SONETO CONTRA-NATURA

CONTRA NATURA.jpg


SONETO CONTRA-NATURA
*



Burile-se o soneto qual escultura


Mas só depois de impresso. Quando brota


Deve ser jorro em natural ruptura


Com a extrema prudência que denota.
*


Curto tamanho, pequena estatura


Tem o soneto e escolhe a própria rota


Ainda que ela o leve à sepultura


Rindo de si pra não fazer batota.
*


Mas se em tão curto espaço cabe inteiro


Nem sempre o que contém é tão ligeiro


Quanto o do que hoje trago e que desmente
*


Quanto quero dizer e só desdigo


Na pequenez do pouco que consigo


Grafar letra por letra, lentamente.
*


 


Maria João Brito de Sousa - 16.11.2020 - 13.59h

Comentários

  1. Mesmo do soneto se faz um soneto. É brilhante de criatividade.
    Um abraço
    L

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    1. Muito obrigada, L.

      Este tem o estranho nome que tem porque foi criado, não em jorro, como todo o bom soneto deve nascer, mas palavrinha a palavrinha, à velocidade de uma lesma.

      Forte abraço

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  2. Grafando letra a letra e lentamente,
    Compões o teu soneto extraordinário,
    Ditato por tu'alma, o santuário
    Onde germina a imortal semente.

    E nesse curto espaço inconsistente,
    Tu dás a dimensão de um grã-sacrário
    Com a pedra angular num campanário
    Tangente em vibrações que a alma sente

    Com a grandiosidade do que dizes,
    Tendo a semente com suas raizes
    Na alma e os sobranceiros, grandes ramos

    Nossas almas sombreiam, com matizes
    Tão multi-coloridos quão felizes
    Nós nos tornamos quando o escutamos!

    Abraço fraterno! Laerte.

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    1. Falham-me os olhos, vão falhando os braços
      E até o coração me vai falhando
      Inda que sobre as teclas vá teimando
      Em ser mais forte do que os meus cansaços.
      *
      Se galopa o soneto em seus compassos,
      Este, coitado, nem sequer trotando
      Se soube construir. Foi-se apoucando
      Na lentidão dos débeis ou madraços...
      *
      Mas lá se construiu, pese este peso
      Que o prende a tudo aquilo que eu desprezo,
      Rastejando, talvez, mas não vergado
      *

      Ao que assim o tornou fraco, indefeso;
      Arriscou tudo e, enfim, chegou ileso
      À praia onde julgou ter naufragado.
      *

      Maria João Brito de Sousa - 17.11.2020 - 13.10h
      *
      Muito OBRIGADA!
      Envio-lhe o meu sempre grato abraço, Laerte!

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    2. “À praia onde julgou ter naufragado.”
      Meu Deus, ah, que beleza sacrossanta!
      A luz desse teu verso é tanta, tanta,
      Que eu não consigo olhar a outro lado!

      Só enxergo o belo à frente; único dado
      Que a lucidez tamanha que suplanta
      Sol, diz a mente mandar à garganta
      O grito de vitória: Eureca, é achado!

      Eis que o divino, enfim, fez-se à praia!
      É o belo! É ele agora que se ensaia
      A dominar a alma do universo!

      O nauta errante e náufrago, na raia
      Da tenebrosa morte, despe a alfaia
      Para vestir-se do mais belo verso!
      Meu abraço e minha admiração estupefata - jamais vi algo tão belo - salvou-se à praia pensando estar morrendo... É demais para este aprendiz de feiticeiro! Desculpe responder aqui, mas não suportei a beleza do verso, tão instigante, Maria! Tu é divina! Não divinal, apenas... Laerte Tavares.

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    3. Exagero seu, Laerte, mas fico-lhe muito grata pela gentileza.

      Já que não tenho estado mesmo nada bem nestes últimos tempos, creio que me não levará a mal se publicar hoje, quarta-feira, uma parte desta nossa conversa em soneto num post, neste mesmo blog.

      Fraterno abraço

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  3. Muito belo o poema, com um jeitinho neoclássico.

    Beijo de boa noite.

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    Respostas
    1. Muito obrigada, Ana!

      O soneto é assim; clássico na forma, intemporal na musicalidade e uma janela aberta sobre todos os tempos, no conteúdo.

      Beijo

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  4. E com alegria
    bom dia
    que o Sol brilha
    em toda a sintonia Beijinhos

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