DIVAGAÇÕES DE UM VELHO CÃO NUMA TARDE DE OUTONO

old lady and cat (1).jpg


Imagem Pinterest


*


 


DIVAGAÇÕES DE UM VELHO CÃO


NUMA TARDE DE OUTONO
*



Agora que digo se todo eu sou sono?


Ah, não me abandono na leira de trigo


esperando o castigo do mestre ou do dono


que a tanto me abono se mal está comigo...
*



Por aqui me abrigo me enrolo e ressono


que é este o meu trono, se um trono consigo,


ainda que antigo, ainda que um mono,


qual velho patrono, um cantinho amigo...
*



Nas tardes de Outono sem Sol mas com vento


quanto me contento se às folhas douradas


que encontro espalhadas no chão, ao relento,
*



Miro muito atento e as vejo levadas


por anjos ou fadas com arte e talento:


Todas movimento, bailam tresloucadas.
*



Mª João Brito de Sousa


02.01.2025 - 12.30h
***


 


Soneto em verso hendecassilábico com rima entrançada


 

Comentários

  1. Muito.bom.
    Bom resto de dia, Maria João.

    UM abraço.

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    1. Obrigada, Cheia!

      Com as péssimas noites que tenho passado por causa das dores isquémicas, não me importaria nada de estar no lugar do velho cão que trouxe a este soneto...
      Bom resto de dia, amigo!

      Um abraço

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  2. Muito bonito! Adorei ler do início ao fim!

    Bjxxx
    Teresa Isabel Silva
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  3. Boa tarde Maria João
    Este soneto é uma verdadeira ode à simplicidade contemplativa, transportando-nos para o olhar resignado e sonhador de um cão envelhecido. Através de versos hendecassilábicos habilmente entrelaçados, a composição traduz não apenas a melancolia outonal, mas também a aceitação serena do ciclo da vida.
    A primeira quadra inicia-se com uma confissão introspectiva, onde o "sono" do corpo e da alma parece abraçar o personagem com uma cumplicidade terna, evocando a ideia de um descanso merecido. Já na segunda quadra, o eu lírico encontra refúgio em sua própria presença, quase como um trono de resignação, mesmo que marcado pelo desgaste do tempo.
    Os tercetos, por sua vez, revelam um deslumbramento com o mundo exterior — folhas douradas que se tornam dançarinas encantadas ao vento, dirigidas por anjos e fadas. Esse toque de imaginação eleva o poema, transformando o olhar simples em algo profundamente artístico e espiritual.
    A métrica está impecável, conferindo musicalidade e ritmo à leitura. A rima entrançada sustenta um equilíbrio perfeito entre tradição e criatividade, ao mesmo tempo em que reforça a fluidez das reflexões do "velho cão".
    É um soneto que não apenas descreve, mas também encanta, trazendo à tona o potencial de beleza nas divagações mais singelas. Um mimo literário, cheio de graça e talento.
    Este demorou mais a ler, rever e fazer uma análise mais puxada.
    A imagem está em sintonia com o soneto, é fofa, embora não seja real.
    Deixo um beijo
    :)




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    1. Olá, Piedade

      Pois hoje, que estou derreada de todo por sucessivas noites de dores isquémicas e que continuo quase, quase afónica, confesso-lhe que vesti a pele desse velho cão para tentar descansar um pouco. E consegui, pelo menos enquanto escrevia o soneto. Eu, Maria João, estava tão, mas tão cansada e tão indisposta que resolvi mudar a minha identidade para a de um cãozito que embora repouse sereno, não deixa de se maravilhar com a dança das folhas de Outono.

      Amanhã, não sei se vou, ou não, conseguir escrever seja o que for, se vou, ou não, ter algumas reparadoras horas de sono... Mas sei que vou continuar afónica, porque isto dura há demasiado tempo e já não acredito que vá desaparecer miraculosamente de um dia para o outro. Queria muito poder continuar a ter esse "soninho bom" que, como muito bem reparou, "parece abraçar o personagem de corpo e alma". Hoje, que não pude sonhar durante os curtos períodos de tempo em que dormitei, sonhei acordada... e foi assim que nasceu este poema que tão brilhantemente analisou. Obrigada do fundo do coração e

      Um beijo

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  4. Uma verdadeira Obra de Arte!
    E o comentário analisando o Soneto não lhe fica atrás.
    Uma verdadeira Escola de Poesia, este seu blogue.
    Feliz 2025!

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    1. Boa noite, Francisco.

      Em termos de análise, tenho de agradecer à Piedade Araújo Sol que muito enriqueceu este espaço que já atingiu uma provecta idade, tendo em conta a esperança de "vida" dos blogs... Se não me engano, este blog unicamente dedicado ao soneto faz dezassete anos no próximo dia 14.
      E que seria de um blog, que eu vejo sempre como um livro aberto, se não tivesse leitores? Muito obrigada também a si, Francisco!

      Obrigada e um Feliz 2025 também para si!

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  5. Mai bom
    Bom fim de Semana em harmonia, e bom dia MJ, beijinhos

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    1. Olá,

      Diz-me lá se não te apetecia mesmo uma soneca assim, como a da velhinha e a dos canitos?...
      Eu, que esta noite tive sorte porque lá consegui umas horitas sem dores, tenho andado tresnoitada de todo... mal pego no sono, catrapum!, lã vem o raio das dores isquémicas estragar-me a noite inteira.

      Bom fim-de .semana e beijinhos

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