DIALOGANDO COM CAMÕES NO SEU QUINGENTÉSIMO ANIVERSÁRIO XXIII

- oEIRAS, eVENTO NAS PALMEIRAS, POESIA, 2021 (1).jpg


Eu, fotografada por Rogério V. Pereira


*


DIVERSOS DÕES REPARTE O CÉU BENINO
*


 


Diversos dões reparte o Ceo benino,


E quer que cada huma alma hum só possua;


Por isso ornou de casto peito a Lua,


Que o primeiro orbe illustra crystallino;
*



De graça a Mãe formosa do Menino,


Que nessa vista tẽe perdido a sua;


Pallas de sciencia não maior que a tua:


Tẽe Juno da nobreza o imperio dino.
*



Mas junto agora o largo Ceo derrama


Em ti o mais que tinha, e foi o menos


Em respeito do Autor da natureza.
*



Que a seu pezar te dão, formosa dama,


Seu peito a Lua, sua graça Venos,


Sua sciencia Pallas, Juno sua nobreza
*



Luís de Camões
***



Eu que formosa fui em tempos idos


Mas despojada estou dessoutros dões,


Não sei por que converso com Camões


Se o grande vate não quer dar-me ouvidos...
*



Ainda que me cubra de vestidos,


De jóias de quilate e de galões,


Este corpo é tão falho em atracções,


Quão fértil em maleitas e pruridos!
*



De infindos dões, contudo, fui dotada


P`lo já citado Autor da natureza


Que mui pródigo foi para comigo
*



Ao dar-me a voz que deu, pra ser cantada,


Ao deixar-me morrer voltando ilesa


E ao ceder-me um tal Mestre enquanto amigo.
*


 


Mª João Brito de Sousa


16.04.2024 - 11.00h
***


 


 


O Soneto de Camões foi transcrito do blog Sociedade Perfeita

Comentários

  1. Esta conversa está muito interessante, bem haja por a levar adiante.
    Um abraço, Maria João!

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    1. Ainda bem que gostou, Cheia.

      Tinha deixado este soneto por acabar porque o achei muito mau, mas reli-o e não o achei tão mau como isso. Dei-lhe um jeitinho e publiquei-o!

      Outro abraço

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  2. Os diálogos com Luís de Camões são jóias de quilate e de galões.

    Abraço forte e solidário, Maria João 🌷
    não dou cravos vermelhos, dou túlipas de Amsterdão.

    Carinho para a companhia felina, a patusca Mistral.

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    1. Obrigada, Teresa!

      Acredite que nesta minha última ausência comecei, desisti a meio e deitei para o lixo vários diálogos com Camões que me pareciam péssimos poemas... Agora encontrei alguns que reli e já não me pareceram tão maus como isso. A esses pobres "salvados", terminei-os e tenho mais dois prontos a publicar.

      Aceito com prazer e gratidão as suas belas túlipas, mas só tenho uma braçada de cravos para retribuir

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  3. Brancas nuvens negras16 de abril de 2024 às 17:57

    A beleza, quando ela existe em nós, manifesta-se sob várias formas... e persiste.
    Um abraço.
    L

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    1. Muito obrigada, L.!

      A minha beleza, coitada, fugiu toda para os sonetos, que eu estou mesmo muito mais acabada do que a maioria das mulheres da minha idade.
      Até as mãos que até há bem pouco tempo eram bonitas estão a perder o seu fulgor...

      Um abraço!

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  4. Concordo muito com a sua leitora, a Cheia,
    Uma conversa que precisa plateia... e seguimento.
    Um luxo conversar com Camões e entende-lo ...talvez comigo seria um monólogo,
    e transferido tudo para uma prosa com Rogério ( o fotógrafo), nos entenderíamos
    mesmo com aquele entoar de frases cantadas... risos
    Gostei, amiga .Muito e deixo os abraços à distância ( até poque usava máscaras, neste dia.

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    1. Olá, Lis! :)

      Esta fotografia foi tirada pelo Rogério há uns três anos, creio, no passeio/alameda onde moro, durante um evento promovido pela Comissão de Moradores de Nova Oeiras que veio animar um pouco os reclusos da pandemia.

      Quanto às minhas conversas com o grande Mestre do soneto, parece que estão para durar,
      e entendo-o bastante bem porque li muitas obras neste Português ainda um pouco titubeante, com "ões" em vez de "ons" e outras deliciosas relíquias da nossa língua

      Um beijo, que os beijos virtuais não contagiam ninguém e embora o SARS-CoV-2 continue a circular por aí, já outros vírus gripais lhe passaram à frente em termos de morbilidade.

      Beijo

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    2. Lis, o Cheia não é uma leitora, é um leitor e o criador do blog Sociedade Perfeita no qual tenho andado a recolher estes sonetos da lírica Camoniana

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