SILÊNCIO II - Reedição

Avô na casa de Algés (1).gif


António de Sousa, o meu avô poeta


fotografado pelo meu pai


*



SILÊNCIO II

*

 



Silêncio! Nem protestos nem queixumes

 



Soltam os versos mortos insepultos:

 



Perdem-se nos desertos dos ocultos

 



As aves desgarradas, quando implumes.

*

 

 



Não há escudos pra espadas de dois gumes

 



Nem há contra-veneno para insultos

 



E o meu silêncio nunca paga indultos

 



Nem serve a desistência em que o presumes

*

 

 



Arranco um verso ao prazo ultrapassado

 



De um mísero estertor dos meus sentidos

 



Que a ferro e fogo foi reconquistado

*

 

 



E já perdi a conta aos que, perdidos,

 



Deixei ficar pra trás... Ah, naufragado,

 

No teu silêncio afogo os meus gemidos!



*

 

 



Maria João Brito de Sousa 

 

25.07.2021 - 13.22h



*

Comentários

  1. Ah!, poeta
    se não tivesses assinado teu poema
    eu sempre apostaria ser teu

    Beijo deste teu neto e fã

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  2. Obrigada, meu neto-fã :)

    É mesmo assim, é. quem escreve poesia, ou mesmo prosa, deixa, no que escreve, qualquer coisa que funciona como uma impressão digital

    beijinhos da avó cansada

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  3. Também como o Rogério gostaria de assinar um poema assim,até
    porque são tantos os meus gemidos. E não há 'contra-veneno' ´para silêncios...
    E a foto do seu avô me tocou tão fundo_ sem avós sem mãe, não sei como sobrevivi.
    E lá vem a lágrima ...
    Beijinhos querida

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  4. Olá, Lis

    O que o Rogério escreveu foi que reconheceria a autoria deste soneto mesmo que eu não otivesse assinado...

    Mas vamos debruçar-nos sobre ti e sobre esses teus gemidos, que com os meus sei eu lidar muitíssimo bem: que se passa contigo, minha querida amiga? Bem, creio que acabo de fazer uma pergunta muitíssimo estúpida, porque no momento histórico que vivemos , só os corações de pedra não gemem, ainda que calados... É isso, não é? Penso que sim, mas não vou , de forma alguma, fazer mais perguntas sobre a tua vida particular que só a ti te diz respeito. Mas sempre te digo que há muitos, muitos anos que todos os meus ancestrais apenas vivem nas minhas memórias. Os seus corações deixaram de pulsar, mas o meu, embora bastante avariado, bate por eles todos e, por instantes, chego a acreditar que eles ainda estão bem vivos.

    Vou tentar secar-te essa lágrima com um abraço apertadinho

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