AQUI - Mª João Brito de Sousa e Custódio Montes

AQUI - Coroa de Sonetos
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Mª João Brito de Sousa e Custódio Montes
1.
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Aqui, cada parede é nervo e pele
E os livros que reli vezes sem fim
Vão sendo o pasto fértil do corcel
Que o verso monta quando sai de mim
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Aqui, a casa cumpre o seu papel
De irmã de pedra, de alma, de jardim
Ou berço improvisado por cinzel
Já transmutado em mão por ser assim...
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Se um alter-ego tenho, é este espaço
Que mais do que uma casa é um abraço
Que a Musa nunca hesita em partilhar
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Mas nem eu, nem a Musa voltaremos
A vislumbrar corcel no qual montemos
No instante em que esta Barca naufragar.
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Mª João Brito de Sousa
25.02.2022 - 12.00h
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2.
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“No instante em que esta Barca naufragar”
Mas não vai naufragar que a tormenta
De vagas e mais vagas se alimenta
E no fim da tormenta vai vogar
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E ao irmos nesse barco a navegar
Estende-se a visão que nos aumenta
O gosto de viver e nos sustenta
A força que nós temos para andar
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E vejo, minha amiga, que alegria
Que lhe volta a visão e a mestria
E todo o brilhantismo a aparecer
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E ver a companheira sem estorvo
Voltar a poetar aqui de novo
Que bom e que alegria, que prazer…
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Custodio Montes
25.2.2022
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3.
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"Que bom e que alegria, que prazer"
Direi também ao ver que me responde
Com a espontaneidade que não esconde
E sem outras desgraças conhecer...
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Vão afundar-me a Barca e vai doer...
Não sei exactamente quando e onde,
Mas minha Barca e tudo quanto a ronde
Está mais que condenada a perecer
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Saí da cirurgia e logo após
Fui confrontada com o facto atroz
Da iminência de perder a Barca
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Mas não quero afligi-lo, informo apenas
Que as horas, de tão poucas, são pequenas
E a minha inspiração vai sendo parca...
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Mª João Brito de Sousa
25.02.2022 - 14.12h
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4.
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“E a minha inspiração vai sendo parca….”
Mas não lhe correu bem a cirurgia
Que nos trouxesse a nós essa alegria
E a beleza e o tom da sua marca ?
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A amiga é sem dúvida a monarca
No reino do soneto e poesia
Que vendo mesmo pouco é na mestria
Aquela que entre nós mais longe abarca
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Espero, faço votos, tenho crença
Que ultrapasse bem rápido a doença
E volte para nós em plenitude
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E que o mal que na vista hoje traz
A deixe sossegada, a deixe em paz
E volte, amiga, cheia de saúde
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Custodio Montes
25.2.2022
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5.
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"E volte, amiga, cheia de saúde"
Diz-me o amigo sem sequer sonhar
Que muito em breve ficarei sem lar
Ainda que a visão agora ajude...
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Sim, sim, coloco as gotas amiúde,
Mas tenho o outro olho por op`rar
Com raios laser para eliminar
Uma camada opaca como grude
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Mas não, não é por isso que estou triste,
Nem é por isso que a Musa desiste
De dar-me uma mãozinha enquanto escrevo
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Esta tristeza é quase um desespero
Que me domina a escrita e que é sincero;
Não poderei pagar algo que devo.
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Mª João Brito de Sousa
25.02.2022 - 17.10h
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6.
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“Não poderei pagar algo que devo”
A quem tanto educa e tanto ensina
Mas essa há-de ser a minha sina
Que nunca pagarei com o que escrevo
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Eu quando escrevo, escrevo com enlevo
Mas não tive o condão de quem opina
Com o saber profundo e a doutrina
De quem desde menino tem relevo
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E não me deixe só com minha musa
Que ela é preguiçosa e não usa
O que a sua lhe dá em profusão
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Quero o seu desafio permanente
Para que eu me sinta mais contente
E force a minha musa a dar-me a mão
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Custodio Montes
25.2.2022
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7.
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"E force a minha musa a dar-me a mão"
Ainda que na rua e sem abrigo
Me encontre exposta ao frio e ao perigo
Duma morte por pura inanição?
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Mas já me fez sorrir e há gratidão,
Imensa gratidão no que lhe digo
Ainda que não creia, qu`rido amigo,
Que compreenda a minha situação.
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Mas avancemos porque há pormenores
Que mais me doem do que as próprias dores
Nos quais não quero agora nem pensar
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E com alguma sorte talvez morra (rsrsrsrs...)
Antes de ser lançada na masmorra
Dos que não têm casa pra morar
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Mª João Brito de Sousa
25.02.2022 - 18.45h
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8.
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“Dos que não têm casa para morar”
Eu digo mal da sorte e tenho pena
Mas a amiga tem casa e casa amena
Muito bem situada em frente ao mar
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E quando faz poemas, ao olhar
A vista alarga ao longe bem serena
E enche-se de brio e força plena
Ao vir a sua musa e poetar
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Que belo ver os barcos sobre as ondas
Embrulhando-se alegres bem redondas
E ouvir o seu som e o seu bater
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Tem casa onde mora e bem rica
E porque nela mora, nela fica
Assim o profetizo e tem que ser
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Custodio Montes
25.2.2022
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9.
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"Assim o profetizo e tem de ser"
E eu, querendo que assim seja, nem replico,
Antes sinto das ondas o salpico
E fecho os olhos para o receber
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Mais tarde pensarei no que fazer
Que agora é pelas ondas que me fico
E enquanto uma sopita depenico
Penso que bom que é voltar a ver!
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À minha Musa, julguei-a perdida
E ela voltou embora combalida...
Por vezes nem eu mesma a reconheço
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Porque ora se retira desistente,
Ora volta aguerrida e, de repente,
Mede em estatura bem mais do que eu meço...
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Mª João Brito de Sousa
25.02.2022 - 20.00h
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10.
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“Mede em estatuto bem mais do que eu meço”
Por isso, continua sem parar
Olhando o Tejo e a ver o verde mar
Com rápidos poemas de sucesso
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E eu, ao ver-lhe o estro, até lhe peço
Que ajude assim o meu a melhorar
Para ver no poema um versejar
Que tenha em sua senda algum acesso
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Olhando e vendo-a ir pelo caminho
Aguço o meu engenho um pedacinho
E fico bem melhor ao vê-la a ela
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Eu sinto esse canto, ouço-o bem
Gostava de cantar assim também
Com essa melodia alegre e bela
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Custodio Montes
25.02.2022
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11.
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"Com essa melodia alegre e bela"
Também a sua Musa vai cantando
E sei que à minha Musa convidando
Para cantar com ela e para ela :)
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Aqui, a minha casa é barco à vela
E se esta a Barca é Onde, o Mar é Quando;
Vão-se as coisas, aqui, transfigurando
Conforme acontecia em tinta e tela...
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A palmeira e as plantas suculentas
Falam comigo e ficam muito atentas
Aos gestos das mãos magras e doridas
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Que aspergem água prás dessedentar
E de manhã bem cedo, ao acordar,
Sussurram-me palavras nunca ouvidas...
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Mª João Brito de Sousa
25.02.2022 - 21.41h
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12.
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“Sussurram-me palavras nunca ouvidas…”
De certeza, de sonhos encontrados
Que vieram na noite transportados
Por versos amenos induzidos
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E as palmeiras e os campos coloridos
Sobre o mar, sobre o Tejo espelhados
Trouxeram ao dormir, versos rimados
Com palavras e com sons nelas vertidos
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Por isso, essas palavras encantaram
Seus ouvidos que nunca as escutaram
Trazendo-lhe depois inspiração
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Muito bem, que a quero aplaudir
Agora, ao me deitar, que vou dormir
Manifestando a minha admiração
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Custodio Montes
35.2.2022
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13.
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"Manifestando a minha admiração"
É de alegria, espanto e amizade
Que me encho quando o leio e na verdade
Já não sinto nem sombra de aflição...
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Descanse amigo que eu não posso, não,
Deitar-me agora que o sono me invade
E afasto o sono à custa da vontade
De pôr as gotas no meu olho são...
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À meia noite em ponto há-de soar
O alarme do relógio a recordar
A hora exacta da medicação
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E não quero que os olhos ensonados
Se fechem e se esqueçam dos cuidados
Que me impõe a recente operação
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Mª João Brito de Sousa
25.02.2022 - 22.56h
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14.
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“Que me impõe a recente operação”
Deixe lá que a não torno a maçar
Que a coroa está quase a terminar
Terminando também nosso serão
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Mais uns versos a ter em atenção
Agora que voltei a acordar
Para ver se consigo completar
Os versos que aqui me ficarão
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O sono já vem vindo bem depressa
Mas eu hei-de cumprir esta promessa
Sem que venha Morfeu e me interpele
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Estou atrapalhado e não consigo
E vejo em cada canto só perigo
"Aqui, cada parede é nervo e pele"
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Custodio Montes
25.2.2022
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ResponderEliminarComo tenho a guitarra desafinada
não me lanço à estrada
e com verdete nas cordas
não poderei acompanhar a desgarrada
Bom e belo Domingo pra vocês MJ, beijinhos
Bom dia, Anjo meu
EliminarLimpa o verdete das cordas,
Vem juntar-te à desgarrada!
Sei que comigo concordas;
Dá-nos vida, esta toada! :)
Obrigada pela parte que me cabe!
Que tenhas um Domingo sereno neste mundo enlouquecido
Beijinhos!