VISÃO

concentração.jpg


VISÃO
*


 


Resvala-me uma mão, fruto impotente


De um segundo de amarga lucidez


Que me corta a palavra omnipresente


Sem dar-me o benefício de um talvez


*


Resvala-me outra mão, mesmo à tangente


Do verso que empunhara dessa vez,


E não há olhos que lhe façam frente


Nem há tamanho para o que desfez...
*


Noutro segundo, o gesto recomeça


Tomando rumo inverso. Ergue-se a mão.


Pode ser que o poema prevaleça
*


Apesar de inseguro... ou talvez não


Seja a visão a chave desta peça


Que exige muito mais do que visão.
*


 



Maria João Brito de Sousa - 29.07.2020- 12.05h


 


 


 


 


 


 


 

Comentários

  1. Brancas nuvens negras29 de julho de 2020 às 12:49

    Com mais ou menos visão as mãos continuam a criar.
    Bom Dia
    L

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    1. As mãos, ainda que literalmente possam tombar de cansaço, resistem, L.

      Obrigada e um abraço

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  2. Maria Elvira Carvalho29 de julho de 2020 às 13:44

    A poeta que habita a sua alma, vive inspirada, mesmo quando a visão falta, não falta a inspiração.
    Abraço e saúde

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  3. Um belo momento de poesia
    que me faz ler e reler tã belo soneto
    beijinhos Poeta!

    :)

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  4. O anterior coment é meu
    esqueci de assinar
    desculpe
    Piedade Sol
    http://olharemtonsdemaresia.blogspot.com/

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    Respostas
    1. Desculpe-me Piedade, confundi-a com um pontual visitante que se descobriu anónimo e gostou...

      Beijinho

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  5. Até de olhos fechados a poesia da Maria João projecta uma Luz imensamente luzidia e bela.

    Beijinhos.

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  6. Eis que as palavras
    são ultrapassadas
    pelo sentido profundo
    que transportam

    Muito belo, isto!

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Obrigada, Rogério!

      No meu humílimo entendimento, foi este um dos grandes legados do Modernismo, a capacidade de as palavras serem ultrapassadas pelo sentido profundo que transportam, abrindo as portas para uma interactividade entre o poema e o seu leitor.

      Muitos criticam o soneto pela sua "ultrapassada" literalidade... como podes ver, o soneto pode não ser mesmo nada literal e, ainda assim, ser perfeitamente decifrável... basta lê-lo com o mesmo olhar atento com que o leste.

      Abraço

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  7. A força das palavras em mais um excelente soneto, que ultrapassa as dificuldades da visão.
    Beijinho grande, amiga

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    Respostas
    1. ... eu bem vou tentando que ultrapasse, mas... cada vez me custa mais ver manchas desfocadas em vez de letras...

      Beijinho grande

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