POR TEIMOSIA OU PAIXÃO

 




Eu e a minha mãe,

Jardim de Algés, 1958
*

Fotografia de

 António Pedro Brito de Sousa,

meu pai


*


*

POR TEIMOSIA OU PAIXÃO
*


Por teimosia, ou paixão,

galguei-te, ó mar que me sondas,

à revelia das ondas

e contra a voz da razão...

Vi espólios de mil naufrágios

onde quer que mergulhei

e, onde eu mesma naufraguei

desprezando os maus presságios,

dei com paixões que eram estágios

do que nunca alcançarei

pois nunca sequer sonhei

fazer delas meros plágios,

nem suscitaram contágios

as que ali presenciei:

Em clareiras abissais,

tão profundas, tão escondidas,

nas quais se geraram vidas

que agora não vivem mais

pois sob as ondas letais

estão pra sempre adormecidas

e há tanto tempo esquecidas

que não voltarão jamais,

vislumbrei restos mortais

de mil estradas percorridas

E, sem chorar – pois... pra quê? -,

guardei, no fundo do peito,

mais a noção que o conceito

do que, afinal, o mar é:

A todo o que se lhe dê,

tenha ou não tenha defeito,

conserva em funéreo leito

junto à jangada ou galé

em que ousou, com ou sem fé,

cruzá-lo de qualquer jeito...

Por teimosia...- e paixão! -,

ó mar que ousaste sondar-me,

não caio na tentação

de, pra vencer-te, afundar-me!
*

 

Maria João Brito de Sousa

26.04.2015
***








Comentários

  1. Maria João, cá estou a inaugurar este seu espaço com a minha visita. Com um poema maravilhoso, terno, um mar de vida.
    Um abraço amigo.
    L

    ResponderEliminar

Enviar um comentário

Mensagens populares deste blogue

NAS TUAS MÃOS

MULHER

A CONCEPÇÃO DOS ANJOS - Em nove sílabas métricas