NOS MEUS VERSOS, NOS TEUS DEDOS...

Pai, na casa da rua Luís de Camões, Algés.jpeg


NOS MEUS VERSOS, NOS TEUS DEDOS...
*


Nas aves que se soltam dos teus dedos
E pousam nos meus versos de poeta
Sondando e desvendando os seus segredos
Na sua intimidade mais secreta,
*


Nesse seu dedilhá-los, loucos, ledos,
Quando bem me sabiam ser discreta,
Devolvem-me antiquíssimos folguedos
E, por momentos, deixam-me completa.
*


Sondam-mos verso a verso, toque a toque...
Porquê fugir-lhes quando, não fugindo,
Mais versos nascerão sem que os convoque?
*


E por que não frui-los se, fruindo,
Mais rica fico? E basta que os evoque
Pra mais e mais humana me ir sentindo.
*



Maria João Brito de Sousa - Março, 2016
*
In A CEIA DO POETA - (inédito)


*


 


Imagem - O meu pai, no seu escritório da casa de Algés,


fotografado pela minha mãe. 1950

Comentários

  1. Lindíssimo de ler. Direi mesmo que BRILHANTE forme de escrever poesia.
    .
    Abraço poético
    .

    .

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  2. Brancas nuvens negras28 de maio de 2021 às 15:05

    Um belo poema de homenagem e admiração. A própria foto é um acto poético.
    Um abraço
    L

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. OBRIGADA, L. :)

      TAMBÉM EU GOSTO MUITÍSSIMO DESTA FOTOGRAFIA DO MEU PAI :)

      FORTE ABRAÇO

      Eliminar
  3. Imagens poéticas lindíssimas!
    Muita saúde.

    ResponderEliminar
  4. "E por que não frui-los se, fruindo,
    Mais rica fico? E basta que os evoque
    Pra mais e mais humana me ir sentindo."

    Bela receita
    Te fruindo
    mais rico
    e humano
    me sinto

    ResponderEliminar
  5. Que lindo, Maria João!
    A foto, e o poema de homenagem ao seu pai. Sem dúvida, uma presença constante na sua vida e na sua poesia.

    Estive um pouco ausente, de vez em quando "recolho às boxes"
    Espero que a amiga esteja melhor da garganta e que a medicação já esteja a fazer algum efeito.

    Grande beijinho, feliz sábado!

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Obrigada, Blue Bird

      O meu pai era um fabuloso fotógrafo amador e desenhava extraordinariamente bem, mas era francamente medíocre enquanto poeta. O grande, grande poeta era o pai dele, o meu avô...

      No entanto, sempre que edito uma foto do meu pai, sinto-o mais presente e vivo em mim. Curiosamente esta é uma fotografia do meu jovem pai tirada pela minha jovem mãe um pouco antes de eu nascer...

      Ainda hoje me pergunto por que razão o meu pai abandonou completamente os seus desenhos a carvão; ainda tenho alguns guardados cá em casa e garanto que o traço dele faz lembrar Ingres...

      Quando fui pressionada pela dura realidade da sobrevivência, também eu abandonei os meus desenhos e pinturas, mas retomei-os assim que tomei consciência de que me estava a abandonar a mim mesma... Agora não pinto porque não tenho força física para os meus fortes traços a pastel de óleo, mas escrevo sempre que não estou em fase de pousio.

      Beijinho grande

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