Natal seja de muita luz para o nosso mundo tão inquieto. Beijos

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    1. Olá, Lis

      Não sou fada, mas já passei pelo teu blog, vi aquela fotografia da plantinha meio sufocada pelo peso das luzes e disse que aqui, em minha casa, são as luzinhas que ficam com medo de serem picadas pelo meu enorme cacto candelabro, pois é nele que eu coloco as luzes de Natal. :) Pode parecer meio estranho, mas eu vivo sozinha com a Mistral e nenhuma de nós se importa de ter um belo cacto de Natal em vez do tradicional pinheirinho
      Na verdade, nunca o nosso mudo precisou tanto de Paz como neste momento histórico que vivemos.
      Sei que o meu profundo desejo de acabar com as guerras e os massacres não chegará nunca ao coração dos que trazem as mãos cobertas do sangue de inocentes. Quanto mais não seja porque eles nunca tiveram Mas magoa-nos a impotência da nossa pequenez quando todos os dias "vemos, ouvimos e lemos" sobre os tantos meninos que tombam mortos ou mutilados a cada instante que passa.
      Desejo que tenhas um Natal tão feliz quanto possível e, acima de tudo, um Natal de Paz.
      Beijos

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  4. Sei que não falas de mim
    Mas...
    Beberia contigo o vinho, em comunhão,
    Abriria os braços à paz do teu terraço
    E sairia levando as trevas pela mão.

    Deixando a musa contigo
    (embora ela a mim, também inspire)

    Beijo de um neto que muito te estima

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    1. Ó meu rico neto, agora é que estamos mal porque saindo do campo das metáforas, a única coisa que se bebe nesta casa é leite ou chá e o meu terraço não passa de uma velha marquise atafulhada de tralha... No entanto, não seria a primeira vez que sais e levas contigo as trevas, que podem ser e já foram uma infinidade de coisas que me afligem ou mesmo una necessidade urgente se transporte. Quanto à tua Musa, ela existe tal como a minha, tu é que costumas dar-lhe o nome de Alma.

      Um beijo desta tua avó tão incomum quanto tua amiga

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  5. Uns bons copos até alegram
    Boa e bela quarta feira em harmonia e bom dia MJ, beijinhos

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    1. Olá, !

      Não digas isto a ninguém, mas não eram copos, copos... Eram canequinhas com infusões de camomila, tília, menta ou cidreira

      Que tenhas uma bela quarta-feira

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  6. De um Demiúrgo tão inspirador, até eu gostaria de receber a visita...
    A Mª João é que me parece uma Deusa, tão alto coloca a sua fasquia poética.
    Que maravilha, que nos parece tão fácil.
    É só juntar as palavras, entrelaçar uma nas outras, e já está.
    O pior é na hora do vamos ver, faltam palavras... e a mim, pobre aprendiz de vontade feita de nada, sobram as boas intenções...

    Beijinhos, Sonetista Maior!

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    1. Viva, Janita

      Estas personagens todas são meros estados de espírito aos quais gosto de dar nome, como se fossem entidades com vida própria. Mas não é sempre que tudo é assim tão fácil.: claro que posso escrever um soneto medíocre, ou assim-assim, sempre que quiser, mas um soneto que me faça sentir que mereço o ar que respiro, nasce quase sempre quando eu menos o espero e de uma quase, quase compulsão. Estou a tentar aligeirar isto mas é mesmo de uma compulsão que me nascem os melhores sonetos. Daí que eu fale tanto da Musa e do seu cavalo de fogo, que não passam de um outro estado de espírito.

      Obrigada pelas suas generosas palavras, Janita.

      Beijinhos, amiga!

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