SONETO DA IMATERIALIDADE

O CAMPO DE MARTE- MARC CHAGALL.jpg


"O Campo de Marte" - Marc Chagall


 


SONETO DA IMATERIALIDADE
*



Trago a realidade pela trela


Enquanto ela se escapa e se dissolve


Em tudo o que apareça à frente dela:


Quando se for, quem é que ma devolve?
*



Não sei se ela me habita, se estou nela,


Ou se ela é tudo, tudo o que me envolve;


Há sempre, debruçada na janela,


Uma equação que nunca se resolve.
*


 


Tudo flutua agora em meu redor


Na ausência do melhor e do pior,


Na dispersão dos pontos cardeais...
*



Trago comigo um grão de realidade


Dissolvido num mar que se me evade


Sempre que tento içar-me até ao cais.
*


 



Maria João Brito de Sousa - 29.10.2021 - 11.30h
*
Sonetos da Matrix

Comentários

  1. Brancas nuvens negras30 de outubro de 2021 às 11:16

    "Na dispersão dos pontos cardeais...", a verdade é que nunca perdemos o norte por muito que já não saibamos se nós próprios ainda somos realidade ___ nos tempos de hoje.
    Gostei muitíssimo deste seu poema.
    Um abraço.

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    Respostas
    1. Muito obrigada pelas suas palavras, L.

      Os tempos de hoje são tão assustadores quanto fascinantes, pelo menos para mim. Não perderemos o Norte, por muito que os pontos cardeias girem desordenados!

      Forte abraço!

      Eliminar
  2. Mais um fascinante soneto que muito gostei de ler.
    .
    Votos de um bom fim de semana.
    .

    ResponderEliminar
  3. Teresa Palmira Hoffbauer30 de outubro de 2021 às 14:54

    Como diz o nosso amigo Luís — a POESIA abriga-nos da chuva 🌧
    Um soneto de grande beleza poética.
    Abraço forte de um Düsseldorf chuvoso, triste, frio, cinzento escuro.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Muito obrigada pelo que diz deste meu soneto da Matrix, Teresa

      Este florido cantinho em que criei raiz também está "frio, triste, cinzento escuro"... Felizmente há POESIA :)

      Abraço

      Eliminar
  4. Esse mesmo grão de realidade
    Que teima em não me largar
    Deitei-o na praia da saudade
    Inchou-se de mar
    e ameaçou-me esmagar
    Defendi-me com um sorriso
    Aceitou conversar comigo
    (e é isso que agora estamos fazendo...)

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Cuidado, não deixes que te escape esse último grão de realidade, Rogério. A imaterialidade absoluta pode ser bem mais assustadora do que o grãozinho de realidade que ladra mas não morde...

      ( e continuamos a conversar)

      Eliminar

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