Mensagens

DE ARMAS E BAGAGENS

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 DE ARMAS E BAGAGENS *   Pr`aqui me mudo de armas e bagagens; Quinhentos anos de caminho errado Perfazem-me o tristíssimo legado Do quase nada achado entre miragens. *   Aqui, solto o meu verso, esculpo imagens, Dignifico o soneto harmonizado E, em mim, descubro o barco naufragado Que, do naufrágio, tirou mil vantagens; *   Grávidos, os porões, de mil mensagens, Descubro-lhes, por fim, o cadeado E a Chave bem complexa nas clivagens *   Dos dentes. Tudo fora conservado Pelo sal, apesar das duras viagens Que esta tola enfrentou no seu passado. *   Maria João Brito de Sousa - 27.07.2020 - 14.23h          

URGÊNCIAS DO DIA A DIA

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URGÊNCIAS DO DIA A DIA *     No varandim de uns olhos imprestáveis Debruça-se a razão que, em desespero, Tenta dar conta de tudo o que eu quero E só vislumbra vultos sempre instáveis, *   Sombras indefinidas, improváveis, Rastos já desgastados pelo esmero Com que os gastei. Até ao fim, severo, O anseio de torná-los decifráveis *   E, nublando a alegria natural, Emerge a nitidez de uma impotência Que faz doer bem mais que o próprio mal. *   Depois... depois dilui-se essa emergência Na criatividade pontual E prontamente acudo à nova urgência. *   Maria João Brito de Sousa - 26.07.2020 -10.37h   Imagem retirada  daqui

SE O CHICOTE DO RAIO ME ILUMINA

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SE O CHICOTE DO RAIO ME ILUMINA * Se hoje escrevo com força de trovão E o chicote do raio me ilumina, São as minhas memórias de menina Que, debruçadas no meu coração, *   Me acendem, das razões que há na razão, A improvável vela que, à bolina, Singra agora, indomável peregrina Dos ventos fortes, rumo ao furacão. *   Lembras-te, avô poeta, desses dias De fortes chuvas e de ventanias Que saudávamos sempre fascinados? *   Das vergastas de luz que ribombavam, Colorindo as rajadas que sopravam E os nossos rostos, mudos, assombrados? * © Maria João Brito de Sousa - Julho, 2020 (no dia a seguir à grande trovoada de Verão)   Imagem, avó Alice, avô poeta e eu, na casa da Rua Luís de Camões, Algés

PEÇO DESCULPA; NEM UM VERSO OUVI...

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PEÇO DESCULPA, NEM UM VERSO OUVI... *     Houvesse, hoje, um versito distraído Que por aqui passasse por acaso E que algo murmurasse ao meu ouvido, Pra poder-vos dar conta deste atraso... *   Fosse de pé quebrado ou mal medido, Quase a desvanecer-se num ocaso, Gago que fosse ou tão mal construído Que em tudo semelhasse ângulo raso, *   Que quisesse ser recto e não se erguesse Um grauzito sequer que graça desse A quem o visse ou lesse, por aí... *   Mas este que encontrei sem voz, nem dono, Tudo quanto fará é dar-vos sono; Peço desculpa. Nem um verso ouvi. *     Maria João Brito de Sousa - 24.07.2020 - 14.30h

AOS FUTUROS ENCANTADOS

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AOS FUTUROS ENCANTADOS *   Aos encantados que um dia me cantem; Mais tarde, assim que o tempo acenda a hora De cantar quem partiu, quem foi embora, Que sejais vós os que em versos me espantem. *   Agora, aguardo apenas que levantem A cortina de ferro da demora Para encantar-me toda, como outrora, Nas sementes dos versos que outros plantem. *   No espaço deste tempo em que me sei, Vou conservando em molho de luar As sementes dos versos que plantei, *   Rebentos qu`inda estão por rebentar Na memória do verbo em que me dei A vós, os encantados por chegar. *     Maria João Brito de Sousa - 21.07.2020 - 12.34h

CONFINAMENTOS

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  CONFINAMENTOS *   Não fosse eu ter a prática que tenho Em cativeiros e confinamentos E ficaria seca como um lenho, Em vez de abrir-me em versos suculentos... *   Enfrentemos, amigo, o tempo estranho Ainda que espantados, sonolentos, Recordemos em vão tempos de antanho Enquanto os dias, cada vez mais lentos, *   Parecem ser, de Tântalo, a tortura E se guarda o abraço e a ternura No baú velho das coisas vividas; *   Não roda a chave nesta fechadura, Mas há-de haver alguém qu`inda a procura; Que se ache antes do fim das nossas vidas! *   Maria João Brito de Sousa - 22.07.2020 - 14.18h     Ao poeta amigo José Primaz

A VELA AROMÁTICA

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A VELA AROMÁTICA *   Da Madona Sistina à minha sala, De Rafael até à poesia Vêm os anjos de que faço gala Mostrar-lhe nesta vela que alumia * E que um perfume delicado exala Deixando a sala inteira em harmonia Com a alegria desta que a não cala Quando em soneto expressa essa alegria. * Ei-la aqui, luminosa e rescendente Enquanto cada anjinho, paciente, Nos olhos guarda décadas sem fim. * Por esse olhar os séculos passaram E nem por um segundo dormitaram Os anjos das asinhas de cetim. *     Maria João Brito de Sousa - 21.07.2020 - 23.48 À Janita