COM OS ANOS - Custódio Montes e Mª João Brito de Sousa

eu e Pedrito.jpg


COM OS ANOS - Custódio Montes e Mª João Brito de Sousa
*
COROA
*


1.
*


Com os anos a gente nem dá conta


Um dia e mais outro lá se vão


Inverno, primavera e o verão


Às vezes mais um dia até encanta
*


Contentes quando o sol vem e levanta


Os verdes anos fogem, sem travão


Enruga a pele e ama o coração


E a alma às vezes salta e se agiganta
*


Somos tudo: grandeza e poder


Fraqueza, sem pensar mas a fazer


A descida da íngreme ladeira
*



Seguimos o caminho sempre em frente


Às vezes sem olhar e de repente


Sem contar, vai-se tudo, a vida inteira
*



Custódio Montes


31.1.2022
*


2.
*


"Sem contar vai-se tudo, a vida inteira"


Se quase por inteiro foi vivida,


Mas isto que nos sobra ainda é vida


Que tenta ir convertendo a tal ladeira
*



Num espaço de amizade e brincadeira


Ou mesmo numa rampa tão comprida


Que leve uns anos a ser percorrida


E a lançar-nos, por fim, na ribanceira...
*



Por azar e por sorte em simultâneo


Já vi desse penhasco um sucedâneo;


Jovem - tão jovem! - da primeira vez,
*



Já nada jovem, quando da segunda...


Passam os anos mas, se a sorte abunda,


Talvez se alongue a rampa... Sim, talvez!
*



Mª João Brito de Sousa


31.01.2022 - 14.00h


***



3.
*


“Talvez se alongue a rampa…sim, talvez”


Enquanto com saúde cá se andar


Estou no hospital a esperar


Consulta e a aguardar a minha vez
*



Não tenho mau aspecto e a minha tez


Sem rugas e de aspecto regular


Ninguém descobre em mim um mal-estar


Mas tenho dor nas costas lés a lés
*



Não vou ligar agora à minha queixa


E ver se a dor acaba e me deixa


Porque esquecer os males é melhor
*



Enquanto cá andarmos dia a dia


Assim a gente tem mais alegria


E não nos lembra tanto a nossa dor
*


Custódio Montes


31.1.2022
***


4.
*


"E não nos lembra tanto a nossa dor"


Enquanto conversamos, como agora...


Pode até ser que a sua vá embora


E, a minha, perca algum do seu ardor
*



Que isto, pra mim, também não vai melhor,


E à minha tez, deitá-la-ia fora


Se outra tivesse, mais inspiradora,


Menos inchada e com menor rubor...
*



Mas, meu amigo, s`isto lhe é penoso,


Não escreva porque pode ser perigoso


Esforçar-se em vez de estar a repousar!
*



Não se sinta obrigado a responder...


Há-de ter muito tempo pró fazer


Quando essa lombalgia lhe passar!
*


 


Mª João Brito de Sousa


31.01.2022 - 20.22h


***


5.
*


“Quando essa lombalgia lhe passar”


Há-de ser bem melhor mas por agora


Fraqueza não se quer, que vá embora


Porque a dor não se agrava por pensar
*



Até talvez melhore se calhar


Estando distraído hora a hora


E até - é o que penso - não piora
*


Que a rima até nos dá para alegrar


Que bom passar o tempo, os nossos dias


Envoltos em poemas e alegrias


A rirmo-nos na vida e a meter graça
*


E aos vermos no poema algum talento


Sentimos alegria no momento


E não nos custa o tempo enquanto passa
*


Custódio Montes


31.1.2022
***


6.
*


"E não nos custa o tempo enquanto passa"


Porquanto a amarga dor, quase esquecida,


Sente-se desprezada e "vai à vida"


Enquanto a minha estrofe a sua enlaça
*



E a sua enlaça a minha que acha graça,


Tornando-se a conversa divertida


Muito mais forte do que a dor sentida


Que, enfraquecida, já nos não trespassa...
*



Com os anos, amigo, o que aprendemos!


Somos mais fortes do que a dor que temos;


Palavra com palavra, rima a rima,
*


Podemos muito mais do que o expectável,


Pois trocar dor por riso, assim, saudável,


É obra! E talvez seja uma obra-prima...
*



Mª João Brito de Sousa


31.01.2022 - 21.30h
***


7.
*


“É obra! E talvez seja uma obra-prima…”


A minha não, a sua com certeza


E ao pé da sua a minha trina e reza


Para que puxe a minha mais pra cima
*



É claro que a minha também rima


Mas a mesma riqueza não aveza


Eu tento rodeá-la de beleza


E ela à sua sombra se arrima
*


Não estou a gabá-la, é verdade


Nem eu assim o digo por maldade


Digo isto de alma e coração
*


A fazer as coroas foi consigo


Que aprendi e ao sentir o seu abrigo


Ganhei alguma graça e atenção
*



Custódio Montes


31.1.2022
***
8.
*


"Ganhei alguma graça e atenção"


Tecendo as c`roas de que tanto gosto


Pois rasga-se um sorriso no meu rosto


Quando, ao tecê-las, me encho de paixão
*



Já que são arte em plena construção


E nisso, meu amigo, sempre aposto!


Fermentou, com o tempo, o nosso mosto


Já transformado em néctar de eleição...
*



Sou poeta e o poema importa assim,


Ao ponto de eu estar nele e ele em mim


Numa fusão tão pura quanto estranha
*



E a si, que sei que entende o que lhe digo,


Só posso agradecer-lhe, meu amigo,


Por dar-me uma alegria tão tamanha.
*


 


Mª João Brito de Sousa


31.01.2022 - 23.00h
***
9.
*


“Por dar-me uma alegria tão tamanha”


Nos versos que escrevemos debruçados


Na tela que pintamos aos bocados


Para se ver no fim a obra ganha
*


O verso dentro dela lá se entranha


Ficando todos eles irmanados


Bem juntos com sorrisos espalhados


Cada um a contar sua façanha
*


A vida continua e nós a ver


Jardins de belas flores a crescer


Metidas lá no meio e a florir
*



Um cravo e uma rosa ou o que for


Alheios à doença e à dor


Envoltos nessa obra a emergir
*



Custódio Montes


1.2.2022


***


10.
*


"Envoltos nessa obra a emergir"


Tal como emerge o Sol da noite escura,


Em rasgos de talento - ou de loucura...-


Chegam poemas pra nos redimir
*



Dos anos que passaram a fugir


Pela pele engelhada de madura


E duma ou de outra dor qu`inda tortura


Por muito que a queiramos desmentir...
*



Com os anos que passam, também passa


Toda a frescura, agilidade e graça


Próprias da Primavera duma vida
*



E aquilo que se ganha em lucidez


Cresce c`os anos pra murchar de vez


Quando soar a hora da partida.
*


 


Mª João Brito de Sousa


01.02.2022 - 09.40h
***


11.
*


“Quando soar a hora da partida”


Nós já cá não estamos para ver


Que importa a despedida acontecer


Se só já há lembrança à despedida ?
*



É curta esta passagem e a vida


É breve muito breve e o viver


Por tão curto e breve deve ser


Uma etapa de amor e bem vivida
*



Os dias e as noites de passagem


A voar vão e não deixam imagem


Momentos que não vemos nem passar
*


Mas depois ao olharmos de repente


Ficamos a pensar e a nossa mente


Sem tempo passa o tempo a recordar
*



Custodio Montes


1.2.2022

***


12.
*


"Sem tempo passa o tempo a recordar"


Em viagem pelos anos já passados


Que assim é a memória cujos dados


Ora fazem sorrir, ora chorar...
*


 


Pra mim, é construção este sonhar


Sem precisar de estar de olhos fechados


Que os versos vão crescendo encadeados


Naquilo que eu sentir quando pensar...
*



Aproveitemos pois estes instantes


Para lembrar-nos do que fomos dantes


E melhor conhecer-nos, no presente,
*



E - por que não? - com esp`rança num futuro


Que seja bem mais justo e menos duro,


Não para nós, mas para toda a gente!
*


 


Mª João Brito de Sousa


01.02.2022 - 15.30h
***


13.
*


“Não para nós, mas para toda a gente”


Que bom que se deseje a vida inteira


Haver apenas gente de primeira


Sem fome, sem miséria somente
*



Com pão, tecto e futuro pela frente


E tempo para andar na brincadeira


Ter calor e conforto à lareira


Sem barreiras e ser independente
*



Os anos passariam devagar


E toda a vida a gente a se lembrar


Daquilo que melhor houve na vida
*



Assim, oh que beleza, era melhor


Viver até ao fim cheios de amor


E menos custaria a despedida
*


Custódio Montes


1.2.2022
***


14.
*


"E menos custaria a despedida"


A quem feliz passasse pelos anos,


Sem que a pobreza lhe causasse danos,


Sem que a miséria lhe encurtasse a vida
*



Fosse a riqueza bem distribuída


Por todos os que nascem dos humanos


E fossem seus direitos soberanos


A luz de uma razão jamais perdida...
*



Com os anos ganhamos e perdemos,


Somos fruto daquilo que aprendemos


E enquanto jovens nada nos afronta;
*


 


Pela vida passamos e corremos


Sem percebermos bem porque vivemos,


"Com os anos a gente nem dá conta"...
*


 


Mª João Brito de Sousa


01.02.2021 - 17.30h
***

Comentários

  1. Apreciei.
    De Custódio Montes retive
    Que bom passar o tempo, os nossos dias
    Envoltos em poemas e alegrias
    A rirmo-nos na vida e a meter graça

    Da Maria João retive
    Aproveitemos pois estes instantes
    Para lembrar-nos do que fomos dantes
    E melhor conhecer-nos, no presente,

    Longuíssimo mostruário do talento de dois amigos à volta com as palavras. Custódio Montes não conheço mas, felicito-o, à Maria João um abraço pelo talento que já conheço.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Muito obrigada pela parte que me cabe, L.

      Acredite, ou não, esta publicação foi censurada e eliminada do Facebook, tendo-me sido imposto um "castigo" de 24 horas... Ou está meio mundo louco, ou sou eu que não entendo os critérios de "moral e bons costumes" dessa rede social.

      Na fotografia, tirada pelo meu pai, estou na Caparica, na praia, junto do Pedrito, o filho de um colega seu. Eu tinha seis anos e ele sete.

      No longo poema, não encontro uma única palavra obscena ou ofensiva seja para quem for.

      Decididamente, está tudo louco no FB.

      Desculpe-me o desabafo.

      Um forte abraço

      Eliminar
    2. O Facebook é um lugar miserável.

      Eliminar
    3. Concordo, L.! E se é com estratégias deste tipo que os algoritmos do Zurckerberg pretendem melhorá-lo, tudo o que vão conseguir obter é o resultado oposto.

      Eliminar
  2. Pintarolas com pinta lá no cimo

    E pelo que leio
    eu também recebi uma advertência no Youtube
    por causa do 11 de Setembro , enfim…

    Bom e feliz dia com alegria
    que o sol porfia, beijinhos

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Obrigada pela parte que me cabe nessas pintarolas, Anjo

      Anda tudo doido, anda! Tu recebes advertências e, a mim, eliminam-me uma publicação artística (esta!) e põem-me de castigo durante 24 horas por infringir " a moral e os bons costumes"!

      Feliz dia também para ti e para todos os que habitam a tua linda serra!

      Beijinhos

      Eliminar
  3. Gostei tanto mas confesso que também me perdi na fotografia, adoro fotos de outros tempos!
    Muitos beijinhos, e parabéns por estas partilhas!🌷

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Olá, Sandra

      O ideal seria uma fotografia da infância de cada autor, mas como não tenho nenhuma do poeta Custódio Montes, aproveitei esta em que estou com o Pedrito, filho de um colega do meu pai.

      Obrigada pela parte que me cabe!

      Beijinho grande

      Eliminar
    2. Eu é que agradeço, venham mais fotos beijinhos

      Eliminar
    3. Hão-de vir... mas já compreendi que fotos de crianças no Fb, são retiradas de imediato com penalização dos autores "infractores". Deve ser impossível fazer com que os logaritmos entendam que aquelas crianças não correm riscos nenhuns, já que nem o Zurckerberg conseguiu (ainda) inventar uma máquina do tempo que o faça viajar mais de seis décadas em marcha-à-ré para ir raptar as ditas cujas...

      Haja paciência

      Beijinhos

      Eliminar
  4. Bom resto de Semana
    bom dia
    e com primavera de aqui por companhia ´.*`)
    Beijinhos

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Bom resto de semana... e de dia, Anjo

      Por aqui já é noite escura e o dia esteve feioso e enevoado...

      Beijinhos

      Eliminar
  5. Minha querida amiga, a foto está um encanto, tem aquele olhar sincero e directo que mantem até hoje. Além das lindas tranças e de um rosto encantador.

    Fico sempre fascinada com estas coroas, e a vossa capacidade de improvisação e saber.

    "Um cravo e uma rosa ou o que for
    Alheios à doença e à dor
    Envoltos nessa obra a emergir"

    Acredito que enquanto escrevem não há dor que resista à vossa inspiração.

    Parabéns e beijinhos para ambos

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Muito obrigada pela parte que me cabe, Blue Bird!

      Sabe que essa fotografia antiga foi censurada no Facebook? Só pode, porque não encontro nos meus sonetos ou nos do poeta Custódio Montes uma única palavra que possa "violar os padrões (morais?) da comunidade".

      O que é certo é que as minhas publicações naquele espaço foram removidas dos locais mais visíveis do "feed" de notícias e que assim ficarei até que se completem trinta dias sobre a data desta publicação.

      Enfim, embora eu adore as fotografias que o meu pai me tirava quando era pequenina, vou ter de as utilizar apenas aqui, nos blogs. Não as posso mostrar aos amigos que me vão lendo no Fb.


      Um grande beijinho


      Eliminar

Enviar um comentário

Mensagens populares deste blogue

UM VOO DE PARDAL - Soneto muito ligeiro, dedicado à Ligeirinha

OBRIGADA!

ESPANTO