NATAL - Custódio Montes e Maria João Brito de Sousa

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Imagem gerada pelo ChatGPT


*


 


COROA DE SONETOS


*


 


NATAL


*


A neve cobre o monte iluminado


Nas palhas o menino adormecido


Os sinos com um toque enternecido


Espalham o evento encantado


*


Nasceu já o menino anunciado


Deitado sobre a cama e aquecido


Embora sem ter roupas e despido


Mas com todo o calor do povoado


*


Natal, é nascimento e alegria
Para que seja assim no dia a dia
Com glória, com fartura e riqueza


*


Acabe-se a miséria, finde a guerra
Que haja sempre alimento sobre a terra
Para acabar a fome e a pobreza


*


Custódio Montes
***


2.


*


"Para acabar a fome e a pobreza"


Será que um Natal basta? Não sei não,


Mas tem-se, nesta noite, essa ilusão


Ainda que em momentos de incerteza...
*


Momentos de amargura ou de tristeza


Podem render-se face à tradição,


Mas não esqueçamos quem não tem nem pão


Pra, nesta noite, pôr à sua mesa
*


Ou quem balas recebe por presente


Não por ser menos gente do que a gente


Mas porque a guerra pode sempre mais...
*


Se quem com espada mata à espada morre,


Porque é que este horror todo ainda ocorre,


Porque é que eu ouço o mundo inteiro aos ais?
*


Mª João Brito de Sousa


24.12.2025 - 19.20h
***



3.
*


“Porque é que eu ouço o mundo inteiro aos ais?"


O mundo inteiro não, só o dos pobres


Que os outros comem tudo, enchem os odres


E não têm problemas como os mais
*


Passeiam-se em bons carros, dão sinais


De terem tudo a volta, não uns cobres


Nem serem uns plebeus, mas antes nobres


E são considerados maiorais
*


 


Como disse o poeta “comem tudo”


E todo o mundo vê mas fica mudo


Por causa de não ter perseguição
*



As armas que constroem são de guerra


Por isso há muitos ais por sobre a terra


De pobres sem ter nada, sem ter pão
*


Custodio Montes
29.12.2025
***


4.
*


"De pobres sem ter nada, sem ter pão",


Jovens, velhos, crianças... tantos, tantos


Que vestem da miséria os magros mantos


Do que couber à sua humilhação
*



Os grandes, por não terem coração,


Passam por eles sem mágoa nem quebrantos


Nunca lhes dando mais que desencantos,


Nem sequer vendo a sua frustração...
*



Cada vez mais soberbos falsos nobres


Ignoram, pr`aforrarem mais uns cobres,


Os que tombam na guerra ou mesmo à míngua
*


De alimento e cuidados. Triste mundo


Este que bem podia ser fecundo...


Pra tanto mal já vai faltando língua.
*



Mª João Brito de Sousa


29.12.2025
***


5.
*


“Pra tanto mal já vai faltando língua”


E vai faltando paz, um bem supremo


Sem haver solução, é o que eu temo


Porque de gente boa há muita míngua


*


 


Também no mundo há quem não distinga


O bem do mal nem haja mão ao remo


Para levar o barco a um bom termo


E dar o pão ao pobre que mendiga


*


 


Pensamos que o Natal é nascimento


E que há muita fartura e alimento


Com tanta luz à volta e com calor


*


 


Mas nem se esconde a fome e o sofrer


De quem nada tem nem de comer


Com morte, sofrimento e tanta dor!


*


 


Custódio Montes


30.12.2025
***



6.
*


"Com morte, sofrimento e tanta dor"


Carregam essa cruz infindas vidas


Sempre entre mil chegadas e partidas


E também entre o ódio e o amor...
*



E este eterno vaivém é tão maior


Quanto mais as dor`s são desmentidas


Apesar de por nós serem sentidas,


Apesar de, pra nós, terem valor...
*



E engordando a elite à nossa custa


Sabemos que esta vida é mesmo injusta


Apesar dos encantos do Natal
*



Porque até o menino, esse inocente,


Cresceu e foi punido cruamente


Tão só por não ter feito nenhum mal...
*


 


Mª João Brito de Sousa


30.12.2025
***


7
´
*
“Tão só por não ter feito nenhum mal”


Mas por não agradar à judiaria


E ser opositor com rebeldia


A dar o seu exemplo bem frontal
*


 


Fosse hoje palestino era igual


Judeus e americanos, em harmonia


Destruíam-lhe a casa e a alegria


E roubavam-lhe a terra e o seu quintal
*


 


Melhor será pensarmos no amanhã


Desejarmos bom ano com afã


Cobrirmos a tristeza sem engano
*



Com neve, chuva ou vento a soprar


Melhor será, com alma, desejar


A todos, com amor, um melhor ano
*


 


Custódio Montes
30.12.2025
***


8.
*


"A todos, com amor, um melhor ano"


Desejo, pode crer, com tal fervor


Que até me esqueço da profunda dor


Que espiçaça este corpo velho, insano
*



Cansado de andar neste desengano


De não saber criar maior valor...


Perdoe-me esta falta de vigor,


Mas pra traje a rigor não tenho pano...
*



Se a tal me atrevo quando tonta estando


A si o devo que me foi tentando


E eu não sei resistir a desafios...
*



Está a chegar a "senhora do banho"


E por mais que pareça tonto ou estranho


Estou coberta de sono e calafrios...
*



Mª João Brito de Sousa


30.12.2025
***


9.
*



“Estou coberta de sono e calafrios”


Mas tem que acordar que lhe faz bem


Pense ter vinte anos que ninguém


Descobre que tem esses desvarios
*


 


A sua rapidez nos desafios


É douta e com sono ninguém tem


A sua lucidez que nos convém


E dá calor em dias frios, frios
*


 


Poemas são estrelas a brilhar


Mais belas se se virem junto ao mar


Escreva porque este ano vai-se embora
*


 


Desaparece o dono e a poesia


Acorda-a e a nós dá alegria


Ao lê-la, dia a dia, hora a hora
*


 


Custódio Montes


30.12.2025


***


10.
*


"Ao lê-lo dia a dia, hora a hora"


Sinto-me muito mais acompanhada


Que a escrita é companheira abençoada


Pois sempre me seduz e me enamora...
*



Não tarda mesmo nada irei embora


Para me abastecer de um quase nada


Que amanhã comerei. E consolada


Estarei enquanto este ano se demora ...
*



Voltarei, no entanto, e se puder


Estarei consigo e pronta a responder


Ao próximo soneto da Coroa
*



Se o andarilho assim mo permitir


Daqui a poucas horas torno a vir


Beber quanta poesia me atordoa!
*



Mª João Brito de Sousa


30.12.2025
***


11.
*


“Beber quanta poesia me atordoa!”


Que faz bem, como sabe, a poesia


E nos dá importância e alegria


Quando nos envaidece por ser boa
*



Não só quando viaja por Lisboa


Mas quando nos visita dia a dia


Nos enche de vaidade e inebria


Em cada canto onde ela é bela e voa
*


 


E dou como exemplo a grande fada


Que vive junto ao mar e inspirada


Faz com que a mim me surja inspiração
*



Há tempos relaxei o escrever


E com a sua ajuda e saber


Sonetos e sonetos aí vão
*



Custódio Montes
30.12.2025
***


12.
*


"Sonetos e sonetos aí vão"


Voando como pombas ou pardais


Que não querem chegar tarde demais


E não desdenham desta animação
*



Sei que, ao escrever-lhe, não lhe escrevo em vão


Pois recebo de volta mil sinais:


Vai esta C`roa dando voltas tais


Que nunca acabará em decepção!
*


 


Reconheço, porém, que a minha escrita


Inda não está perfeita nem bonita...


Talvez ainda fraca e combalida
*



Precise de sentir-se confiante...


Mas que fazer senão seguir avante?


A escrita, meu amigo, é como a vida...
*



Mª João Brito de Sousa


30.12.2025
***


13.
*


“A escrita, meu amigo, é como a vida”


Que anda sempre em frente sem parar


Mas a vida amanhã pode acabar


A escrita é eterna por ser lida
*


 


E se for poesia bem sentida


E quem a venha a ler dela gostar


De certo até a pode eternizar


E ter-lhe mais amor por tão querida
*


 


Quando se não escreve o esquecimento


Envolve cada dia e momento


E não se lembra o bem nem lembra o mal
*


 


Dum soneto falou-se dum menino


Da paz que a gente quer como destino


E tudo isso à volta do Natal
*


 


Custódio Montes


30.12.2025
***


14.
*


"E tudo isso à volta do Natal"


De um menino que o mundo não esqueceu,


Que num precário abrigo enfim nasceu


Para fazer o bem vencendo o mal...
*


 


Com el` um sonho nasce, um ideal


Que perdura, que nunca se perdeu...


Dizem alguns que veio lá do céu


Pra na Terra tornar-se enfim real...
*



Desse pequeno ser nunca esquecido


Eu julgo ouvir um som. É um vagido,


Um som quase inaudível, abafado...
*



Vêm vindo pastor`s pra conhecê-lo


E tornando o cenário inda mais belo


"A neve cobre o monte iluminado"
*



Mª João Brito de Sousa


30.12.2025
***

Comentários

  1. Boa noite, Maria João e Custódio Montes
    Eis que me atrevo a entrar nessa "coroa de sonetos", para a qual não fui convidado, mas quando a ousadia é grande ...
    ***
    “Que haja sempre alimento sobre a terra”
    É um desejo que não alcança seu fim.
    Porque, diz o tempo e a vida não me erra,
    Enquanto não houve senhor nem servo er’assim.

    O desejo qu’a nossa perene lut’encerra
    É a certeza que haveremos de pôr fim
    Ao discurso de quem à mentira se aferra
    Que pobr’e rico sempre os haverá, enfim.

    Por isso neste tempo de Natal qu’agor’é
    É nosso dever gritar à Terra e ao Mundo
    Que o que nasceu co’o menino não foi a fé

    Que a riqueza da Terra é só para mil
    À custa de uma mole que rasteja fundo,
    Que dos milhões produzidos deles só o til.
    ***
    Zé Onofre

    ResponderEliminar
  2. Bom dia, Zé Onofre.

    Sou eu quem lhe agradece a contribuição poética pois o poeta amigo Custódio Montes não tem blog e esta Coroa de Sonetos foi toda construída via correio electrónico.

    Para mim e desde sempre, este menino simbolizou todos os explorados e oprimidos. Não sei se isto é fé, mas é qualquer coisa muito, muito forte...

    Também não consigo acreditar que "pobre e rico, sempre os haverá" , embora estejamos a viver um momento de intensa mudança estrutural que nos coloca a todos nas mãos amorais do grande poder económico. Amorais e imorais, digo. E, sim, sem dúvida, "a riqueza da Terra é só para mil/ À custa de uma mole que rasteja fundo/Que dos milhões produzidos deles só o til"

    Para si, um forte abraço

    ResponderEliminar
  3. Bom dia, Maria João
    É uma felicidade tê-la por estas bandas.
    Que permaneça funcional por aqui muito tempo´.
    Um abraço amigo,
    Zé Onofre

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  4. Também fico muito feliz por vê-lo de novo, Zé Onofre. :)

    As consultas recomeçam já no segundo dia de Janeiro, mas sempre é melhor poder estar em casa do que passar Natal e Ano Novo num internamento hospitalar.

    Um abraço amigo também para si

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  5. Ano após ano após ano, sempre se diz que o ano velho não deixa saudades e que se espera que o ano novo seja melhor. Eu aqui estou a cumprir a tradição, dizendo que dificilmente o ano novo poderá ser pior do que o velho, que foi um ano em que o Mundo se pareceu com um manicómio. Trágico, mas manicómio. Será demais pedir um ano melhor, para si e para todos?

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  6. Cumprimos uma tradição milenar, Fernando... :)

    Suspeito que o mundo vá continuar a parecer-se com um imenso e trágico manicómio, mas também eu desejo profundamente um melhor ano. Para mim, para si, para os amigos e conhecidos... Enfim, para todo este mundo alienado.

    Boas entradas e um abraço amigo

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  7. Muitos parabéns a ambos.
    Feliz 2026, Maria João!
    Um abraço.

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  8. Muito obrigada pela parte que me cabe, Cheia!

    Retribuo os votos de um muito feliz 2026 e envio um forte abraço

    ResponderEliminar
  9. Boa noite Maria João!
    Adorei ler a vossa poesia.
    E até li os comentários. Muito interessante.
    Votos que 2026 lhe traga mais saúde para si e claro para Mistral.
    Cuidado com as passas

    Um beijinho.
    Luisa Faria

    ResponderEliminar
  10. Boa noite, Luísa

    Obrigada pela parte que me cabe.

    Não tenho passas nem sinto a falta delas. Estou a beber um sumo de uva com romã que está uma delícia e como já começo a cabecear, duvido muito que passe o ano acordada

    Um beijinho e votos de um FELIZ 2026

    ResponderEliminar

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