UM CONTO QUE NÃO É CONTO DE FADAS

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Imagem gerada pelo Chat-GTP


a partir do soneto abaixo


*


UM CONTO QUE NÃO É CONTO DE FADAS
*



A vida não lhe foi conto de fadas,


Nem sequer vida foi, foi existência,


Foi montra com as luzes apagadas


Num desafio constante à desistência
*



Dos dias e das horas remendadas,


De sonhos sem sabor nem consistência,


De caixas de cartão no chão dobradas


E do fantasma de uma (e)terna ausência...
*



Certo dia acordou e desistiu,


Dobrou-se sobre si e enfim sumiu


Bem diante dos olhos que o fitavam
*


 


Se alguém o procurou, não sei dizer...


Tão pouco sei se quis, ou não, morrer,


Só sei que os seus sinais já lá não estavam
*



Mª João Brito de Sousa


25.12.2025 - 14.30h
***


 

Comentários

  1. Excelente!
    Boa noite, Maria João!

    Um abraço

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  2. Teu soneto
    reflecte
    teu estado de espirito

    e trago de lá um verso
    este que trás implícito um conselho
    "Num desafio constante à desistência"

    Beijo

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    Respostas
    1. Não, netinho meu, estás muito enganado: Estou afónica mas não estou nada deprimida e este soneto reflete a crua realidade que crescentemente se vive em Lisboa e, tanto quando vou sabendo, noutras cidades do nosso jardim sobre o Atlântico debruçado. Esse homem não é um único homem, é uma imensidão de gente que tem por tecto um céu chuvoso ou estrelado, conforme a natureza o dite e o seu desaparecimento segue a ordem natural das coisas: um cidadão sem tecto tende a ter uma vida mais curta do que os que têm um tecto que os abrigue.

      Melhor dizendo, este soneto é uma fotografia, um instantâneo daquilo que não vejo ao vivo, mas vou vendo/lendo na net e nos artigos que por aqui vou encontrando.

      Um beijinho da tua avozinha que tem a garganta entupida e vê mal, mas não tão mal que não saiba o que se passa no mundo que a rodeia

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  3. Gostei. Aprecio o estilo trágico.
    Um abraço.
    L

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    Respostas
    1. Obrigada, L.

      Não mais trágico do que a realidade de tantos milhares de pessoas cujas vidas caberiam neste conto em forma de soneto, L. Mas o Chat- GTP também contribuiu para essa percepção do trágico com a imagem que gerou: tons escuros e acastanhados e aquela misteriosa neblina junto ao chão...
      Creio - não, não creio, tenho a certeza de que há vários níveis de IA capazes de criar imagens a partir da leitura de textos, poéticos, ou não - e eu, como sou pobre, claro está que no link de um Chat-GTP que oferece serviço gratuito de imagem e, muito provavelmente, não gerará manchas tão pormenorizadas quanto os que cobram para serem utilizados. Isto é uma suposição, claro, mas o primeiro a que acedi só relatava as imagens em prosa, quando lhe pedi imagens em pixéis, pediu-me desculpa e disse-me que não havia sido programado para esse tipo de trabalho Por fim, lá encontrei este, gratuito, que volta e meia me pede para passar ao nível "premium" que seria pago. Mas eu nunca passo a premium em coisa nenhuma, tomara eu ter euros suficientes para o essencial dos essenciais, sem ter de andar a contar os cêntimos uma ou duas semanas antes do fim do mês dos pensionistas, que é sempre no dia 8.
      Um abraço

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  4. Respostas
    1. Bom dia,

      Infelizmente, ainda vai sendo esta a saga de milhares de pessoas, sim.

      Beijinhos

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  5. Bravo, amiga
    a vida para alguns é uma festa,para outros é um ato, um manifesto ',uma eterna asusência'
    Um conto que não é sobre' fadas' e nem tão trágico _sobrevivemos todos os dias...sem saber se desistiram ou morreram. E, seguimos !
    Grande grande abraço, Maria João (inspiração a mil)

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    Respostas
    1. Olá, Lis!

      Não sei muito bem como isto funciona com os outros bloggers, mas, a mim, acontece-me sempre querer publicar mal crio um poema, o que está a ser problemático porque já tenho vários poemas em fila de espera... Sei que este pode ser triste para a quadra festiva que atravessamos, mas retrata a mais pura realidade: há cada vez mais pessoas a dormir sob um tecto de estrelas ou de nuvens... até pessoas que trabalham e auferem do salário mínimo encontram uma gigantesca barreira financeira pela frente quando tentam alugar um apartamento. Mesmo os T0 estão exorbitantemente caros.

      Quanto a nós, tens razão. Os humanos com coração - também os há que o não têm... - todos os dias recebem, por ricochete, tiros de balas verdadeiras que mataram pessoas de carne e osso. Claro que os que mais nos doem e roem por dentro são os que atingem as crianças... Há demasiadas contradições e horrores neste nosso mundo de injustiças e nem todos lhes ficamos alheios e indiferentes. Seguimos, porque a vida tem mesmo de continuar, mas seguimos tristes e preocupados.

      Grande, grande abraço também para ti

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