DIALOGANDO COM DAVID MOURÃO FERREIRA

The colours of Nature (página).jpg


 


E POR VEZES


 


 


E por vezes as noites duram meses 
E por vezes os meses oceanos 
E por vezes os braços que apertamos 
nunca mais são os mesmos    E por vezes 

encontramos de nós em poucos meses 
o que a noite nos fez em muitos anos 
E por vezes fingimos que lembramos 
E por vezes lembramos que por vezes 

ao tomarmos o gosto aos oceanos 
só o sarro das noites não dos meses 
lá no fundo dos copos encontramos 

E por vezes sorrimos ou choramos 
E por vezes por vezes ah por vezes 
num segundo se evolam tantos anos 




David Mourão-Ferreira, in 'Matura Idade'


 


 


PORÉM...


 


 


Noutras vezes, porém, os dias voam


E as noites são parcelas de segundos


No ciclo biológico dos mundos


Que aos sonhos dos humanos não perdoam


 


 


E, passando a voar, nos atordoam


O estremunhado sono em espasmos fundos,


A nós que aqui provamos ser fecundos


Na esp`rança de que uns deuses se condoam...


 


 


 


Passageiros da vida, é no naufrágio


Que temos cais seguro e prometido,


Votado e assegurado por sufrágio


 


 


Da própria natureza que nos gera...


(pois não! Não nos foi nunca garantido


mais tempo do que o tempo desta espera)


 


 


 


Maria João Brito de Sousa - 24.11.2016 - 14.36h


 


 


 

Comentários

  1. É o meu soneto preferido do David Mourão Ferreira, é dos meus poetas preferidos. E este seu soneto é um dos melhores, amiga. Adorei.

    abraço

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    Respostas
    1. Muito obrigada, António!
      O David Mourão Ferreira foi um dos muitos poetas que frequentaram a nossa casa de Algés, mas perdi-lhe o contacto a meio da década de sessenta...

      Forte abraço!

      Eliminar
  2. Adoro este porém e também o poema do David. Beijinhos e uma festinha demorada na Mistral.

    ResponderEliminar

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