INTERSTÍCIO - Custódio Montes e Maria João Brito de Sousa

INTERSTÍCIO
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Coroa de Sonetos
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Custódio Montes e Maria João Brito de Sousa
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1.
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Vejo ao longe uma nesga de terreno
A cor lilás aguça-me a visão
Depois mais curioso vejo então,
Com gosto, uma andorinha em voo ameno
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Da frincha vê-se o mundo mais pequeno
Ao abrir a janela, a vastidão
Alarga-nos o campo em extensão
Ficando-se melhor e bem mais pleno
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Às vezes o que vemos não é nada
Olhado com a vista encerrada
E temos que ir à busca do bulício
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A vida vem de fora que fechada
A nossa condição é limitada
À pouca luz que dá o interstício
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Custódio Montes
21.6.2021
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2.
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"À pouca luz que dá o insterstício"
Posso somar a luz de quanto escrevo...
A essa luz do interstício o devo
Bem como ao que alguns julgam desperdício
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Mas neste longo dia de solstício
Durante o qual inteira me sublevo
Qual vermelha papoila ou verde trevo,
Lanço mãos ao poema; o meu ofício!
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De dentro para fora, uma insurgência
Teima em poder bem mais que esta impotência
E o verso rasga a névoa que o prendia.
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Pode o que faço chamar-se imprudência,
Mas eu tenho a perfeita consciência
De que ele há-de chegar aonde qu`ria.
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Maria João Brito de Sousa - 21-06.2021 - 18.06h
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3.
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“De que ele há-de chegar aonde qu’ria”
E eu cheguei aqui vindo de fora
E mal abri a porta, nessa hora
Vi que uma poetisa respondia
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E o que eu vi ao longe pelo dia
Depois de ter saído e ir embora
Não é melhor nem tão consoladora
Como a resposta à minha poesia
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Interstício sim mas de beleza
Fechados, mas abertos à grandeza
Que o nome deu lugar a este tema
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Inteiro, generoso, emalhetado
Bem composto, florido, enramalhado
Com abertura à luz e ao poema
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Custódio Montes
21.6.2021
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4.
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"Com abertura à luz e ao poema"
Estaremos ambos... e constamente!
Mal um começa, o outro segue em frente,
Qualquer que seja o metro, o mote, o tema...
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Interstícios, pra nós, não são problema
E embora a minha mão esteja dormente,
Escrevendo letra a letra, lentamente,
Facilmente resolvo esse dilema.
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Meu único senão vem deste sono
Que vem colar-se a mim qual cão sem dono
E me embriaga dos pés à cabeça...
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Amanhã voltarei fresca e desperta
Pra sondar o poema, à descoberta
Do verso em que ele acaba e recomeça.
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Maria João Brito de Sousa - 21.06.2021- 23.10h
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5.
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“Do verso em que ele acaba e recomeça”
E ri e chora e acaba em festa rija
Até que novo verso aqui alija
E vai enchendo a taça peça a peça
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E antes que descanse e se despeça
E para fora vá e se dirija
Sem nada que o force ou lho exija
Retoma o tema sempre mais depressa
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Em luta até ao fim sem armistício
De noite e dia à luz do interstício
Bem lindo e enrendilhado como a flor
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Trabalho imaginado em solidão
Que prende a nossa alma e coração
E mostra à luz do dia esse labor
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Custódio Montes
22.6.2021
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6.
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"E mostra à luz do dia esse labor"
A ponto-cruz bordado sobre linho
Com a ternura de quem faz um ninho,
Com a entrega de quem faz amor...
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Muda-se o ponto em ponto pé-de-flor
E prossegue o trabalho o seu caminho;
Cresce o bordado e sente-se o carinho
Que traz nas suas mãos o bordador.
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Vem, ora, a bordadeira pra rendê-lo
E ao ver como o bordado cresceu belo,
Hesita em dar o seu primeiro passo,
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Mas recomeça. É este o seu ofício!
Tacteia, cuidadosa, o orifício
Da imaginária agulha de um abraço...
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Maria João Brito de Sousa - 22.06.2021 - 09.58h
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7.
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“Da imaginária agulha de um abraço…”
Que ao longe o interstício deixa ver
Imaginado ao pé está-se em crer
Que muito diminui o largo espaço
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E esta perspectiva que aqui traço
Demonstra que a palavra ao escrever
Um conteúdo amigo há-de ter
E é por isso mesmo que eu o faço
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Cumprimentar de abraço apertado
É bom, mesmo que seja imaginado
Andando o corpo ao longe em levidade
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A alma engrandece e ao sentir
O terno abraço a dar e ao surgir
Encontra nele o laço da amizade
Custódio Montes
22.6.2021
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8.
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"Encontra nele o laço da amizade"
Que laçada a laçada se constrói;
Quando a distância é tanta que nos dói,
Assim se reinventa a saciedade
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E é o verso uma pomba que se evade
De uma dura prisão que só o foi
Enquanto este "bichinho" que nos rói
Não descobriu que estava em liberdade...
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Julgou nunca alcançar esse interstício,
Temeu, talvez, cair num precipício
Se ousasse ultrapassar a estreita fresta,
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Mas depressa aprendeu que sem tentar
Não saberia, nunca, o que é voar
Nas asas de um poema todo em festa...
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Maria João Brito de Sousa - 22.06.2021 - 12.21h
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9.
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“Nas asas de um poema todo em festa...”
Rodeado das flores dum jardim
São pétalas a abrir até ao fim
De rosas, cravos rubros, de giesta
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Um lindo panorama que nos presta
Para sentir o cheiro do jasmim
Ouvir às vezes contos de Aladim
Seguindo por caminhos na floresta
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Poema não é pobre tem riqueza
Faz homens, traz-nos sonhos, natureza
Com roupas e com trajes de ilusão
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Fazendo-nos também imaginar
Que a vida tem beleza e faz amar
E isso tonifica o coração
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Custódio Montes
22.6.2021
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10.
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" E isso tonifica o coração"
Dando sentido à vida que vivemos
Porque a partilha daquilo que temos
Faz-se com alegria e com paixão.
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Quisera que a vindoura geração
Pudesse ver tão bem quanto nós vemos
Através de interstícios tão pequenos
Abertos sobre estoutra imensidão...
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São, os versos, potentes telescópios
E, às vezes, são também caleidoscópios
Da nossa muito humana natureza
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E nós, poetas e eternos meninos,
Não cremos ser os donos dos destinos,
Mas tudo vamos vendo em profundeza...
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Maria João Brito de Sousa - 22.06.2021 - 13.56h
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11.
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“Mas tudo vamos vendo em profundeza”
Às vezes só as coisas ao redor
Mas quanto mais ao funda a gente for
Muito mais se conhece a redondeza
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Descreve-se o que vemos e a beleza
Compõe o dia a dia bem melhor
Voamos como as asas dum condor
E nem se sente a dor nessa leveza
*
Apuram-se os sentidos, o gostar,
Os cheiros, os desejos, o olhar
E tudo à nossa volta é linda imagem
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Canteiros a florir à nossa frente
Ouvimos coisas belas e a gente
Fica mais forte e cheia de coragem
*
Custódio Montes
22.6.2021.
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12.
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"Fica mais forte e cheia de coragem"
A gente que assim ama a poesia
Onde se juntam Ciência e Fantasia,
Que tudo aqui se cria à nossa imagem!
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Cada poema é mais uma viagem
Até ao universo da harmonia;
A partir de um acorde, a sintonia
Dos afinados versos que interagem
*
Até que ao pôr-do-sol o sono chegue
E o verso disperse e se me negue
Num desleal conluio com Morfeu...
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Tonta de sono, por mais que o persiga,
El` corre à minha frente e nem me liga
Quando suplico: - Volta, verso meu!
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Maria João Brito de Sousa - 22.06.2021- 15.32h
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13.
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“Quando suplico: - volta, verso meu ! “
Não deixes vir a noite que não vejo
E vai-se-me a vontade e o desejo
Só penso nesse escuro como breu
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Vem vindo a noite, não escureceu
Ainda. Eu de noite não versejo
E queria fazê-lo, tenho o ensejo
De pôr ainda mais um verso meu
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Via pelo interstício o bastante
Era pouco mas era interessante
Eu não exijo jóias nem rubis
*
Basta-me o que descubro no além
Por essa fenda aberta que nos vem
Do verso que nos chega e faz feliz
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Custódio Montes
22.6.2021
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14.
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"Do verso que nos chega e faz feliz"
Qualquer poeta, quando se aproxima
E traz atrás de si verso que rima
E outro ainda encontra que condiz
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Com a sonoridade de raiz
Em que o poema, inteiro, se sublima
E cresce... é quase vida, o que o anima,
E a força que em si traz, quase motriz...
*
Sobre este inusitado crescimento
O Sol percorre inverso movimento
Descendo aos poucos sobre o mar sereno
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Por trás da rua prenha de edifícios;
Com meus olhos - dois meros interstícios -
"Vejo ao longe uma nesga de terreno."
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Maria João Brito de Sousa - 22.06.2021 - 19.03h
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(Reservados os direitos de autor)
Dupla maravilhosa. Dois enormes poetas. Fascinante a sua brilhante forma de escrever poesia.
ResponderEliminarCumprimentos
MUITO OBRIGADA PELA PARTE QUE ME CABE, RIK@RDO!
EliminarFRATERNO ABRAÇO
Estou sem saber o que dizer...quanta criatividade e talento de mão dada!
ResponderEliminarAssim nascem versos de um quase nada
Que dois seres irmanados num só querer
Conseguiram criar e me surpreender
E nesta Coroa de Sonetos, vou embalada...
Perdoem a ousadia da rima.
Parabéns aos incríveis e maravilhosos Poetas.
Um abraço a ambos, se tiverem a bondade de o aceitar.
Obrigada.
FICO MUITO GRATA PELA METADE QUE ME CABE NESTE LONGO "ABRAÇO POÉTICO" , MARIA ANTONIETA
EliminarA SUA RIMA É MUITO BEM-VINDA E FICO CONTENTE POR SABER QUE SE SENTE EMBALADA PELA TOADA DA NOSSA COROA DE SONETOS.
ESTOU SEGURA DE QUE SE O POETA CUSTÓDIO MONTES AQUI ESTIVESSE, NÃO SÓ ACEITARIA COMO RETRIBUIRIA O SEU ABRAÇO, TAL COMO EU ACEITO E RETRIBUO
Isto sim é Versar com alma e coração
ResponderEliminarBom e belo dia
bom dia com alegria
e saúde da boa MJ, beijinhos
MUITO OBRIGADA, PELA PARTE QUE ME CABE, ANJO MEU
EliminarEU E O POETA CUSTÓDIO MONTES, A CRIAR COROAS DE SONETOS, JÁ ESTAMOS TÃO BEM SINCRONIZADOS QUANTO O FRED ASTAIRE E A GINCER ROGERS, A DANÇAR
BEIJINHOS