GLOSANDO FRANCISCO RODRIGUES LOBO

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FERMOSO TEJO MEU...


 


 


Fermoso Tejo meu, quão diferente


te vejo e vi, me vês agora e viste:


turvo te vejo a ti, tu a mim triste,


claro te vi eu já, tu a mim contente.


 


A ti foi-te trocando a grossa enchente


a quem teu largo campo não resiste;


a mim trocou-me a vista, em que consiste


o meu viver contente ou descontente.


 


Já que somos no mal participantes,


sejamo-lo no bem. Ó quem me dera


que fôramos em tudo semelhantes!


 


Mas lá virá a fresca primavera:


tu tornarás a ser quem eras d'antes,


eu não sei se serei quem d'antes era.


 


 


Francisco Rodrigues Lobo - 1580/1622


 


 


(Apud Carolina Michaëlis de Vasconcellos, "As Cem


Melhores Poesias Líricas da Língua Portuguesa"—


Londres, 1910).


Nota - Soneto e dados bibliográficos retirados do blogue "O Secular Soneto"


 


 


 


 


ROUBANDO UM BEIJO AO TEJO


 



"Fermoso Tejo meu, quão diferente"


me pareces do rio que outrora amei;


vejo-te tão distante que nem sei


se deste estranho amor ficaste ausente...


 


"A ti foi-te trocando a grossa enchente",


a mim foi-me moldando o mar que ousei,


o sonho feito barca em que embarquei


e a minha rebeldia impenitente...


 


"Já que somos no mal participantes"


e havendo um mesmo mar à nossa espera,


saibamos, tu e eu, ser bons amantes...


 


 


"Mas lá virá a fresca primavera :"


tornar-te-ás mais brando, eu, mais severa,


e um beijo não nos rouba mais que instantes...


 


 


 


Maria João Brito de Sousa - 29.01.2017 - 11.08h


 

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