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SONETO À RESISTÊNCIA

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  (Em decassílabo heróico)   Neste meu lugre-escuna – ou só jangada? - Vou resistindo enquanto vou podendo E venho-vos dizer que me não vendo Porque por preço algum serei comprada,     Nem minha embarcação será tomada, Pois, enquanto viver, nunca me rendo E o verso é sempre a força a que me prendo Enquanto dela sobre um quase nada...     Venho falar-vos desta força imensa, Que tremeluz, que tanto mais se adensa, Quanto mais vai tentando persistir,     Que me flui no sentir, porque se pensa, Que mesmo naufragada, exausta e tensa, Retoma a luta e faz por resistir!       Maria João Brito de Sousa – 09.04.2015 – 14.11h  

SONETO DO MAL MENOR

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  (Em decassílabo heróico)   Dá-me o ramo das rosas perdulárias comprado na florista já esquecida, armado no “bouquet” morto e sem vida das almas condenadas, solitárias... Dá-me uma – mais serão desnecessárias...- no ramo em que a chorei, porque, à partida, lhe condeno a razão de ser colhida, deixando, na raiz, funções tão várias, Juro que não protesto... e mais não digo! Hoje perco a raiz, enfrento o p`rigo e estou pronta a render-me sem chorar, Se o derradeiro golpe, esse inimigo que me arranca do mundo em que me abrigo, me degolar, de vez, sem me magoar.   Maria João Brito de Sousa – 26.03.2015- 15.08h  

GEADA NEGRA

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    (Soneto em verso hendecassilábico)   Perdoai-me agora porque mais não posso, Estou já pele e osso, quanto a poesia, Do carnudo fruto que antes produzia, Mal vejo o de outrora pequeno caroço,   Qual mero vestígio, qual simples destroço Do que então criava, do que então escrevia, Mesmo, em chão negado pela carestia, Sendo um vago esquiço, sendo um mero esboço.   Vibram já machados sobre essa haste nua, Sem um sol que a aqueça, sem que a esconda a lua, Pois desta colheita contra-producente,   Sem mais flor que a anime, fruto que a alimente, Fica só memória... quem sabe, a semente De outra humana história que a tomar por sua?     Maria João Brito de Sousa – 10.03.2015 -16.21h   Nota – O meu primeiríssimo soneto em verso hendecassilábico.    

SONETO SEM SAÍDA

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  (Em decassílabo heróico)   Há sempre um beco escuro e sem saída Na estrada em que esta vida se percorre, Um espaço onde mais nada se descobre E aonde, finalmente, é revivida   Essa que, então, foi sendo percorrida, Mas que, em chegando ali, onde não sobre Nem sombra desse mais que nos socorre Antes de a descobrirmos, tão traída   Que mais nenhum poema nos ocorre Pois, diante de nós, tudo é tão pobre E tão dura a parcela percorrida   Que sabemos, então; “Nada é mais nobre Do que acabarmos já, sem que nos dobre Ninguém, nem coisa alguma, a própria vida”       Maria João Brito de Sousa – 20.02.2015 – 13.24h     Imagem retirada do Google        

PAPOILA

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  (Soneto em decassílabo heróico)   Julgaste-a vulnerável e dolente, Peça de ouro da lei que outro engendrou, Mas, tempr`ada desse aço que a moldou, Mostrou-se, afinal, firme e persistente,   Negando, em cada gesto prepotente Que a escória disfarçada preparou, A graça de of`recer-lhe o que sobrou Do tanto que, na cor, se afirma gente...   Se de pedra se assume, embora flor, A escopro há-de gravar seja o que for, Que a haste em que subiu sabe o que quer   E exalta-se, insubmissa, em rubra cor Pr`afirmar que, de si, só colhe amor Quem na flor respeitar fraga e mulher...     Maria João Brito de Sousa – 05.02.2015 – 14.07h      

PARTIR SEM TER SONHADO...

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(Soneto em decassílabo heróico)     Sou, apesar de bicho, um bicho humano, Diurno, persistente, ensolarado, De corpo estoicamente habituado À dor do desconforto, ao desengano,   Às coisas que me vão causando dano E às outras que me vão criando enfado, Mas comigo convivem, lado a lado, Ao longo do percurso, ano após ano...   Se o digo, é por senti-lo e, sem cuidado, Dispenso-me sondar se, sendo, agrado, Se errei por nunca ter traçado um plano,   Mas caia, ou não, tal nódoa em limpo pano, Não vos direi que estou, sem ter cá estado, Nem que daqui parti sem ter sonhado!       MariaJoão Brito de Sousa – 19.01.2015 -23.45h  

IDEIA

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IDEIA * (Soneto em decassílabo heróico) * Saboreio a conversa e, volta e meia, Cansada de pensar, sonho o porvir; Eis tudo o que me posso permitir Adicionar ao pão que como à ceia * Na selva que me invade e me rodeia, Na vastidão que o verso consentir Na força que me faça prosseguir Ao ritmo da jornada da alcateia ... * Se a voz me falha, o verso me cerceia, Se a rima desafina ou me escasseia, Desisto sem sequer tentar fingir, * Pois só pensando sinto a própria ideia E nenhum deus me verga ou me refreia A mão com que a tentei reconstruir. *   Maria JoãoBrito de Sousa – 23.12.2014 – 16.24h