PEQUENO SOM - Maria João Brito de Sousa e Custódio Montes
PEQUENO SOM - SONETTO
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COROA DE SONETOS
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Maria João Brito de Sousa e Custódio Montes
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1.
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Oiço-te,ó som longínquo mas audível
Que ontem me fascinava a toda a hora...
Aqui me tens. Por ti torno visível
Aquilo que visível nunca fora
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E seja, ou não, a minha voz sofrível,
Dou vida a uma coisa que é sonora,
Incorpórea e talvez indefinível,
Mas que ainda me exalta e me enamora...
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Bendita seja a hora em que te ouvi
Quando já quase, quase te olvidara,
Pequeno som que nunca sei explicar
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Foi bom, foi muito bom trazer-te aqui:
Tu és o que me nutre e me prepara
Prás lutas qu`inda tenho de enfrentar
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©Maria João Brito de Sousa
16.08.2026
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2.
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“Pr’ás lutas qu’ inda tenho de enfrentar”
Gostava de ter força, de ter jeito
Para imitar o som que ouço no leito
Agora mesmo à hora de acordar
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Soa do Sul, de Oeiras, junto ao mar
Com a sua harmonia me deleito
Ao qual agora vou render meu preito
E palmas muitas palmas lhe vou dar
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É voz que a entoa ou realejo?
Não sei, só sei que vem da foz do Tejo
Que faz chegar ao Norte a entoação
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O som chegou aqui veio até Braga
E tem a mão certeira duma maga
Com nome que é Maria mais João
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Custódio Montes
17.8.2026
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3.
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"Com nome que é Maria mais João"
Responde-lhe esta voz que estando fraca
Não traz ainda a antiga convicção,
Mas confia no cais a que hoje atraca
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E vai fazer das tripas coração
Pra tentar não soar como matraca
Nem dar-lhe, amigo, uma desilusão
Ou, em bom português, não dar barraca...
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Farei o que puder, pouco podendo
Fazer pra não trair uma amizade
Que tantos frutos deu em tempos idos
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Perdoe o linguajar despiciendo
Mas, para lhe contar toda a verdade,
Dei rédea solta aos sons de mim nascidos...
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©Maria João Brito de Sousa
17.08.2026
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4.
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“Dei rédea solta aos sons de mim nascidos….”
Cuidado…que de nós nem sempre advém
Tudo o que de melhor a gente tem
E sons, bem sei que há muitos parecidos
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Mas ao falar de sons ao alto erguidos
Tendo a sonoridade que convém
Como harpas bem tocadas por alguém
Ficamos, ao ouvi-los divertidos
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E mande-me de longe o que quiser
Que eu ouço esses sons duma mulher
Que tão bem tange a harpa dia a dia
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Que no meio dos sons vem misturado
Todo aquele cortejo engalanado
Com flores, sem ter par, de poesia
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Custódio Montes
17.9.2026
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5.
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"Com flores, sem ter par, de poesia"
Que irão dar corpo à voz misteriosa
Que traz consigo ideia e melodia
E sempre acaba em floração viçosa
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Vão chegando os seus versos que a mestria
Abençoou de forma esplendorosa
E que recebo cheia da alegria
Que faz ´squecer que há espinhos numa rosa...
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Que dos sonetos que aqui desfiamos
Possam nascer memórias. Riso e choro
Serão bem-vindos quando não fingidos
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E que, do que dissermos, não esqueçamos
Que tudo o que é espontâneo eu comemoro
E a tudo o que o não é não dou ouvidos.
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©Maria João Brito de Sousa
17.08.2026
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6.
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“E a tudo o que não é não dou ouvidos”
A caravana passa e vai a andar
Só àquilo que é bom se deve olhar
E alegrar assim nossos sentidos
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Às vezes soam sons bem divertidos
Que também fazem rir ao escutar
Tal como dar um beijo ao namorar
Ou outros sons alegres bem vividos
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Tudo aquilo que alegra não desprezo
E às vezes por piada ou por avezo
Repito esses sons ao ir e vir
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Ouvir a melodia desse som
Lembrando tudo aquilo que foi bom
Às vezes tem piada e até faz rir
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Custódio Montes
17.9.2026
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7.
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"Às vezes tem piada e até faz rir"
O que é muito bem-vindo à C`roa nossa
Tal como o é a lágrima, se a vir
Tremeluzir sem que contê-la possa...
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E até a revolta, se surgir,
É permitida se não fizer mossa
À rima que espontânea nos fluir
Porque até ela, às vezes, nos remoça...
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O poema é um mundo sem tabus
Nem guiões ou roteiros pré-datados:
Aqui cabe-nos tudo o que é humano
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Todos os versos gostam de andar nus
E rir ou protestar, se revoltados
Por dor, por injustiça ou desengano.
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©Maria João Brito de Sousa
17.08.2026
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8.
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“Por dor, por injustiça ou desengano”
Também os versos primam pelo amor
E pelo encanto seja onde for
Enchendo-nos a alma todo o ano
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Poemas nunca causam qualquer dano
Enfeitam o caminho como a flor
Com muito mais, às vezes, esplendor
Do que quando gizado foi o plano
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Depende da guitarra que ao tocar
Lhe dê o tom que o som no seu trinar
Encanta quem o ouvir com o desejo
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De abraçar sua amada junto a si
Que ela bem vai gostar e até se ri
Ao abraçar-se a ele e ao dar-lhe um beijo
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Custódio Montes
17.9.2026
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9.
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"Ao abraçar-se a ele e ao dar-lhe um beijo"
Fica feliz a moça que o amava
E é também bom que se cante o desejo
Ou se exalte a alegria que emanava
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De um reencontro que, segundo vejo,
É fruto de outro som que então tocava...
Talvez de reouvi-lo eu tenha ensejo
E isso me anime mais do que eu pensava...
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Guitarras poderão fazer magia
Quando são com mestria dedilhadas
E tanto farão rir quanto chorar...
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Nunca chorou, o amigo, de alegria?
Eu lágrimas verti - abençoadas! -
E hoje sorrio só de as relembrar...
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©Maria João Brito de Sousa
17.08.2026
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10.
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“E hoje sorrio só de as lembrar”
Que é bom termos lembranças com saudade
Vida não é só hoje a realidade
Mas voltar ao passado e relembrar
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Não gosto de num banco me sentar
Mas andar pelas ruas da cidade
Enquanto o permitir a minha idade
Poder ver as belezas ao passar
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Depois tudo o que vi vem à lembrança
E a vida é mesmo isso, é essa andança
Tudo o que por nós passa hora a hora
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Depois em cada dia nós voltamos
A ouvir outros sons de que gostamos
E cada som ouvido nos melhora
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Custódio Montes
17.9.2026
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11.
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"E cada som ouvido nos melhora"
Porque é essa a função do som que evoco
Embora, meu amigo, muito embora
Tanto mais dê quão mais nos soe a pouco
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E nos fascine, sim, porque enamora
Conquanto se comporte como um louco,
Nos surja sempre de dentro pra fora
E, em vez de cristalino, seja rouco...
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Falo de um som que só eu posso ouvir,
Que vai regendo os versos que eu escrever
E jamais será escrito em pauta alheia...
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Acredite-me ou não... Não sei mentir,
Mas sei que em som assim nunca irá crer:
Só quem é sinesteta "ouve" uma ideia.
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©Maria João Brito de Sousa
18.08.2026
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12.
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“Só quem é sinesteta “ouve” a ideia”
Ideia que mistura e a dobrar
E ouve e fala e di-lo a rimar
E o som refulge belo e em cadeia
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Se o som é bom a ouvir também enleia
Aqueles que misturam sons a par
E ouvir esses sons é, se calhar,
De quem durante a vida muito anseia
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Mas penso, mesmo assim, que vale a pena
Falar dos duplos sons com voz serena
Trazê-los ao poema com magia
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Assim, o escritor, com esse jeito
Em vez de desespero toma a peito
O som que se embeleza em poesia
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Custódio Montes
18.9.2026
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13.
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"O som que se embeleza em poesia"
É este que por nós é exaltado
E que, sirva a tristeza ou a alegria,
Nos vai vestindo os versos de brocado
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Pra compor uma C´roa com mestria
E honrar cada soneto aqui grafado
Com a graça que vem da melodia
Ainda que cantada em tom velado...
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Venha esse som de dentro ou lá de fora,
Que importa se soar melodioso
E a cada verso honrar sem vacilar?
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Penúltimo soneto. Vou-me embora.
O fecho é seu e vai sair airoso
Que eu sei quão bem o som fará vibrar.
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©Maria João Brito de Sousa
18.08.2026
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14.
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“Que eu sei quão bem o som fará vibrar”
Mas só acompanhado pela maga
Que logo que ouve o som tão bem o afaga
Com ritmo e vibração a acompanhar
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O som foi desvendado ao começar
E com um tom vibrante veio a Braga
Então daqui voltou e como paga
Tentei com algum jeito agradar
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Mas faltam-me a viola e a guitarra
Senão eu cantaria com mais garra
Assim devolvo o som melhor possível
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Para que esse seu som se ouça melhor
E diga, com saúde e com amor:
“Oiço-te, ó som longínquo mas audível”
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Custódio Montes
18.9.2026
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A Maria João regressou em forma. Ainda bem.
ResponderEliminarUm abraço
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