BANDEIRA DE CORSÁRIO - Reedição

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*


BANDEIRA DE CORSÁRIO
*



À nuvem que crescia ordenei: - Gela!


E ela estremeceu, mas não gelou.


Quis pintar qualquer coisa e gritei: - Tela!


Mas ela fez-se surda ou nem escutou
*



Restava-me a memória, esta sequela


De um sonho (in)conquistado que passou,


Escondida onde nem eu dava por ela,


Murchando à sombra desta que hoje sou
*



Escrava da minha própria liberdade,


Jamais o burburinho da cidade


Me há-de arrancar à paz do meu estuário
*



Sobre o convés do galeão, que piso,


Disparo o meu canhão, sem pré-aviso,


E desfraldo a bandeira de corsário.
*



Maria João Brito de Sousa


19.07.2018 – 17.15h
***


Às minhas memórias de Emílio Salgari

Comentários

  1. A bandeira de corsário dá direito a atacar os inimigos. Mas, à Maria João, ninguém a arranca à paz do estuário do seu rio.

    Um abraço.
    ,

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    1. Viva, Cheia!

      Não senhor, ninguém me arranca à paz do meu estuário :) Estas são memórias de infância, nascidas das minhas leituras das obras de Emílio Salgari: quando tinha os meus seis ou sete anos queria ser Sandokan, o Tigre da Malásia, rsrsrs :)

      Um abraço

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  2. Brancas nuvens negras13 de junho de 2024 às 20:51

    Gostei tanto deste poema. O poder de imaginar é uma arma contra o desalento.
    Um abraço.
    L

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Viva, L.!

      Tem toda a razão, a imaginação é mesmo uma potente arma contra o desalento. Assim pudesse fazer desaparecer também as doenças degenerativas do tecido conjuntivo de que faço colecção sem nunca ter encomendado nenhuma... e daí... pensando melhor, creio que até para essas pode servir de lenitivo. :)

      Um abraço

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  3. Maria Elvira Carvalho13 de junho de 2024 às 22:47

    Gostei muito do poema.
    A minha imaginação fugiu há meses.
    Abraço e saúde

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    Respostas
    1. Compreendo-a muitíssimo bem, querida amiga.

      Obrigada pelas suas generosas palavras e um abraço solidário

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  4. Sabe, cara Sonetista? Quem tem uma mente tão fértil e deliciosamente criativa, como tem a Mª João, tem em si a maior arma de defesa contra todos os piratas, incluindo as maleitas que a vão tentando (ingloriamente) combater.
    Uma delícia este soneto, que as leituras de Emílio Salgari lhe inspiraram.
    Também devem andar por aí, deixados esquecidos, um ou dois livros dessas aventuras.
    Um grande abraço aventureiro, sobre a terra e sobre mar!

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    Respostas
    1. Viva, Janita!

      Talvez seja por isso mesmo que eu ainda estou viva apesar de todas as mazelas que carrego comigo

      Houve um médico que, em tempos, me disse: "A Maria João agarra-se à vida com uma força impressionante". E parece que sim, ainda que me tenham receitado, para os problemas articulares, uns comprimidos que os veterinários dão aos cães muito grandes e ferozes que não colaboram mesmo nada com eles :) Eu bem disse que sentia que aquilo me afugentava a Musa, mas os médicos não sabem como tratar de musas que são estados de espírito, entendem bem mais de gente de carne e osso e tudo o que consegui foi uma pequena redução na dosagem.

      Quanto aos livros de Emílio Salgari, é bem provável que ainda tenha alguns cá em casa, mas há muito que não consigo ficar de pé diante das estantes à procura dos livros que me foram muito queridos na infância. Neste momento, até a obra do meu avô anda espalhada por aí, ainda não a consegui reunir toda depois da limpeza que foi feita quando eu estava internada com o enfarte ao qual se seguiu uma ruptura da coronária, seguida de uma infecção urinária nosocomial, seguida de uma estuporada gripe A à qual, para rematar em beleza, se seguiu uma bruta pneumonia.

      Abraço aventureiro sobre a terra e sobre o mar

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