DIZEM QUE MORREU...

lingua-portuguesa-277x190.jpg


 


*


DIZEM QUE MORREU
*



Usado, adulterado, gasto e morto


Está o velho soneto. Dizem, dizem...


Outras mãos haverá que o enraízem


Que as minhas, hoje, pedem-me o conforto
*


 


De uma tarde serena. Olhar absorto,


Peço às horas que passem, que deslizem,


Que, em fraçcões de segundo, mimetizem


A paz da barca que chega a bom porto.
*


 


Desse instante de paz nasce-me um verso


(sei lá quantos segundos já lá vão)


E agora o que ambiciono é o inverso
*


 


Da paz que fui buscar à reflexão:


Parem, mentiras, de embalar meu berço,


Que o soneto está vivo e forte e são!


*


 


 


Maria João Brito de Sousa 


09.10.2020 - 12.10h


***

Comentários

  1. O soneto ainda está na moda e recomenda-se...
    E o seu é excelente, gostei imenso.
    Bom fim de semana, querida amiga Maria João.
    Beijo.

    ResponderEliminar
  2. Brancas nuvens negras9 de outubro de 2020 às 17:40

    Há coisas que não morrem, essa tem sido a sua obra, não deixar morrer o soneto.
    Boa Tarde.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Muito obrigada, L.

      Felizmente não estou sozinha nessa odisseia, mas reconheço que ao soneto tenho dedicado os últimos treze anos da minha vida.

      Abraço

      Eliminar
  3. Concordo inteiramente que o Soneto é das formas mais interessantes e bonitas de construir um Poema. Nem sempre é fácil, nem toda a gente, por demais, consegue, de modo que fique harmonioso na forma e no conteúdo. Mas lá que é agradável e embeleza a ideia ou sentimento, o conteúdo que se pretende expor, isso é um facto!
    Todavia o seu valor expressivo e estético não tira a valia de outras formas de materializar a Poesia na escrita. Não será também uma questão de sensibilidade?!
    (Dos aspetos que mais valorizo no soneto é a respetiva estruturação. Obriga a uma síntese ideativa e a uma seleção rigorosa das palavras, dos significantes e dos significados. Tudo tem de ficar em 14 versos, devidamente metrificados. É uma estética clássica, comedida.)
    Continue a "Sonetar", Se Faz Favor! Que engrandece a Poesia!

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Muito obrigada pelas suas palavras, Francisco.

      Quero deixar bem claro que gosto muitíssimo da boa poesia Modernista e Pós-modernista. Cresci entre poetas do Modernismo e foi em verso branco que me expressei durante muitas décadas.
      A defesa do soneto não é um capricho meu, acredite. Já quando eu era pequenina e ainda antes de eu nascer, o soneto foi muitíssimo discriminado. Nalguns meios literários, posso garantir-lhe que continua a ser, talvez por ser um modelo formal com 700 anos, considerado um "formato ultrapassado", embora, como é evidente, não esteja, de todo, fora de prazo; aquilo de que o soneto necessita é de quem o saiba trabalhar/criar.

      Mas é evidente que, por volta dos meus 55 anos, me apaixonei perdidamente pelo soneto, não será por puro altruísmo literário que tão completamente a ele me entrego... contudo, nesta minha odisseia também há algum altruísmo literário, sim.

      O formato é sem dúvida clássico, mas não mais do que um trecho de uma bela sinfonia, pois um bom soneto tem de nos arrebatar de corpo e alma enquanto o escrevemos. Claro que nunca sabemos se iremos, ou não, arrebatar o leitor, mas nós, que os criamos, sentimo-nos libertos, velozes e arrebatados. Alguns nascem em pouquíssimos minutos... ou talvez fossem segundos, quando eu ainda conseguia ver minimamente e não tinha de andar à procura das letras no teclado.

      Porém, de forma alguma me passa pela cabeça que o soneto, nos tempos que correm, deva ser colocado acima de todos os outros formatos poéticos; coitado dele que tão maltratado tem sido desde as primeiras décadas do século passado... tudo o que quero é que alguns meios mais intelectuais deixem de o olhar como um formato ultrapassado. Peço que o leiam sem o peso desse preconceito; quero igualdade, não supremacia.

      Mais uma vez, muito lhe agradeço e, sim, enquanto a pouca saúde mo permitir, tenciono continuar a "sonetar"

      O meu fraterno abraço poético

      Eliminar
    2. Muito Obrigado pelos seus esclarecimentos.
      "...aquilo de que o soneto necessita é de quem o saiba trabalhar/criar."
      Enquanto Poetas e Poetisas, como Maria João, "sonetarem", o Soneto não morrerá!
      Saudações amistosas e muita saúde.


      Eliminar
    3. Sou eu quem muito lhe agradece a atenção que prestou à torrente de palavras que aqui deixei, Francisco.

      Felizmente estou muitíssimo bem acompanhada nesta dura empreitada, mas... confesso que tenho sonhado com a adesão dos poetas mais jovens a esta causa, que por ser artística e cultural não deixa de ser muitíssimo importante.

      O meu fraterno abraço poético

      Eliminar
  4. Maria Elvira Carvalho9 de outubro de 2020 às 21:06

    Enquanto houver poetisas da sua craveira, o soneto está vi8vo e recomenda-se.
    Abraço, saúde e bom fim de semana

    ResponderEliminar
  5. Maria Elvira Carvalho9 de outubro de 2020 às 21:07

    vivo.
    Donde é que saiu aquele 8?
    Abraço

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Esse oito saiu da tecla que está mesmo, mesmo por cima do i. Não imagina as vezes que isso me aconteceu; ambas estamos diminuídas, em termos de acuidade visual, infelizmente.

      Eliminar
  6. Em grande
    se escreve a sabedoria
    das palavras inspiradas de cada dia

    Beijinhos e um bom fim de Semana, e bom dia com alegria MJ

    ResponderEliminar
  7. Nunca nada morre! Nem o soneto! Apenas se transforma!
    Com mais este maravilhoso Soneto, a Maria João mostra isso mesmo! No seu caso é ADN manifestado! É diálogo interior naturalmente articulado em palavras!
    Beijo por de trás das palavras!

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Ora aí está, Lena B.!

      Se o soneto, para soneto poder ser, se não pode transformar muito em termos de forma, há que dar tudo por tudo para o reengendrar em termos de conteúdo no sentido de o transportar através dos séculos! Porque o soneto nos merece esse esforço e porque há cerca de um século que anda a lutar bravamente pela sua sobrevivência, cumprindo sempre o seu dever/destino de transportar beleza e mensagens que conteúdo tenham.

      Beijinhos de dentro da palavra

      Eliminar
    2. Pelos vistos, continuamos a dizer as mesmas coisas... Estes beijinhos de dentro da palavra e por detrás das palavras fez-me rir imenso, por causa do plural das palavras que esconde o interior de cada uma... Este mundo anda cada vez mais quântico!!! E nós, pobres mortais, andamos a sobreviver em vez de descobrirmos o viver voando e integrando...
      Beijinhos de dentro - do mais interior - de cada palavra com o conteúdo possível!!!

      Eliminar
    3. Creio que tens razão, Lena B.


      Usamos transportes diferentes, mas vamos ambas por estradas que desembocam numa mesma praça

      Como te disse, sei pouco-muito-pouco-quase-nada de quântica. Meia dúzia de coisitas que aprendi com Neil deGraceTyson e que julgo ter compreendido, não me permitem caminhar por territórios que, por enquanto, só vão estando ao alcance de alguns grandes génios. Creio porém que o mundo sempre foi quântico, nós é que ainda o não sabíamos... nem sabemos ainda, para falar a verdade.

      Estando fisicamente muito limitada, só vou até onde os meus sonetos me levarem


      Beijinho de dentro da semente, de uma barca em luta contra um tufão (acabei de a deixar no HP) e de um novelo que pode bem ter o tamanho de uma vida (também no HP)

      Eliminar
  8. Há coisas que só morrem
    se as deixarmos morrer

    Que não te falte o verbo

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Obrigada, Rogério!

      Nesta e noutras lutas, não estou sozinha, felizmente.

      Forte abraço!

      Eliminar

Enviar um comentário

Mensagens populares deste blogue

UM VOO DE PARDAL - Soneto muito ligeiro, dedicado à Ligeirinha

OBRIGADA!

ESPANTO