TECENDO MEMÓRIAS

26171882_1796724863685453_3483881063062626783_o.jp


TECENDO MEMÓRIAS
*



Touquinha de renda e botinhas de lã,


Bem mais que uma irmã, vi nela uma prenda


Que sem encomenda chegara bem sã


E certa manhã se me dera em of`renda.
*


 


A quem não entenda ternura tão sã


Ou a julgue vã e a não compreenda,


Peço que suspenda a versãozinha chã


Da eterna maçã concebida pra venda;
*


 


Pode ser merenda prá minha memória,


Mas é outra a história desta tecedeira,


Velha fiandeira da causa ilusória


*


 


Que fia sem glória e de uma outra maneira


Cinzas de lareira numa trajectória


Tão contraditória quanto verdadeira.
*


 



Maria João Brito de Sousa - 02.10.2020 - 12.00h


 


IMAGEM - "Le Berceau", Berthe Morisot

Comentários

  1. Parabéns à tecelã ou tecedeira de mais um ninho poético!

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Muito obrigada, Francisco!

      Quereria ter ilustrado este soneto com uma fotografia tirada pelo meu pai na Serra de Carnaxide em que apareço ao lado da minha mãe, com a minha irmã ao colo, mas creio que se perdeu nos ficheiros do computador que deixou de funcionar; procurei-a por tudo quanto era canto e não a consegui encontrar...


      Forte abraço!

      Eliminar
  2. Brancas nuvens negras2 de outubro de 2020 às 16:22

    Admiro o poema e partilho a homenagem na compreensão da dor que também já me marcou num caso idêntico.
    Um abraço
    L

    ResponderEliminar
  3. Maria Elvira Carvalho2 de outubro de 2020 às 23:19

    Tecendo memórias em fios de saudade e dor.
    Abraço

    ResponderEliminar
    Respostas

    1. Estamos sempre à espera que os mais jovens partam depois de nós, amiga... à dor inevitável, soma-se, nestes casos, uma espécie de revolta. Não será muito racional, esta espécie de revolta, mas é humana... e foi isso que senti. É isso que ainda sinto.

      Forte abraço

      Eliminar
  4. Tecer palavras assim
    não é pra comuns

    Beijinhos e boa inspiração MJ Bom fim de Semana

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Olá, Anjo!

      Tecer palavras e ideias é próprio dos poetas. Sou poeta, Anjo. Sou poeta ainda no activo, não posso nem quero parar de tecer...

      Obrigada e beijinhos

      Eliminar
  5. Linha fina e agulha de 'crochet' resultam num trabalho milimétrico de palavras 'filigranadas' (ou será 'filigrânicas'?) onde o som silencioso das palavras torna visível através da (of)renda!
    São 27 palavras sinónimas de SEM palavras!
    Beijo transparente na renda 'crochetada'.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Olá, Lena B.

      Dos dois adjectivantes que escolheste, prefiro o "filigranadas", o "filigrânicas" não me soa tão harmonioso...

      Obrigada e um beijinho tecido em transparência

      Eliminar
  6. Magnífico soneto.
    Também gostei muito dos vários poemas que li.
    Saio daqui de alma cheia...
    Bom fim de semana, Maria João.
    Beijo.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Seja muito bem-vindo, Jaime!

      Grata pelas suas palavras, envio-lhe um abraço e retribuo os votos de um bom fim-de-semana

      Eliminar
  7. Ternura e saudade.
    Que tão bem escreve a Maria João em forma de soneto.
    Beijinhos
    Piedade Sol
    http://olharemtonsdemaresia.blogspot.com/

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Mais uma vez, obrigada, Piedade.

      O soneto foi a minha última grande paixão; há mais de treze anos que o sirvo quase ininterruptamente; mal de mim se nada tivesse amadurecido ao longo de todo este tempo.

      Outro beijinho

      Eliminar

Enviar um comentário

Mensagens populares deste blogue

UM VOO DE PARDAL - Soneto muito ligeiro, dedicado à Ligeirinha

OBRIGADA!

ESPANTO