POETA & JURISTA - Mª João Brito de Sousa e Custódio Montes

POETA & JURISTA
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Coroa de Sonetos
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Mª João Brito de Sousa e Custódio Montes
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1.
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Poeta sou. Jurista nunca fui,
Que para tal não tive formação
E nunca exp`rimentei tal vocação,
Aquela que se sente e que se intui
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Do que digo depressa se conclui
Que sou poeta por pura paixão
E que nunca me falta a convicção
No verso que, fluído, em mim conflui...
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Não sei se comporei uma obra-prima
(que importa se com rima, se sem rima?),
Mas sei que sempre dei o meu melhor
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Desde que comecei, quando menina:
Ser-se poeta talvez seja sina
Que não se ensina, tal como o Amor...
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Mª João Brito de Sousa
06.05.2022 - 12.15h
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2.
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“Que não se ensina, tal como o amor”
Mas tendo professor em pequenino
A poesia nasce no menino
Tal como num canteiro nasce a flor
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E o meu ensinamento foi na dor
Tive na natureza o meu ensino
E na terra lavrei o meu destino
Ao sol à chuva ao frio e ao calor
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Andei nos tribunais e muito estudei
Depois de me ensinarem, ensinei
E agora descobri uma magia
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E ando a estudar com quem nasceu
No meio do poema e lá cresceu
A ver se apanho o tom da poesia
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Custódio Montes
6.5.2022
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3.
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"A ver se apanho o tom da poesia",
Ou se por esse tom sou apanhada
Que assim se vai rasgando imensa a estrada
Ao som da mais perfeita melodia
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E não se pressupõe maior mestria
Que a da sonoridade (in)conquistada
Pela palavra/ideia devotada
Em ir ganhando o pão de cada dia...
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Jurista/poeta ou pensionista pobre,
Tiraremos do pouco que nos sobre,
O muito que esta estrada vai pedindo:
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Nenhum de nós conhece onde termina
A estrada onde se aprende, onde se ensina
E à qual garanto que é muito bem-vindo
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Mª João Brito de Sousa
07.05.2022 - 12.05H
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4.
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“E à qual garanto que é muito bem-vindo”
A ver a natureza a espraiar
O sol o vento a aurora e o luar
E o dia ao horizonte, a pôr-se, lindo !!
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Ver os cravos e rosas colorindo
E as ondas sobre a areia a enrolar
As gaivotas voando sobre o mar
E abraços entre braços e sorrindo
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A rusga corre bem e bem disposta
Que a aula foi alegre e proveitosa
E o ponto ajudou-me ali à mão
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E a forma como fala a professora
No ensino é bastante promissora:
Professora, obrigado p’la lição
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Custódio Montes
07.05.2022
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5.
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"Professora, obrigado pl`a lição"
E esta "professora", que o não é,
Sorri, bebe outro gole de café
E mais aspira agora à perfeição...
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Surge um verso que leva pela mão
A passear um pouco. E vão a pé...
Nunca se sabe aonde, nem se até
Um dia ao fim do mundo chegarão...
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Há, no passeio, olaias florescendo
E as árvores-de-fogo vão crescendo
Tal qual como esse verso se acrescenta
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Ao fim do mundo, talvez nunca cheguem,
Mas é provável que, entretanto, o neguem:
Não há fronteiras para o que se inventa!
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Mª João Brito de Sousa
07.05.2022 - 17.35h
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6.
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“Não há fronteiras para o que se inventa!”
Pois é da invenção que vem progresso
E cada pormenor dá-nos acesso
A tudo o que se ganha e que se vença
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O nosso ego nisso até nem pensa
Só vê no fim de todo esse processo
A enorme grandeza e o sucesso
E com orgulho sente a recompensa
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Mas todo esse processo é muito agreste
O que vale é o estudo e é o mestre
Até chegar a gente a esse fim
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E eu sei bastante bem disso que falo
Que a ver e a comparar é um regalo
De ter mestre tão boa para mim
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Custódio Montes
7.5.2022
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7.
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"De ter mestre tão boa para mim"...
E para mim também mestre tem sido
Já que num "pas de deux" descontraído
Vamos plantando versos no jardim
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Até surgirem luas de marfim
Sobre o poema quase adormecido:
Deixa a mestria de fazer sentido
Se a Musa cabeceia e dorme enfim...
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Dormem também poetas e juristas
E são seus sonhos tão surrealistas
Quanto os sonhos dos homens podem ser:
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Amanhã de manhã, quando acordarem,
Esperá-los-ão mais versos pra juntarem
À c`roa que hoje deixam por tecer...
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Mª João Brito de Sousa
07.05.2022 - 23.59h
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8.
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“À c’roa que hoje deixam de tecer”
E que depois vai ter continuação
Virá do sonho a veia, a inspiração
E a teia fica como deve ser
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Mas hoje só agora estou a ver
Aquilo que os versos lhe dirão
Andei na minha aldeia de aldeão
Cheguei agora, estou a escrever
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Nasci como bem sabe na aldeia
E vou lá sempre, tenho-a na ideia
E sempre que lá vou ficou feliz
*
Misturo a natureza com a alma
Ao ver estas paisagens dá-me calma
E volta a lavrador quem foi juiz
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Custódio Montes
6.5.2022
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9.
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"E volta a lavrador quem foi juiz"
Tal qual volta a poeta a ser pintora
De imaginários, que não pinta agora,
Nem sobre lousa usando um pau de giz...
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Sobra a lembrança do que em tempos fiz
E que a minh` alma ainda comemora
Como se (re)criasse aquele outrora
Em que a figura humana era a matriz
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Mas nem sequer rabisco como dantes
Que a rabiscar uns traços hesitantes,
Prefiro não riscar coisa nenhuma
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E os versos também são figurativos:
Muitas vezes os toco, os sinto vivos,
Apesar de mais leves que uma pluma...
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Mª João Brito de Sousa
08.05.2022 - 20.35h
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10.
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“Apesar de mais leves que uma pluma”
Pintam os dias de hoje e de amanhã
Descrevem o passado com afã
E lembram-nos memórias uma a uma
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Os versos vão nas ondas sobre espuma
Navegam e combatem à titã
Falam do dia à noite e de manhã
Escondem-nos a dor por entre a bruma
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No verso vai o nosso encantamento
A tristeza esvazia-a num momento
O verso anda em nós o dia inteiro
*
Falamos com o verso dia a dia
Diálogos tão cheios de alegria
Como com um irmão ou companheiro
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Custódio Montes
8.5.2022
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11.
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"Como com um irmão ou companheiro"
Que em simultâneo é sempre nosso filho,
Nasce a canção, ressoa o seu estribilho
E somos uma orquestra a tempo inteiro!
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O soneto é, por vezes, marinheiro,
Noutras segue o seu rumo de andarilho,
Mas nunca usou algemas nem espartilho,
Nem dele o verso fica prisioneiro...
*
Talvez seja jurista e lavrador,
Mas pinta tal e qual pinta o pintor
E tece e fia como o tecelão
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Ou como o bom oleiro amassa o barro,
Vai à fonte, descalço, encher o jarro
E volta a casa pra cozer o pão...
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Mª João Brito de Sousa
08.05.2022 - 22.45h
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12.
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“E volta a casa pra cozer o pão”
Soneto, companheiro, anda, anda
Que vais comigo sempre a toda a banda
Soneto, companheiro, meu irmão
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Sou mais velho que os anos já lá vão
Mas agora o meu estro é que ciranda
Contigo debruçado à varanda
Ou em contos velhinhos ao serão
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Ser poeta é ter gosto e ter amor
Enfeitar o soneto a rigor
Olhar o mundo e ter a quem amar
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Platónico a adorar a madrugada
Inventar uma linda namorada
Uma aqui outra ali sempre a sonhar
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Custódio Montes
9.5.2022
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13.
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"Uma aqui outra ali sempre a sonhar"
Andam as musas a chamar por nós
E mesmo quando sós não estamos sós,
Que não param, as musas, de chamar
*
Corre, então, o Jurista a formar par
Com a Poeta de mui fraca voz
Que já perdeu as asas de albatroz
E não mais se lembrou de as procurar...
*
Namorados não quero, nem procuro,
Porque um só amor tive e aqui lhe juro:
Saudades não guardei da experiência
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A amizade é dif`rente e muito a prezo,
Mas queimar-me num fogo ainda aceso,
Só se eu cair nas garras da demência...
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Mª João Brito de Sousa
09.05.2022 - 10.50h
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14.
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“Só se eu cair nas garras da demência”
Agora que falamos com verdade
Namoros já se foram noutra idade
Falar neles agora é aparência
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O que o verso diz é uma evidência
E dizê-lo assim isso não nos há-de
Levar a ter de novo essa vontade
De ver à nossa volta essa envolvência
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Se na coroa vem ter-se um amor
É porque o poeta é um fingidor
Quem os versos ler, isso mesmo flui
*
Também vos enganei com artimanha
E meti na coroa esta patranha:
“Sou poeta. Jurista nunca fui.”
Custódio Montes
9.5.2022
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Obrigada, Ryk@rdo, pela parte que me cabe :)
ResponderEliminarFraterno abraço!
Obrigada, pela parte que me cabe, Anjo
ResponderEliminarQue tenhas, também, um belo dia na tua linda serra!
Beijinhos
Desculpa-me o atraso, Lis, mas hoje publiquei antes de verificar se havia notificações pendentes na caixa do correio electrónico...
ResponderEliminarObrigada, pela parte que me cabe nesta Coroa de Sonetos :)
Os sonetos são como sinfonias de ideias cujas notas vêm escritas numa pauta invisível
É importante conhecer bem as regras dos vários tipos de sonetos, mas nenhum verdadeiro sonetista pensa nelas quando está a criar. A musicalidade vem-nos de ouvido, como penso que acontece com os músicos instrumentistas...
Beijinhos