PEQUENO SOM - Maria João Brito de Sousa e Custódio Montes

PEQUENO SOM - SONETTO

*



COROA DE SONETOS

*


Maria João Brito de Sousa e Custódio Montes

*

1.

*



Oiço-te,ó som longínquo mas audível


Que ontem me fascinava a toda a hora...


Aqui me tens. Por ti torno visível


Aquilo que visível nunca fora

*



E seja, ou não, a minha voz sofrível,


Dou vida a uma coisa que é sonora,


Incorpórea e talvez indefinível,


Mas que ainda me exalta e me enamora...

*



Bendita seja a hora em que te ouvi


Quando já quase, quase te olvidara,


Pequeno som que nunca sei explicar

*



Foi bom, foi muito bom trazer-te aqui:


Tu és o que me nutre e me prepara


Prás lutas qu`inda tenho de enfrentar

*




©Maria João Brito de Sousa


16.08.2026

***


2.

*


“Pr’ás lutas qu’ inda tenho de enfrentar”

Gostava de ter força, de ter jeito

Para imitar o som que ouço no leito

Agora mesmo à hora de acordar

*


Soa do Sul, de Oeiras, junto ao mar

Com a sua harmonia me deleito

Ao qual agora vou render meu preito

E palmas muitas palmas lhe vou dar

*


É voz que a entoa ou realejo?

Não sei, só sei que vem da foz do Tejo

Que faz chegar ao Norte a entoação

*


O som chegou aqui veio até Braga

E tem a mão certeira duma maga

Com nome que é Maria mais João

*


Custódio Montes

17.8.2026

+++



3.

+


"Com nome que é Maria mais João"


Responde-lhe esta voz que estando fraca


Não traz ainda a antiga convicção,


Mas confia no cais a que hoje atraca

*



E vai fazer das tripas coração


Pra tentar não soar como matraca


Nem dar-lhe, amigo, uma desilusão


Ou, em bom português, não dar barraca...

*



Farei o que puder, pouco podendo


Fazer pra não trair uma amizade 


Que tantos frutos deu em tempos idos

*



Perdoe o linguajar despiciendo


Mas, para lhe contar toda a verdade,


Dei rédea solta aos sons de mim nascidos...

*




©Maria João Brito de Sousa


17.08.2026

***


 

4.

*


“Dei rédea solta aos sons de mim nascidos….”

Cuidado…que de nós nem sempre advém

Tudo o que de melhor a gente tem

E sons, bem sei que há muitos parecidos

*


Mas ao falar de sons ao alto erguidos

Tendo a sonoridade que convém

Como harpas bem tocadas por alguém

Ficamos, ao ouvi-los divertidos

*


E mande-me de longe o que quiser

Que eu ouço esses sons duma mulher

Que tão bem tange a harpa dia a dia

*


Que no meio dos sons vem misturado

Todo aquele cortejo engalanado

Com flores, sem ter par, de poesia

*


Custódio Montes

17.9.2026

***


5.

*


"Com flores, sem ter par, de poesia"


Que irão dar corpo à voz misteriosa


Que traz consigo ideia e melodia


E sempre acaba em floração viçosa

*



Vão chegando os seus versos que a mestria


Abençoou de forma esplendorosa


E que recebo cheia da alegria


Que faz ´squecer que há espinhos numa rosa...

*



Que dos sonetos que aqui desfiamos


Possam nascer memórias. Riso e choro


Serão bem-vindos quando não fingidos

*



E que, do que dissermos, não esqueçamos


Que tudo o que é espontâneo eu comemoro


E a tudo o que o não é não dou ouvidos.

*



©Maria João Brito de Sousa


17.08.2026

***


6.

*


“E a tudo o que não é não dou ouvidos”

A caravana passa e vai a andar

Só àquilo que é bom se deve olhar

E alegrar assim nossos sentidos

*

Às vezes soam sons bem divertidos

Que também fazem rir ao escutar

Tal como dar um beijo ao namorar

Ou outros sons alegres bem vividos

*

Tudo aquilo que alegra não desprezo

E às vezes por piada ou por avezo

Repito esses sons ao ir e vir

*

Ouvir a melodia desse som

Lembrando tudo aquilo que foi bom

Às vezes tem piada e até faz rir

*

Custódio Montes

17.9.2026

***


7.

*


"Às vezes tem piada e até faz rir"


O que é muito bem-vindo à C`roa nossa


Tal como o é a lágrima, se a vir


Tremeluzir sem que contê-la possa...

*



E até a revolta, se surgir,


É permitida se não fizer mossa


À rima que espontânea nos fluir


Porque até ela, às vezes, nos remoça...

*



O poema é um mundo sem tabus


Nem guiões ou roteiros pré-datados:


Aqui cabe-nos tudo o que é humano

*



Todos os versos gostam de andar nus


E rir ou protestar, se revoltados


Por dor, por injustiça ou desengano.

+



©Maria João Brito de Sousa


17.08.2026

***


 8.

*


“Por dor, por injustiça ou desengano”

Também os versos primam pelo amor

E pelo encanto seja onde for 

Enchendo-nos a alma todo o ano 

*


Poemas nunca causam qualquer dano 

Enfeitam o caminho como a flor 

Com muito mais, às vezes, esplendor 

Do que quando gizado foi o plano 

*


Depende da guitarra que ao tocar 

Lhe dê o tom que o som no seu trinar 

Encanta quem o ouvir com o desejo 

*


De abraçar sua amada junto a si 

Que ela bem vai gostar e até se ri 

Ao abraçar-se a ele e ao dar-lhe um beijo 

*


Custódio Montes 

17.9.2026

***


9.

*


"Ao abraçar-se a ele e ao dar-lhe um beijo"


Fica feliz a moça que o amava


E é também bom que se cante o desejo


Ou se exalte a alegria que emanava

*



De um reencontro que, segundo vejo, 


É fruto de outro som que então tocava...


Talvez de reouvi-lo eu tenha ensejo


E isso me anime mais do que eu pensava...

*



Guitarras poderão fazer magia


Quando são com mestria dedilhadas


E tanto farão rir quanto chorar...

*



Nunca chorou, o amigo, de alegria?


Eu lágrimas verti - abençoadas! -


E hoje sorrio só de as relembrar...

*



©Maria João Brito de Sousa


17.08.2026

***



10.

*




“E hoje sorrio só de as lembrar”


Que é bom termos lembranças com saudade 


Vida não é só hoje a realidade


Mas voltar ao passado e relembrar 

*




Não gosto de num banco me sentar 


Mas andar pelas ruas da cidade


Enquanto o permitir a minha idade 


Poder ver as belezas ao passar 

*




Depois tudo o que vi vem à lembrança 


E a vida é mesmo isso, é essa andança 


Tudo o que por nós passa hora a hora




Depois em cada dia nós voltamos 


A ouvir outros sons de que gostamos 


E cada som ouvido nos melhora 

*



Custódio Montes 


17.9.2026 


***



11.

*


"E cada som ouvido nos melhora"


Porque é essa a função do som que evoco


Embora, meu amigo, muito embora


Tanto mais dê quão mais nos soe a pouco

*



E nos fascine, sim, porque enamora


Conquanto se comporte como um louco,


Nos surja sempre de dentro pra fora


E, em vez de cristalino, seja rouco...

*



Falo de um som que só eu posso ouvir,


Que vai regendo os versos que eu escrever


E jamais será escrito em pauta alheia...

*



Acredite-me ou não... Não sei mentir,


Mas sei que em som assim nunca irá crer:


Só quem é sinesteta "ouve" uma ideia.

*



©Maria João Brito de Sousa


18.08.2026


***


12.

*




“Só quem é sinesteta “ouve” a ideia” 


Ideia que mistura e a dobrar 


E ouve e fala e di-lo a rimar 


E o som refulge belo e em cadeia 

*




Se o som é  bom a ouvir também enleia 


Aqueles que misturam sons a par 


E ouvir esses sons é, se calhar, 


De quem durante a vida  muito anseia 

*




Mas penso, mesmo assim, que vale a pena 


Falar dos duplos sons com voz serena 


Trazê-los ao poema com magia




Assim, o escritor, com esse jeito 


Em vez de desespero toma a peito 


O som que se embeleza em poesia 

*




Custódio Montes 


18.9.2026 

***


13.

*


"O som que se embeleza em poesia"


É este que por nós é exaltado


E que, sirva a tristeza ou a alegria,


Nos vai vestindo os versos de brocado

*



Pra compor uma C´roa com mestria


E honrar cada soneto aqui grafado


Com a graça que vem da melodia


Ainda que cantada em tom velado...

*



Venha esse som de dentro ou lá de fora,


Que importa se soar melodioso


E a cada verso honrar sem vacilar?

*



Penúltimo soneto. Vou-me embora.


O fecho é seu e vai sair airoso


Que eu sei quão bem o som fará vibrar.

*



©Maria João Brito de Sousa


18.08.2026

***


14.

*




“Que eu sei quão bem o som fará vibrar” 


Mas só acompanhado pela maga 


Que logo que ouve o som tão bem o afaga 


Com ritmo e vibração a acompanhar 

*




O som foi desvendado ao começar 


E com um tom vibrante veio a Braga 


Então daqui voltou e como paga 


Tentei com algum jeito agradar 

*




Mas faltam-me a viola e a guitarra 


Senão eu cantaria com mais garra 


Assim devolvo o som melhor possível 

*




Para que esse seu som se ouça melhor 


E diga, com saúde e com amor: 


“Oiço-te, ó som longínquo mas audível”

*




Custódio Montes 


18.9.2026 

***


 

Comentários

Enviar um comentário

Mensagens populares deste blogue

A GESTAÇÃO DO POEMA

SONETO IMPUBLICÁVEL

UM VOO DE PARDAL - Soneto muito ligeiro, dedicado à Ligeirinha