MEUS CAMINHOS - Custódio Montes e Mª João Brito de Sousa

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*


MEUS CAMINHOS
*


Coroa de Sonetos
*


Custódio Montes e Mª João Brito de Sousa
*


1.
*


Um túnel, uma estrada, um caminho


Que vão dar ao destino que me apraz


Outrora fui menino, fui rapaz


Andava noutras sendas de adivinho
*



Agora vou direito sem espinho


Em frente sem voltar de novo atrás


Outrora ia aonde era capaz


Sem medo pelos montes e sozinho
*



Na busca dos meus sonhos à deriva


Bem cheia a alma que era criativa


Sem raias no amor, na inspiração
*



Agora meus caminhos espaçados


São largos para mim mas apertados


Nas sendas que percorre o coração
*



Custódio Montes
(Sonetos)
*


2.
*


"Nas sendas que percorre o coração"


Quando a maturidade o auge atinge


Não ficamos parados como a esfinge,


Mas não corremos por qualquer razão
*



E serenamos em compensação


Porque evitamos tudo o que restringe


O verso manso que em chegando cinge


Nossa cintura, como se uma mão...
*



Devagar vamos, mas debalde não,


Que cada passo dado em comunhão


Com algum companheiro de poemas
*



Nunca poderá ser um passo vão...


Ah, que me importa ser idosa, então,


Se assim puder voar como os fonemas?
*



Mª João Brito de Sousa


22.02.2024 - 16.42h
***


3.
*
“Se assim puder voar como os fonemas”


Bem juntos uns aos outros conjugados


Andando no poema irmanados


Em ordem como firmes teoremas
*



Parte-se dum princípio e vários temas


Agrupam-se um a um organizados


Ficamos, quando os vemos ordenados,


Contentes e felizes, sem problemas
*



Encontram-se veredas ou caminhos


Que nos trazem lembranças e carinhos


Que tivemos na nossa mocidade
*



Seguimos passo a passo sempre a andar


E pomo-nos assim a recordar


Lembrando, passo a passo, a nossa idade
*


Custódio Montes
22.2.2024
***


4.
*
"Lembrando, passo a passo, a nossa idade"


Que tem também momentos de beleza


Pois chegar-se à velhice é já proeza,


Nem todos têm essa f`licidade...
*



Alguns aspiram à eternidade


Mas eu confesso com toda a franqueza


Não aspirar sentá-la à minha mesa


Por lhe não ter sequer grande amizade
*



Seja suave ou espinhoso este caminho


Nenhum de nós o vai fazer sozinho


Que é sempre bom escutar ao nosso lado
*



Os passos compassados de um amigo


Que te saúda e segue a par contigo,


Talvez ambos cantando um velho fado...
*



Mª João Brito de Sousa


22.02.2024 - 21.10h
***


5.
*
“Talvez ambos cantado um velho fado…”


Mas temos que arranjar uma guitarra


Da letra e da canção não basta a garra


O fado tem que ser acompanhado
*



Mas que este assunto fique bem ao lado


Que na coroa isso não se agarra


Prefiro ser formiga e não cigarra


Trabalho no poema atarefado
*



Sigo esse meu roteiro com mestria


Introduzo palavras de alegria


E mando esse tal fado passear
*



Trabalho na coroa em andamento


E tudo o mais se vai voando ao vento


Incluindo o dito fado e o seu cantar
*



Custódio Montes
22.2.20024
***


6.
*


"Incluindo o dito fado e o seu cantar",


Tudo hoje lança ao vento e vou temendo


Que a mim também me afaste... e me arrependo


De em fado ter falado sem pensar...
*



Sei que perdi a voz. Desafinar


Em fado que se cante é tão tremendo


Que logo me calei, a voz doendo,


E as pernas também, de tanto andar...
*



Pouco me importa agora a afinação


Que não volto a cantar. Não volto, não,


A menos que um remédio milagroso
*



Me cure desta imensa rouquidão


E eu possa enfim cantar uma canção


Às verdejantes terras de Barroso.
*



Mª João Brito de Sousa


22.02.2024 - 23.10h
***


7.
*
“Às verdejantes terras de Barroso”


Também as canto agora se puder


Mas é noite e não basta eu querer


Se pudesse ficava bem famoso
*



Levava até Oeiras orgulhoso


O meu rincão alegre para ver


A grande poetisa, essa mulher


Que tem um canto belo e valoroso
*



Ficaria encantado este meu monte


Ao ver aí o belo horizonte


Que cerca e rodeia esse lugar
*



Se a afinação das vozes fosse boa


Passávamos por cima de Lisboa


Para depois à porta lhe cantar
*


Custódio Montes
23.2.2024 (alvorada)
***


8.
*


"Para depois à porta lhe cantar"


Mas só o meu amigo... eu calaria


Porque a minha voz rouca assustaria


Lisboa e o Tejo inteiro até ao mar...
*



Fugiria a gaivota a esvoaçar,


O velho cacilheiro afundaria


E o Cais das Colunas julgaria


Que algum monstro o estaria a ameaçar...
*



Caminharia, sim, mas caladinha


Que voz que agora trago não é minha,


É a de um elefante a barritar
*



E eu que quando cantava era soprano,


Mal abro a boca, agora, causo dano,


Por isso é que não vou nem exp`rimentar!
*



Mª João Brito de Sousa


23.02.2024 - 09.50h
***



9.
*
“Por isso é que não vou nem exp’rimentar”


Mas nessa altura apenas ia ouvir


Eu e mais o meu monte a confluir


Na dita serenata e a cantar
*



Tem muito que fazer: acompanhar


As dores da Mistral e o seu carpir


O que há à sua volta e a ouvir


As ondas do seu mar a altear
*



Deitada a descansar no seu sofá


Talvez fosse melhor ou menos má


Ouvir a serenata - o nosso canto
*



Que o canto do meu monte é de tenor


E juntando-se ao meu fica melhor


E sentiria, então, algum encanto
*



Custódio Montes
23.2.2024
***


10.
*


"E sentiria então algum encanto"


Que o canto do seu monte é fascinante


Enquanto o meu, de tão tonitruante,


Esgotaria a paciência a qualquer santo
*



Caminho e já vislumbro o verde manto


Desse seu nobre monte inda distante...


Lá chegarei, que sigo sempre avante


E mesmo fraca ainda posso tanto...
*



A Mistral dorme agora sossegada,


Não vai fazer comigo a caminhada


Pois tem de descansar pra ficar bem
*



Quanto me falta ainda pra chegar


Ao monte que tão bem sabe (en)cantar


E que vou vislumbrando ao longe... além!?
*


 


Mª João Brito de Sousa


23.02.2024 - 11.10h
***


11.
*
“E que vou vislumbrando ao longe….além!”


Olha, vejo andorinhas a voar


E um verde deslumbrante a emoldurar


Um cantinho que fica ali tão bem!
*


Um monte como este ninguém tem:


A urze e a giesta a ondular


A água cristalina a borbulhar


Da fonte luminosa donde vem
*



É lindo o mar de Oeiras espalhado


Nos dias de verão mais descansado


Que canta alto agora, no inverno
*



Mas este monte aqui que agora alcanço


É todo o ano lindo e traz descanso


Que jóia de beleza e quão terno!
*



Custódio Montes
23.2.2024
***


12.
*


"Que jóia de beleza e quão terno"


É o altivo monte que alcançou!


Tento correr mas meu pé tropeçou


Num lenho que não foi nada fraterno
*



E quase me fez crer  ver o inferno


Na excruciante dor que me causou...


Ergo-me já que a dor quase passou,


Mas esse belo monte é sempre eterno
*



Tal como eterno é o mar de Oeiras,


Inda que alvoroçado e sem maneiras


Se mostre neste Inverno algo incomum...
*



Mas agora é pra Norte que caminho


Embora a coxear, devagarinho,


Pra não haver mais tropeção nenhum!
*



Mª João Brito de Sousa


23.02.2024 - 12.30 h
***


13.
*


“Pra não haver mais tropeção nenhum!”


Mas ande, não se esqueça do caminho


Ande mais devagar, devagarinho


Não corra muito, os passos um a um
*



Assim, no seu andar que é comum


A quem procura um ovo no seu ninho


Vai andar de certeza com jeitinho


Para que o seu prazer seja algum
*



Que os caminhos seguidos sejam belos


E os passos que vá dar sejam singelos


Para lhe darem muita animação
*


 


Lembrando todo o tempo lá detrás


Como era a juventude dum rapaz


Sem contrariedade ao coração
*



Custódio Montes
23.2.2024
***


14.
*


"Sem contrariedade ao coração"


E com a dor sanada, continuo


Que a cada passo da beleza fruo


Deste caminho que não sigo em vão
*



Até aonde alcança esta visão


Parece que levito ou que flutuo


E sigo em frente e sei que não recuo


Porque caminho em sua direcção
*



E vejo agora o jovem de que fala


Estranhando um pouco ver-me de bengala


E a caminhar assim, devagarinho
*



Para alcançá-lo faltam nem cem metros


Sem pedras nem ravinas, que são rectos,


"Um túnel, uma estrada, um caminho"...
*


 


Mª João Brito de Sousa


24.02.2024 - 14.40
***


 


 

Comentários

  1. Bom dia,

    Parece que foste a pé até às Terras de Barroso

    Bom e belo Sábado para ti também!

    Beijinhos

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  2. Os despiques ou desgarradas são sempre em redondilha maior que é o tempo, compasso e ritmo da boa quadra popular, Cheia! Eram - e são... - quase sempre ditos de improviso e ainda está para nascer quem consiga dizer de improviso sonetos em verso heroico.

    Olhe, agora ocorreu-me que nunca experimentei improvisar um soneto inteiro sem o escrever, assim, da boca para fora... Mas eu gosto mesmo é de os escrever, é quase como se voltasse a desenhar ou a pintar.

    Obrigada pela parte que me cabe

    Outro abraço, Cheia!

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    Respostas
    1. Muito obrigado, pelas suas explicações. Que bom que é aprender com quem sabe.

      Um abraço, Maria João!

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    2. Não tem de quê, Cheia. Estamos todos aqui para comunicar e aprendermos uns com os outros.

      Mais um abraço

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