CANTA-ME UM FADO


Fotografia de Moira, 2026

*

CANTA-ME UM FADO

*

I

*


Canta-me um fado louco e rouco e tosco


Ao som de uma guitarra há muito gasta,


Num beco antigo e sob o brilho fosco


De uma gambiarra à porta de uma tasca

*



Canta-me um fado enquanto em ti me enrosco


Pra me esquecer do pouco que me basta,


Um que venha depois viver connosco


E seja um genuíno fado rasca!

*



Canta-me um só de quantos nunca ouvi


Que mostre o que ganhei, o que perdi


E me faça sorrir enquanto choro

*



Um que dê voz aos meus sonhos traídos


E devasse os sentidos proibidos


De quanto não vivi e que hoje ignoro

*


II


*


Não peço que me seja dedicado,


Baste que chegue até ao meus ouvidos


Em tom boémio ou triste e tão magoado


Que os acordes me soem a gemidos

*



Vá lá! Canta-me um fado sussurrado


Que seduza os meus versos mal medidos,


Que me desminta os sonhos tresloucados


E me traga de volta os já perdidos

*



Um fado nado numa velha rua


Que uma viola parisse à luz da lua,


Sem pressas nem cuidados nem parteira

*



Nascido pra amar ou pra morrer


Que me dedilhe a alma até doer


E até que dentro dele eu caiba inteira!

*


 


©Maria João Brito de Sousa


11.04.2023 - 23.40h

***




 

Comentários

  1. Está muito bem na fotografia! O próprio cenário é idílico, com a Trafaria (suponho) lá ao fundo e o rio (ou será mar?) pelo meio.

    Viola, já a Maria João tem. Agora só falta a guitarra para cantar o fado.

    Conta-se que, uma noite, o Camilo Castelo Branco foi assistir a um recital de violoncelo. No dia seguinte, alguém lhe perguntou:

    «Então, gostou do recital?»

    O Camilo respondeu:

    «Ui, foi uma maçada, sabe? Passar uma hora e meia a ver uma pessoa a serrar num violoncelo... A mim, quem me tira um fadinho bem choradinho tira-me tudo.»

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