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CANTO DE UMA ANTIQUÍSSIMA MEMÓRIA

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    Lembras-te dos caboclos, já cansados, Enchendo a escadaria de queixumes? Dos carregos dos móveis, mal atados, De arestas afiadas como gumes?     E lembras-te de mim que, aos castigados, Enchia de perdões, dando perfumes? A pena que eu senti dos desgraçados A quem tu foste impondo os teus costumes…     Lembras-te do escritório, dos teus quadros, Da enorme cozinha onde as mulatas Preparavam segredos culinários     E cantavam baixinho aos seus amados? Lembras-te do brilhar das velhas pratas Por cima da janela e dos armários?         Maria João Brito de Sousa     Imagem retirada da internet     "Le philosophe, lorsqu`il n`a pas de motif pour juger, sait rester indeterminé"   DIDEROT

A CADA FARINHA, SUA SACA

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    “Não tentes comandar-me. Eu vou sozinha!” Entendo-te a surpresa; não conheces O exacto teor das minhas preces Nem aceitas que a escolha seja minha… Põe sempre em cada saca uma farinha Senão, mais valeria que as perdesses Ou que as não cozinhasses nem comesses Porque a mistura é sempre uma adivinha; Quase nunca uma espiga dá um grão Que seja exactamente igual a outro, Pois mesmo sendo grãos de um mesmo trigo, Pode um servir pr`a bolo, outro pr`a pão… Não queiras misturar pois, se és tão douto, Decerto o teu estará bem dividido…     Maria João Brito de Sousa       "Materialisme et spiritualisme sont les deux pôles de cette même absurdité qui consiste à croire que nos pouvons savoir ce que c`est la matière ou que l`esprit."   Huxley

O NASCIMENTO DA NORMA

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  Escreve-me uma cartinha pessoal - meia dúzia de linhas bastarão - E eu talvez te escreva uma outra igual, Ou talvez, afinal, nem escreva, não.     Possivelmente irás levar-me a mal, Mas, quase nunca tenho um só tostão E  a essa situação, por ser,  normal Não lhe presto, sequer, muita atenção,     Mas quero que, no fim, te identifiques E, sabendo que eu sou muito esquecida, Te tornes mais preciso e que me indiques     Referências de espaço, tempo e forma, Ou nem respoderei, por estar perdida E porque a recorrência gera a norma...       Maria João Brito de Sousa- 28.09.2010

SÁBADO, DOMINGO E SEGUNDA FEIRA XIX

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    FICCIONANDO     Eu amo a Poesia e a Verdade E o meu pior pecado é não mentir… Ficcionar? Tudo bem, se permitir Que a ficção venha a ser realidade.     Se ficcionando  alcanço a liberdade - tanto quanto eu a posso pressentir... – Já dela não me quero redimir, Nem dela me afastar pela vontade.     Veloz, a poesia, me precede E seguindo atrás dela nunca hesito Em chegar onde alcança um simples verso;     Uma mesma vontade nos concede Tentar ir `inda além do infinito E vir a conhecer outro universo…       Maria João Brito de Sousa – 26.09.2010 – 15.32h       "I`M EVERY WOMAN..."     Eu sou cada mulher que vai morrendo C`o filho adormecido nas entranhas, Cada gesto do grito em que me acendo E em que ensanguento os cumes das montanhas.     Por cada uma delas me apedrejam, Por cada uma delas ressuscito, Por cada uma exijo que me vejam E reafirmo aquilo em que acredito.     Eu sou cada mulher. Ela também. Sou filha, companheira, amante e mãe De cada pulsação desse teu peito.     ...

O POEMA QUE O CORPO ME RECUSAVA

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  Se um poema dependesse só de mim E não desses milhares de variáveis Que se não sabe quando têm fim E que jamais se tornam dispensáveis,   Ou se escrevê-lo fosse sempre assim, Tão certo quanto os meus inevitáveis... Mas não! Erva que cresça num jardim Expr`imenta mil destinos improváveis...   Agora, neste alívio de proscrita Que aqui vai renegando o seu castigo, A tactear, como se se espantasse,   Deixo, enfim, um poema que acredita E que agora mostrou ser meu amigo Por muito que o meu corpo o recusasse...       Maria João Brito de Sousa

SEI LÁ II

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  Sei lá se posso, ou não, continuar, Se devo ou nem sequer devo escrever, Se vale, ou não, a pena `inda teimar Quando a vontade teima em não nascer...   Não sei! Nem sei se posso acreditar Que amanhã ou depois me vá esquecer E que a vontade volte a conquistar Um dom que lhe parece não caber...   Perdi-me e não me encontro sem escrever-me Mas escrever-me não sei sem me encontrar, Por isso nada sei! Não me perguntem   Que estranha coisa está a acontecer-me, Porquê este soneto a gaguejar Nas palavras que ainda repercutem...     Maria João Brito de Sousa - agora, só porque seria perigoso para a minha permanência física não me nascer, sequer, um péssimo soneto.

NÃO FALES DO QUE NÃO SABES

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  Não me venhas dizer que é este o preço Que tenho de pagar mais uma vez! Não me venhas falar do que não vês Pois posso valer mais que o que pareço…     Nada tenho pr`a dar-te e nada peço. Só quero a minha paz porque talvez Eu tenha um bem maior que os teus porquês Na estranha lucidez em que me meço.     Não venhas de mansinho e disfarçado Com as falinhas mansas do costume; Não finjas ser um nobre protector,     Porque é possível que já tenhas dado Mais que o suficiente desse estrume Com que tentas cobrir tudo em redor.         Maria João Brito de Sousa – 20.09.2010 – 22.02h     IMAGEM RETIRADA DA INTERNET