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SONETO SEM SAÍDA

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  (Em decassílabo heróico)   Há sempre um beco escuro e sem saída Na estrada em que esta vida se percorre, Um espaço onde mais nada se descobre E aonde, finalmente, é revivida   Essa que, então, foi sendo percorrida, Mas que, em chegando ali, onde não sobre Nem sombra desse mais que nos socorre Antes de a descobrirmos, tão traída   Que mais nenhum poema nos ocorre Pois, diante de nós, tudo é tão pobre E tão dura a parcela percorrida   Que sabemos, então; “Nada é mais nobre Do que acabarmos já, sem que nos dobre Ninguém, nem coisa alguma, a própria vida”       Maria João Brito de Sousa – 20.02.2015 – 13.24h     Imagem retirada do Google        

PAPOILA

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  (Soneto em decassílabo heróico)   Julgaste-a vulnerável e dolente, Peça de ouro da lei que outro engendrou, Mas, tempr`ada desse aço que a moldou, Mostrou-se, afinal, firme e persistente,   Negando, em cada gesto prepotente Que a escória disfarçada preparou, A graça de of`recer-lhe o que sobrou Do tanto que, na cor, se afirma gente...   Se de pedra se assume, embora flor, A escopro há-de gravar seja o que for, Que a haste em que subiu sabe o que quer   E exalta-se, insubmissa, em rubra cor Pr`afirmar que, de si, só colhe amor Quem na flor respeitar fraga e mulher...     Maria João Brito de Sousa – 05.02.2015 – 14.07h      

PARTIR SEM TER SONHADO...

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(Soneto em decassílabo heróico)     Sou, apesar de bicho, um bicho humano, Diurno, persistente, ensolarado, De corpo estoicamente habituado À dor do desconforto, ao desengano,   Às coisas que me vão causando dano E às outras que me vão criando enfado, Mas comigo convivem, lado a lado, Ao longo do percurso, ano após ano...   Se o digo, é por senti-lo e, sem cuidado, Dispenso-me sondar se, sendo, agrado, Se errei por nunca ter traçado um plano,   Mas caia, ou não, tal nódoa em limpo pano, Não vos direi que estou, sem ter cá estado, Nem que daqui parti sem ter sonhado!       MariaJoão Brito de Sousa – 19.01.2015 -23.45h  

IDEIA

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IDEIA * (Soneto em decassílabo heróico) * Saboreio a conversa e, volta e meia, Cansada de pensar, sonho o porvir; Eis tudo o que me posso permitir Adicionar ao pão que como à ceia * Na selva que me invade e me rodeia, Na vastidão que o verso consentir Na força que me faça prosseguir Ao ritmo da jornada da alcateia ... * Se a voz me falha, o verso me cerceia, Se a rima desafina ou me escasseia, Desisto sem sequer tentar fingir, * Pois só pensando sinto a própria ideia E nenhum deus me verga ou me refreia A mão com que a tentei reconstruir. *   Maria JoãoBrito de Sousa – 23.12.2014 – 16.24h

JANELAS

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  (Soneto em decassílabo heróico)   Ressoam mil palavras que iluminam Silêncios das janelas apagadas Que vão mostrando, ainda que caladas, O tanto que as vidraças nos ensinam E, sempre que as janelas nos dominam, Ficam, dentro de nós, perpetuadas, Palavras – tantas mil! - das que, adiadas, Não puderam ser ditas, mas fascinam Como coisas antigas, revividas, Que, assim que vislumbradas, decididas, Repetem, sem falhar; - Nós ficaremos! Janelas, quais palavras repetidas, Que doem, mas jamais serão traídas, Abertas sobre quem não mais veremos...   Maria João Brito de Sousa – 15.11.2014 – 23.22h       Ao meu camarada e amigo Zé Casanova. Até sempre, Zé!  

LARANJAS

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  (Soneto em decassílabo heróico)     Venho trazer-te oitavas de laranja, Dizer-te boa noite e bom descanso, Desejar-te, sincera, um sono manso Enquanto aqui vou estando a pão e canja...   Hoje venho deixar-te o verbo em franja Na fronte de um poema onde eu balanço E oferecer-te, nisto, o mais que alcanço, Porque além deste “mais”, nada se arranja...   Para ti escrevo agora, só sentindo, Adivinhando, quase, ou permitindo A mutação do gesto em sombra alada   Que faço esvoaçar, reconstruindo Palavras que disseste e fui fruindo Até darem laranjas, camarada...     Maria João Brito de Sousa – 05.11.2014- 21.39h

SÓ PARA NÃO DEIXAR QUE AS RIMAS GANHEM PÓ...

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(Soneto em decassílabo heróico)     Se assim escrevo, será por não saber Viver de outra maneira e ser quem sou Ou dar de forma estranha à que me dou E ser de alheia forma ao que sei ser     E se isto, amigos meus, não for escrever, Não saberá escrever quem me ensinou, Nem saberei dizer quem me enganou Quando tanto deixou por aprender,     Mas se triste me sinto ou triste estou, Já vos não sei dizer quem me afastou Desta força de, sendo, me dizer,     Nem se, acaso, houve alguém que se lembrou De lembrar-me de quanto me negou E, depois, se esqueceu de me esquecer.         MariaJoão Brito de Sousa – 22.10.2014 – 16.44h