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FÓRMULA

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    (Soneto em decassílabo heróico) E anima-se a matéria criativa até ao ponto exacto e necessário para que nasça, enfim, matéria viva do que, antes, parecera o seu contrário E cresce, a cada dia mais activa, não pára de fluir de modo vário na direcção daquilo que a motiva pr`a desaguar, por fim, no seu estuário... Digo, porém, que não será cativa da força de algum ponto estatutário, nem verga à reprimenda punitiva, Porque é pertença do mais rico erário duma Arca que flutua e que anda à d`riva no rio do nosso humano imaginário. Maria João Brito de Sousa - 29.08.2015 - 17.56h NOTA - Esta Fórmula, ou como lhe entendam chamar, aplica-se às línguas - todas elas! -, mas não só...        

ROSA DE HIROSHIMA

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  (Soneto em decassílabo heróico) Obscenamente bela, a flor letal que abrasara a cidade de Hiroshima, rasga o céu sobre um eixo vertical ao plano destroçado onde se anima E vibra e desabrocha e colossal se expande numa rosa que assassina, derruba, carboniza e, por igual, colhe a vida do velho e da menina... Mas morre-me a palavra à flor dos dedos que mais vos não dirão, mudos de espanto, teimando em não falar dos seus segredos, Depois de vislumbrado o frágil manto com que o tempo velara antigos medos Pr`a todo o sempre, espero... ou por enquanto? Maria João Brito de Sousa – 06.08.2015 – 22.56h

JULGAMENTO(S)

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   (Soneto em decassílabo heróico)   … e quando mais não pode e só comeu, de véspera, o pão duro, amanhecido, das sobras que outro alguém lhe ofereceu apesar de o não ter, sequer, pedido,   E quando toda a esp`rança já perdeu porque lhe foi negado o seu sentido e apenas sobra a cinza do que ardeu depois de com seu esforço o ter erguido,   E quando o próprio sonho já esqueceu, sem ter vaga noção de o ter esquecido, nem longínqua memória do que ergueu,   Então, porque o apontas, convencido de podê-lo julgar num gesto teu, se condenado foi, quando traído?     Maria João Brito de Sousa – 22.07.2015 – 12.55h   Imagem - "Os Retirantes", Portinari

UMA FROTA DE ILUSÕES

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      (Soneto em decassílabo heróico) Da frota de ilusões, destaco, ao fundo, bojuda vela em barca pequenina, rumando à colisão, rasgando o mundo, a silhueta frágil da menina Que, num primeiro olhar, quase confundo com tantas que encontrei de esquina em esquina e de cujas memórias quase inundo o verbo que me embala e me fascina... Tão firme, a vasta frota de ilusões! Avança devagar, mas sempre avança num mar que não lhe aponta obrigações, Senão a que lhe cumpre; ser criança e transportar, na barca, as vocações escondidas em porões que nunca alcança.   Maria João Brito de Sousa – 27.07.2015 – 16.25h  

CONVOCATÓRIA (Adiando tanto quanto puder)

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(Soneto em decassílabo heróico)   Convoco-te, poema, em cada verso, em cada estrofe enquanto não tecida, em cada afirmação, no seu reverso, no sopro que conduz do verbo à vida,   E sempre que comigo, em mim disperso, te encontro e vou moldando já rendida, perder-te-ei depois, depressa imerso num mar cuja maré me traz perdida,   Mas essa sensação de, em tempo adverso, estar presa, acorrentada e sem saída num beco já distante e bem diverso,   Quando olhada de frente, foi vencida no desdobrar final deste universo que em versos multiplico, dividida...     Maria João Brito de Sousa – 20.07.2015 – 14.34h

DEMOCRACIA(S)

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    DEMOCRACIA(S) * Que capa ostentas tu, Democracia? Conforme à “barricada” lhe convém, assim te vais vestindo de ousadia, ou de odalisca presa em pleno harém * Pois se, acaso, te abraça a tirania, a capa desbotada é que irá bem com essa com que a astuta oligarquia disfarça a escravatura em que te tem * Mas, sendo uma questão de perspectiva, dizer que és mesmo tu, vendo-te assim, louvada por alguns, quando cativa, * Não sei, Democracia, se és, pr`a mim, mero reflexo de outra que vi viva, vestida de vermelho e... livre, enfim! * Maria João Brito de Sousa, 16.07.2015 – 15.04h    

UM SONETO A SANCHO PANÇA

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  UM SONETO A SANCHO PANÇA * Foge-me o pensamento do soneto, salivo e penso em pão. É mesmo assim, pois quando a fome aperta não prometo pugnar pelo soneto até ao fim *   Embora seja um crime o que cometo se o frémito ao passar me toca a mim e, por me achar famélica, o remeto pra depois de uma sopa e de um pudim... *   São as coisas mesquinhas que o esqueleto impõe a todos nós, neste ínterim da crise que nos faz ver tudo a preto *   Absurdo, amigos meus, seria, enfim, esquecer que o corpo cede ao que é concreto e troca, por um pão, Musa e espadim. *   Maria João Brito de Sousa 23.06.2015 – 15.01h *** (Do meu baú das finíssimas ironias)