AQUI - Mª João Brito de Sousa e Custódio Montes

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AQUI - Coroa de Sonetos
*


Mª João Brito de Sousa e Custódio Montes



1.
*


Aqui, cada parede é nervo e pele


E os livros que reli vezes sem fim


Vão sendo o pasto fértil do corcel


Que o verso monta quando sai de mim
*



Aqui, a casa cumpre o seu papel


De irmã de pedra, de alma, de jardim


Ou berço improvisado por cinzel


Já transmutado em mão por ser assim...
*



Se um alter-ego tenho, é este espaço


Que mais do que uma casa é um abraço


Que a Musa nunca hesita em partilhar
*



Mas nem eu, nem a Musa voltaremos


A vislumbrar corcel no qual montemos


No instante em que esta Barca naufragar.
*



Mª João Brito de Sousa


25.02.2022 - 12.00h


***


2.
*


“No instante em que esta Barca naufragar”


Mas não vai naufragar que a tormenta


De vagas e mais vagas se alimenta


E no fim da tormenta vai vogar
*


E ao irmos nesse barco a navegar


Estende-se a visão que nos aumenta


O gosto de viver e nos sustenta


A força que nós temos para andar
*


E vejo, minha amiga, que alegria


Que lhe volta a visão e a mestria


E todo o brilhantismo a aparecer
*


E ver a companheira sem estorvo


Voltar a poetar aqui de novo


Que bom e que alegria, que prazer…
*


Custodio Montes


25.2.2022


***


3.
*


"Que bom e que alegria, que prazer"


Direi também ao ver que me responde


Com a espontaneidade que não esconde


E sem outras desgraças conhecer...
*



Vão afundar-me a Barca e vai doer...


Não sei exactamente quando e onde,


Mas minha Barca e tudo quanto a ronde


Está mais que condenada a perecer
*



Saí da cirurgia e logo após


Fui confrontada com o facto atroz


Da iminência de perder a Barca
*



Mas não quero afligi-lo, informo apenas


Que as horas, de tão poucas, são pequenas


E a minha inspiração vai sendo parca...
*



Mª João Brito de Sousa


25.02.2022 - 14.12h
***
4.
*


“E a minha inspiração vai sendo parca….”


Mas não lhe correu bem a cirurgia


Que nos trouxesse a nós essa alegria


E a beleza e o tom da sua marca ?
*



A amiga é sem dúvida a monarca


No reino do soneto e poesia


Que vendo mesmo pouco é na mestria


Aquela que entre nós mais longe abarca
*



Espero, faço votos, tenho crença


Que ultrapasse bem rápido a doença


E volte para nós em plenitude
*



E que o mal que na vista hoje traz


A deixe sossegada, a deixe em paz


E volte, amiga, cheia de saúde
*


Custodio Montes


25.2.2022
*


5.
*


"E volte, amiga, cheia de saúde"


Diz-me o amigo sem sequer sonhar


Que muito em breve ficarei sem lar


Ainda que a visão agora ajude...
*



Sim, sim, coloco as gotas amiúde,


Mas tenho o outro olho por op`rar


Com raios laser para eliminar


Uma camada opaca como grude
*



Mas não, não é por isso que estou triste,


Nem é por isso que a Musa desiste


De dar-me uma mãozinha enquanto escrevo
*



Esta tristeza é quase um desespero


Que me domina a escrita e que é sincero;


Não poderei pagar algo que devo.
*



Mª João Brito de Sousa


25.02.2022 - 17.10h


***


6.
*


“Não poderei pagar algo que devo”


A quem tanto educa e tanto ensina


Mas essa há-de ser a minha sina


Que nunca pagarei com o que escrevo
*



Eu quando escrevo, escrevo com enlevo


Mas não tive o condão de quem opina


Com o saber profundo e a doutrina


De quem desde menino tem relevo
*



E não me deixe só com minha musa


Que ela é preguiçosa e não usa


O que a sua lhe dá em profusão
*



Quero o seu desafio permanente


Para que eu me sinta mais contente


E force a minha musa a dar-me a mão
*



Custodio Montes


25.2.2022
***


7.
*


"E force a minha musa a dar-me a mão"


Ainda que na rua e sem abrigo


Me encontre exposta ao frio e ao perigo


Duma morte por pura inanição?
*



Mas já me fez sorrir e há gratidão,


Imensa gratidão no que lhe digo


Ainda que não creia, qu`rido amigo,


Que compreenda a minha situação.
*



Mas avancemos porque há pormenores


Que mais me doem do que as próprias dores


Nos quais não quero agora nem pensar
*



E com alguma sorte talvez morra (rsrsrsrs...)


Antes de ser lançada na masmorra


Dos que não têm casa pra morar
*



Mª João Brito de Sousa


25.02.2022 - 18.45h
***


8.
*


“Dos que não têm casa para morar”


Eu digo mal da sorte e tenho pena


Mas a amiga tem casa e casa amena


Muito bem situada em frente ao mar
*



E quando faz poemas, ao olhar


A vista alarga ao longe bem serena


E enche-se de brio e força plena


Ao vir a sua musa e poetar
*



Que belo ver os barcos sobre as ondas


Embrulhando-se alegres bem redondas


E ouvir o seu som e o seu bater
*



Tem casa onde mora e bem rica


E porque nela mora, nela fica


Assim o profetizo e tem que ser
*


Custodio Montes


25.2.2022
***


9.
*


"Assim o profetizo e tem de ser"


E eu, querendo que assim seja, nem replico,


Antes sinto das ondas o salpico


E fecho os olhos para o receber
*


Mais tarde pensarei no que fazer


Que agora é pelas ondas que me fico


E enquanto uma sopita depenico


Penso que bom que é voltar a ver!
*



À minha Musa, julguei-a perdida


E ela voltou embora combalida...


Por vezes nem eu mesma a reconheço
*



Porque ora se retira desistente,


Ora volta aguerrida e, de repente,


Mede em estatura bem mais do que eu meço...
*



Mª João Brito de Sousa


25.02.2022 - 20.00h


***


10.
*


“Mede em estatuto bem mais do que eu meço”


Por isso, continua sem parar


Olhando o Tejo e a ver o verde mar


Com rápidos poemas de sucesso
*



E eu, ao ver-lhe o estro, até lhe peço


Que ajude assim o meu a melhorar


Para ver no poema um versejar


Que tenha em sua senda algum acesso
*



Olhando e vendo-a ir pelo caminho


Aguço o meu engenho um pedacinho


E fico bem melhor ao vê-la a ela
*


Eu sinto esse canto, ouço-o bem


Gostava de cantar assim também


Com essa melodia alegre e bela
*


Custodio Montes


25.02.2022


***
11.
*


"Com essa melodia alegre e bela"


Também a sua Musa vai cantando


E sei que à minha Musa convidando


Para cantar com ela e para ela :)
*



Aqui, a minha casa é barco à vela


E se esta a Barca é Onde, o Mar é Quando;


Vão-se as coisas, aqui, transfigurando


Conforme acontecia em tinta e tela...
*



A palmeira e as plantas suculentas


Falam comigo e ficam muito atentas


Aos gestos das mãos magras e doridas
*



Que aspergem água prás dessedentar


E de manhã bem cedo, ao acordar,


Sussurram-me palavras nunca ouvidas...
*


 


Mª João Brito de Sousa


25.02.2022 - 21.41h
***


12.
*


“Sussurram-me palavras nunca ouvidas…”


De certeza, de sonhos encontrados


Que vieram na noite transportados


Por versos amenos induzidos
*



E as palmeiras e os campos coloridos


Sobre o mar, sobre o Tejo espelhados


Trouxeram ao dormir, versos rimados


Com palavras e com sons nelas vertidos
*


Por isso, essas palavras encantaram


Seus ouvidos que nunca as escutaram


Trazendo-lhe depois inspiração
*



Muito bem, que a quero aplaudir


Agora, ao me deitar, que vou dormir


Manifestando a minha admiração
*


Custodio Montes


35.2.2022
***


13.
*


"Manifestando a minha admiração"


É de alegria, espanto e amizade


Que me encho quando o leio e na verdade


Já não sinto nem sombra de aflição...
*



Descanse amigo que eu não posso, não,


Deitar-me agora que o sono me invade


E afasto o sono à custa da vontade


De pôr as gotas no meu olho são...
*



À meia noite em ponto há-de soar


O alarme do relógio a recordar


A hora exacta da medicação
*



E não quero que os olhos ensonados


Se fechem e se esqueçam dos cuidados


Que me impõe a recente operação
*



Mª João Brito de Sousa


25.02.2022 - 22.56h
***


14.
*


“Que me impõe a recente operação”


Deixe lá que a não torno a maçar


Que a coroa está quase a terminar


Terminando também nosso serão
*



Mais uns versos a ter em atenção


Agora que voltei a acordar


Para ver se consigo completar


Os versos que aqui me ficarão
*



O sono já vem vindo bem depressa


Mas eu hei-de cumprir esta promessa


Sem que venha Morfeu e me interpele
*



Estou atrapalhado e não consigo


E vejo em cada canto só perigo


"Aqui, cada parede é nervo e pele"
*



Custodio Montes


25.2.2022
***


 


 

Comentários


  1. Como tenho a guitarra desafinada
    não me lanço à estrada
    e com verdete nas cordas
    não poderei acompanhar a desgarrada

    Bom e belo Domingo pra vocês MJ, beijinhos

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Bom dia, Anjo meu

      Limpa o verdete das cordas,
      Vem juntar-te à desgarrada!
      Sei que comigo concordas;
      Dá-nos vida, esta toada! :)

      Obrigada pela parte que me cabe!

      Que tenhas um Domingo sereno neste mundo enlouquecido

      Beijinhos!

      Eliminar

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