INTERSTÍCIO - Custódio Montes e Maria João Brito de Sousa

INTERSTICIO.jpg


INTERSTÍCIO
*


Coroa de Sonetos
*


Custódio Montes e Maria João Brito de Sousa
*


1.
*


Vejo ao longe uma nesga de terreno


A cor lilás aguça-me a visão


Depois mais curioso vejo então,


Com gosto, uma andorinha em voo ameno
*



Da frincha vê-se o mundo mais pequeno


Ao abrir a janela, a vastidão


Alarga-nos o campo em extensão


Ficando-se melhor e bem mais pleno
*



Às vezes o que vemos não é nada


Olhado com a vista encerrada


E temos que ir à busca do bulício
*



A vida vem de fora que fechada


A nossa condição é limitada


À pouca luz que dá o interstício
*



Custódio Montes


21.6.2021
***


2.
*


"À pouca luz que dá o insterstício"


Posso somar a luz de quanto escrevo...


A essa luz do interstício o devo


Bem como ao que alguns julgam desperdício
*



Mas neste longo dia de solstício


Durante o qual inteira me sublevo


Qual vermelha papoila ou verde trevo,


Lanço mãos ao poema; o meu ofício!
*



De dentro para fora, uma insurgência


Teima em poder bem mais que esta impotência


E o verso rasga a névoa que o prendia.
*



Pode o que faço chamar-se imprudência,


Mas eu tenho a perfeita consciência


De que ele há-de chegar aonde qu`ria.
*



Maria João Brito de Sousa - 21-06.2021 - 18.06h
***


3.
*


“De que ele há-de chegar aonde qu’ria”


E eu cheguei aqui vindo de fora


E mal abri a porta, nessa hora


Vi que uma poetisa respondia
*



E o que eu vi ao longe pelo dia


Depois de ter saído e ir embora


Não é melhor nem tão consoladora


Como a resposta à minha poesia
*



Interstício sim mas de beleza


Fechados, mas abertos à grandeza


Que o nome deu lugar a este tema
*



Inteiro, generoso, emalhetado


Bem composto, florido, enramalhado


Com abertura à luz e ao poema
*



Custódio Montes


21.6.2021
***


4.
*
"Com abertura à luz e ao poema"


Estaremos ambos... e constamente!


Mal um começa, o outro segue em frente,


Qualquer que seja o metro, o mote, o tema...
*



Interstícios, pra nós, não são problema


E embora a minha mão esteja dormente,


Escrevendo letra a letra, lentamente,


Facilmente resolvo esse dilema.
*



Meu único senão vem deste sono


Que vem colar-se a mim qual cão sem dono


E me embriaga dos pés à cabeça...
*



Amanhã voltarei fresca e desperta


Pra sondar o poema, à descoberta


Do verso em que ele acaba e recomeça.
*


 


Maria João Brito de Sousa - 21.06.2021- 23.10h
***


5.
*


“Do verso em que ele acaba e recomeça”


E ri e chora e acaba em festa rija


Até que novo verso aqui alija


E vai enchendo a taça peça a peça
*



E antes que descanse e se despeça


E para fora vá e se dirija


Sem nada que o force ou lho exija


Retoma o tema sempre mais depressa
*



Em luta até ao fim sem armistício


De noite e dia à luz do interstício


Bem lindo e enrendilhado como a flor
*



Trabalho imaginado em solidão


Que prende a nossa alma e coração


E mostra à luz do dia esse labor
*


Custódio Montes


22.6.2021
***
6.
*


"E mostra à luz do dia esse labor"


A ponto-cruz bordado sobre linho


Com a ternura de quem faz um ninho,


Com a entrega de quem faz amor...
*



Muda-se o ponto em ponto pé-de-flor


E prossegue o trabalho o seu caminho;


Cresce o bordado e sente-se o carinho


Que traz nas suas mãos o bordador.
*



Vem, ora, a bordadeira pra rendê-lo


E ao ver como o bordado cresceu belo,


Hesita em dar o seu primeiro passo,
*



Mas recomeça. É este o seu ofício!


Tacteia, cuidadosa, o orifício


Da imaginária agulha de um abraço...
*


 


Maria João Brito de Sousa - 22.06.2021 - 09.58h
***


7.
*



“Da imaginária agulha de um abraço…”


Que ao longe o interstício deixa ver


Imaginado ao pé está-se em crer


Que muito diminui o largo espaço
*



E esta perspectiva que aqui traço


Demonstra que a palavra ao escrever


Um conteúdo amigo há-de ter


E é por isso mesmo que eu o faço
*



Cumprimentar de abraço apertado


É bom, mesmo que seja imaginado


Andando o corpo ao longe em levidade
*


A alma engrandece e ao sentir


O terno abraço a dar e ao surgir


Encontra nele o laço da amizade



Custódio Montes


22.6.2021
***
8.
*


"Encontra nele o laço da amizade"


Que laçada a laçada se constrói;


Quando a distância é tanta que nos dói,


Assim se reinventa a saciedade
*



E é o verso uma pomba que se evade


De uma dura prisão que só o foi


Enquanto este "bichinho" que nos rói


Não descobriu que estava em liberdade...
*



Julgou nunca alcançar esse interstício,


Temeu, talvez, cair num precipício


Se ousasse ultrapassar a estreita fresta,
*



Mas depressa aprendeu que sem tentar


Não saberia, nunca, o que é voar


Nas asas de um poema todo em festa...
*



Maria João Brito de Sousa - 22.06.2021 - 12.21h
***
9.
*


“Nas asas de um poema todo em festa...”


Rodeado das flores dum jardim


São pétalas a abrir até ao fim


De rosas, cravos rubros, de giesta
*



Um lindo panorama que nos presta


Para sentir o cheiro do jasmim


Ouvir às vezes contos de Aladim


Seguindo por caminhos na floresta
*



Poema não é pobre tem riqueza


Faz homens, traz-nos sonhos, natureza


Com roupas e com trajes de ilusão
*



Fazendo-nos também imaginar


Que a vida tem beleza e faz amar


E isso tonifica o coração
*


Custódio Montes


22.6.2021
***
10.
*


" E isso tonifica o coração"


Dando sentido à vida que vivemos


Porque a partilha daquilo que temos


Faz-se com alegria e com paixão.
*



Quisera que a vindoura geração


Pudesse ver tão bem quanto nós vemos


Através de interstícios tão pequenos


Abertos sobre estoutra imensidão...
*



São, os versos, potentes telescópios


E, às vezes, são também caleidoscópios


Da nossa muito humana natureza
*



E nós, poetas e eternos meninos,


Não cremos ser os donos dos destinos,


Mas tudo vamos vendo em profundeza...
*



Maria João Brito de Sousa - 22.06.2021 - 13.56h
***


11.
*


“Mas tudo vamos vendo em profundeza”


Às vezes só as coisas ao redor


Mas quanto mais ao funda a gente for


Muito mais se conhece a redondeza
*



Descreve-se o que vemos e a beleza


Compõe o dia a dia bem melhor


Voamos como as asas dum condor


E nem se sente a dor nessa leveza
*


Apuram-se os sentidos, o gostar,


Os cheiros, os desejos, o olhar


E tudo à nossa volta é linda imagem
*



Canteiros a florir à nossa frente


Ouvimos coisas belas e a gente


Fica mais forte e cheia de coragem
*


Custódio Montes


22.6.2021.
***


12.
*


"Fica mais forte e cheia de coragem"


A gente que assim ama a poesia


Onde se juntam Ciência e Fantasia,


Que tudo aqui se cria à nossa imagem!
*



Cada poema é mais uma viagem


Até ao universo da harmonia;


A partir de um acorde, a sintonia


Dos afinados versos que interagem
*



Até que ao pôr-do-sol o sono chegue


E o verso disperse e se me negue


Num desleal conluio com Morfeu...
*



Tonta de sono, por mais que o persiga,


El` corre à minha frente e nem me liga


Quando suplico: - Volta, verso meu!
*



Maria João Brito de Sousa - 22.06.2021- 15.32h


***


13.
*


“Quando suplico: - volta, verso meu ! “


Não deixes vir a noite que não vejo


E vai-se-me a vontade e o desejo


Só penso nesse escuro como breu
*



Vem vindo a noite, não escureceu


Ainda. Eu de noite não versejo


E queria fazê-lo, tenho o ensejo


De pôr ainda mais um verso meu
*



Via pelo interstício o bastante


Era pouco mas era interessante


Eu não exijo jóias nem rubis
*



Basta-me o que descubro no além


Por essa fenda aberta que nos vem


Do verso que nos chega e faz feliz
*


Custódio Montes


22.6.2021
***


14.
*


"Do verso que nos chega e faz feliz"


Qualquer poeta, quando se aproxima


E traz atrás de si verso que rima


E outro ainda encontra que condiz
*



Com a sonoridade de raiz


Em que o poema, inteiro, se sublima


E cresce... é quase vida, o que o anima,


E a força que em si traz, quase motriz...
*


 


Sobre este inusitado crescimento


O Sol percorre inverso movimento


Descendo aos poucos sobre o mar sereno
*


 


Por trás da rua prenha de edifícios;


Com meus olhos - dois meros interstícios -


"Vejo ao longe uma nesga de terreno."
*


 



Maria João Brito de Sousa - 22.06.2021 - 19.03h
***


(Reservados os direitos de autor)


 

Comentários

  1. Dupla maravilhosa. Dois enormes poetas. Fascinante a sua brilhante forma de escrever poesia.
    Cumprimentos

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  2. Estou sem saber o que dizer...quanta criatividade e talento de mão dada!
    Assim nascem versos de um quase nada
    Que dois seres irmanados num só querer
    Conseguiram criar e me surpreender
    E nesta Coroa de Sonetos, vou embalada...
    Perdoem a ousadia da rima.

    Parabéns aos incríveis e maravilhosos Poetas.
    Um abraço a ambos, se tiverem a bondade de o aceitar.
    Obrigada.

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    Respostas
    1. FICO MUITO GRATA PELA METADE QUE ME CABE NESTE LONGO "ABRAÇO POÉTICO" , MARIA ANTONIETA

      A SUA RIMA É MUITO BEM-VINDA E FICO CONTENTE POR SABER QUE SE SENTE EMBALADA PELA TOADA DA NOSSA COROA DE SONETOS.

      ESTOU SEGURA DE QUE SE O POETA CUSTÓDIO MONTES AQUI ESTIVESSE, NÃO SÓ ACEITARIA COMO RETRIBUIRIA O SEU ABRAÇO, TAL COMO EU ACEITO E RETRIBUO

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  3. Isto sim é Versar com alma e coração

    Bom e belo dia
    bom dia com alegria
    e saúde da boa MJ, beijinhos

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. MUITO OBRIGADA, PELA PARTE QUE ME CABE, ANJO MEU

      EU E O POETA CUSTÓDIO MONTES, A CRIAR COROAS DE SONETOS, JÁ ESTAMOS TÃO BEM SINCRONIZADOS QUANTO O FRED ASTAIRE E A GINCER ROGERS, A DANÇAR

      BEIJINHOS

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