POETA & JURISTA - Mª João Brito de Sousa e Custódio Montes

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POETA & JURISTA
*


Coroa de Sonetos
*


Mª João Brito de Sousa e Custódio Montes
*



1.
*
Poeta sou. Jurista nunca fui,


Que para tal não tive formação


E nunca exp`rimentei tal vocação,


Aquela que se sente e que se intui
*



Do que digo depressa se conclui


Que sou poeta por pura paixão


E que nunca me falta a convicção


No verso que, fluído, em mim conflui...
*


Não sei se comporei uma obra-prima


(que importa se com rima, se sem rima?),


Mas sei que sempre dei o meu melhor
*



Desde que comecei, quando menina:


Ser-se poeta talvez seja sina


Que não se ensina, tal como o Amor...
*


 


Mª João Brito de Sousa


06.05.2022 - 12.15h


***
2.
*



“Que não se ensina, tal como o amor”


Mas tendo professor em pequenino


A poesia nasce no menino


Tal como num canteiro nasce a flor
*



E o meu ensinamento foi na dor


Tive na natureza o meu ensino


E na terra lavrei o meu destino


Ao sol à chuva ao frio e ao calor
*



Andei nos tribunais e muito estudei


Depois de me ensinarem, ensinei


E agora descobri uma magia
*



E ando a estudar com quem nasceu


No meio do poema e lá cresceu


A ver se apanho o tom da poesia
*



Custódio Montes


6.5.2022
***


3.
*


"A ver se apanho o tom da poesia",


Ou se por esse tom sou apanhada


Que assim se vai rasgando imensa a estrada


Ao som da mais perfeita melodia
*



E não se pressupõe maior mestria


Que a da sonoridade (in)conquistada


Pela palavra/ideia devotada


Em ir ganhando o pão de cada dia...
*



Jurista/poeta ou pensionista pobre,


Tiraremos do pouco que nos sobre,


O muito que esta estrada vai pedindo:
*



Nenhum de nós conhece onde termina


A estrada onde se aprende, onde se ensina


E à qual garanto que é muito bem-vindo
*



Mª João Brito de Sousa


07.05.2022 - 12.05H


***


4.
*


“E à qual garanto que é muito bem-vindo”


A ver a natureza a espraiar


O sol o vento a aurora e o luar


E o dia ao horizonte, a pôr-se, lindo !!
*



Ver os cravos e rosas colorindo


E as ondas sobre a areia a enrolar


As gaivotas voando sobre o mar


E abraços entre braços e sorrindo
*



A rusga corre bem e bem disposta


Que a aula foi alegre e proveitosa


E o ponto ajudou-me ali à mão
*



E a forma como fala a professora


No ensino é bastante promissora:


Professora, obrigado p’la lição
*


Custódio Montes


07.05.2022
***


5.
*


"Professora, obrigado pl`a lição"


E esta "professora", que o não é,


Sorri, bebe outro gole de café


E mais aspira agora à perfeição...
*



Surge um verso que leva pela mão


A passear um pouco. E vão a pé...


Nunca se sabe aonde, nem se até


Um dia ao fim do mundo chegarão...
*



Há, no passeio, olaias florescendo


E as árvores-de-fogo vão crescendo


Tal qual como esse verso se acrescenta
*



Ao fim do mundo, talvez nunca cheguem,


Mas é provável que, entretanto, o neguem:


Não há fronteiras para o que se inventa!
*



Mª João Brito de Sousa


07.05.2022 - 17.35h


***


6.
*


“Não há fronteiras para o que se inventa!”


Pois é da invenção que vem progresso


E cada pormenor dá-nos acesso


A tudo o que se ganha e que se vença
*



O nosso ego nisso até nem pensa


Só vê no fim de todo esse processo


A enorme grandeza e o sucesso


E com orgulho sente a recompensa
*



Mas todo esse processo é muito agreste


O que vale é o estudo e é o mestre


Até chegar a gente a esse fim
*



E eu sei bastante bem disso que falo


Que a ver e a comparar é um regalo


De ter mestre tão boa para mim
*


Custódio Montes


7.5.2022
***


7.
*


"De ter mestre tão boa para mim"...


E para mim também mestre tem sido


Já que num "pas de deux" descontraído


Vamos plantando versos no jardim
*



Até surgirem luas de marfim


Sobre o poema quase adormecido:


Deixa a mestria de fazer sentido


Se a Musa cabeceia e dorme enfim...
*



Dormem também poetas e juristas


E são seus sonhos tão surrealistas


Quanto os sonhos dos homens podem ser:
*



Amanhã de manhã, quando acordarem,


Esperá-los-ão mais versos pra juntarem


À c`roa que hoje deixam por tecer...
*


 


Mª João Brito de Sousa


07.05.2022 - 23.59h
***


8.
*


“À c’roa que hoje deixam de tecer”


E que depois vai ter continuação


Virá do sonho a veia, a inspiração


E a teia fica como deve ser
*



Mas hoje só agora estou a ver


Aquilo que os versos lhe dirão


Andei na minha aldeia de aldeão


Cheguei agora, estou a escrever
*



Nasci como bem sabe na aldeia


E vou lá sempre, tenho-a na ideia


E sempre que lá vou ficou feliz
*



Misturo a natureza com a alma


Ao ver estas paisagens dá-me calma


E volta a lavrador quem foi juiz
*


Custódio Montes


6.5.2022
*


9.
*


"E volta a lavrador quem foi juiz"


Tal qual volta a poeta a ser pintora


De imaginários, que não pinta agora,


Nem sobre lousa usando um pau de giz...
*



Sobra a lembrança do que em tempos fiz


E que a minh` alma ainda comemora


Como se (re)criasse aquele outrora


Em que a figura humana era a matriz
*



Mas nem sequer rabisco como dantes


Que a rabiscar uns traços hesitantes,


Prefiro não riscar coisa nenhuma
*



E os versos também são figurativos:


Muitas vezes os toco, os sinto vivos,


Apesar de mais leves que uma pluma...
*



Mª João Brito de Sousa


08.05.2022 - 20.35h
***
10.
*


“Apesar de mais leves que uma pluma”


Pintam os dias de hoje e de amanhã


Descrevem o passado com afã


E lembram-nos memórias uma a uma
*



Os versos vão nas ondas sobre espuma


Navegam e combatem à titã


Falam do dia à noite e de manhã


Escondem-nos a dor por entre a bruma
*



No verso vai o nosso encantamento


A tristeza esvazia-a num momento


O verso anda em nós o dia inteiro
*



Falamos com o verso dia a dia


Diálogos tão cheios de alegria


Como com um irmão ou companheiro
*



Custódio Montes


8.5.2022
***


11.
*


"Como com um irmão ou companheiro"


Que em simultâneo é sempre nosso filho,


Nasce a canção, ressoa o seu estribilho


E somos uma orquestra a tempo inteiro!
*



O soneto é, por vezes, marinheiro,


Noutras segue o seu rumo de andarilho,


Mas nunca usou algemas nem espartilho,


Nem dele o verso fica prisioneiro...
*



Talvez seja jurista e lavrador,


Mas pinta tal e qual pinta o pintor


E tece e fia como o tecelão
*



Ou como o bom oleiro amassa o barro,


Vai à fonte, descalço, encher o jarro


E volta a casa pra cozer o pão...
*


 


Mª João Brito de Sousa


08.05.2022 - 22.45h
***


12.
*


“E volta a casa pra cozer o pão”


Soneto, companheiro, anda, anda


Que vais comigo sempre a toda a banda


Soneto, companheiro, meu irmão
*



Sou mais velho que os anos já lá vão


Mas agora o meu estro é que ciranda


Contigo debruçado à varanda


Ou em contos velhinhos ao serão
*



Ser poeta é ter gosto e ter amor


Enfeitar o soneto a rigor


Olhar o mundo e ter a quem amar
*



Platónico a adorar a madrugada


Inventar uma linda namorada


Uma aqui outra ali sempre a sonhar
*


Custódio Montes


9.5.2022
***


13.
*


"Uma aqui outra ali sempre a sonhar"


Andam as musas a chamar por nós


E mesmo quando sós não estamos sós,


Que não param, as musas, de chamar
*



Corre, então, o Jurista a formar par


Com a Poeta de mui fraca voz


Que já perdeu as asas de albatroz


E não mais se lembrou de as procurar...
*



Namorados não quero, nem procuro,


Porque um só amor tive e aqui lhe juro:


Saudades não guardei da experiência
*



A amizade é dif`rente e muito a prezo,


Mas queimar-me num fogo ainda aceso,


Só se eu cair nas garras da demência...
*


 


Mª João Brito de Sousa


09.05.2022 - 10.50h
***



14.
*


“Só se eu cair nas garras da demência”


Agora que falamos com verdade


Namoros já se foram noutra idade


Falar neles agora é aparência
*



O que o verso diz é uma evidência


E dizê-lo assim isso não nos há-de


Levar a ter de novo essa vontade


De ver à nossa volta essa envolvência
*



Se na coroa vem ter-se um amor


É porque o poeta é um fingidor


Quem os versos ler, isso mesmo flui
*



Também vos enganei com artimanha


E meti na coroa esta patranha:


“Sou poeta. Jurista nunca fui.”



Custódio Montes


9.5.2022
***


poeta e jurista


 


 


 


 


 


 


 

Comentários

  1. Obrigada, Ryk@rdo, pela parte que me cabe :)

    Fraterno abraço!

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  2. Obrigada, pela parte que me cabe, Anjo

    Que tenhas, também, um belo dia na tua linda serra!

    Beijinhos

    ResponderEliminar
  3. Desculpa-me o atraso, Lis, mas hoje publiquei antes de verificar se havia notificações pendentes na caixa do correio electrónico...

    Obrigada, pela parte que me cabe nesta Coroa de Sonetos :)

    Os sonetos são como sinfonias de ideias cujas notas vêm escritas numa pauta invisível

    É importante conhecer bem as regras dos vários tipos de sonetos, mas nenhum verdadeiro sonetista pensa nelas quando está a criar. A musicalidade vem-nos de ouvido, como penso que acontece com os músicos instrumentistas...

    Beijinhos

    ResponderEliminar

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