OFÍCIO(S) I e II - Em verso operário

Tarsila-do-Amaral-no-MOMA-em-Nova-York-131.jpg


OFÍCIO(S)
*


Os meus frágeis castelos de papel


Não são mais opulentos que choupanas


Urdidas a tracinhos de pincel


Sobre a nudez de superfícies planas


*


Outros serão gravados a cinzel


Somam-se em letras não menos humanas,


Por vezes numa pressa, num tropel,


Ao longo de horas, dias e semanas...
*


Sou operária das coisas diminutas,


Guerreira desarmada de outras lutas,


Agricultora de estros e cultura
*


Que ora plantando ora colhendo as frutas


Julga contar-se entre as mais resolutas


Das teimosas cultoras da ternura.
*


Maria João Brito de Sousa - 07.07.2020 - 11.47h


 


***


 


OFÍCIO(S) II
*


(Soneto em verso operário)
*


Proponho-me um poema de madeira


De linhas ergonómicas, tão estável


Como uma mesa ou como uma cadeira


Que seja muito sóbria e confortável


*


Se não sei trabalhar senão inteira


E o corpo está num estado deplorável


Mudo os versos em tábuas e à canseira


Transformo-a em qualquer coisa de palpável
*


Que pouco a pouco vai ganhando forma


E em breve este poema escapa à norma


Passando a ser objecto utilitário
*


Se não fossem as rendas com que adorna


A lucidez de cada tarde morna


Teria sido escrito em verso operário.
*


 



Maria João Brito de Sousa - 10.07.2020 - 10.45h
*
IMAGEM - Tela de Tarsila do Amaral


 

Comentários

  1. Brancas nuvens negras11 de julho de 2020 às 11:25

    E o que eu gosto do seu versejar. Obrigado.

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    Respostas
    1. Sou eu quem agradece a leitura bem como o facto de me fazer saber que gostou, L.

      Abraço

      Eliminar
  2. Se não soubesse, de ti
    o que sei
    diria de ti o que sempre direi
    isto
    bem podia ser um hino

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Ah, mas tu sabes de mim, Rogério... recordo-me vagamente de que até me viste "renascer" numa madrugada qualquer, penso que ainda na UNICOR do HSC

      Abraço

      Eliminar

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